Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Partido, Edição Nº 301 - Jul/Ago 2009

A ligação do Partido às massas - Experiência em S. Pedro da Cova

por Daniel Vieira

De nada vale ter uma organização muito bem estruturada, se esta não for concebida em função da ligação às massas. Sim, o reforço da organização é tarefa central na actividade diária dos comunistas. A dinamização permanente do recrutamento, a organização dos efectivos partidários, a responsabilização de novos quadros, a formação política e ideológica, o reforço da organização nas empresas e locais de trabalho, a estruturação e funcionamento das organizações de base, a integração dos membros do Partido em organismos, o alargamento do número de camaradas com tarefas regulares, a criação de novos organismos, entre outras medidas, são questões essenciais para o crescimento e fortalecimento do nosso Partido. Mas a organização do Partido e o seu reforço não podem ser vistos como um fim em si mesmo, antes um/o instrumento mais eficaz e determinante para dinamizar e reforçar a acção política, a luta de massas e contribuir para o alargamento da sua influência política e ideológica junto dos trabalhadores e do povo português.No XVII congresso do PCP foram identificados diversos bloqueios no trabalho de ligação às massas, nomeadamente a existência de organizações desligadas da vida e do meio social e político onde desenvolvem a sua actividade, e outras com um trabalho acentuadamente institucional. O XVIII Congresso concluiu que, apesar de registadas evoluções positivas no trabalho, persistem bloqueios que é necessário ultrapassar. Contudo, é de referir que as evoluções verificadas não estão desligadas dos significativos avanços no reforço orgânico do Partido, o que se pode concluir que só com um Partido mais forte é possível uma maior e melhor intervenção e acção junto dos trabalhadores e das populações.

Uma pequena experiência no Norte do país

S. Pedro da Cova é uma freguesia do concelho de Gondomar, distrito do Porto, com históricas tradições de luta e resistência, onde é significativa e visível a influência social, política e eleitoral do Partido. Não se pode desligar desta constatação, o facto de nesta freguesia ter funcionado durante cerca de 17 décadas um dos mais importantes complexos industriais mineiros do país, que absorveu uma significativa parte da mão-de-obra da freguesia. O encerramento das minas de carvão no início da década de 70 deixou na freguesia um rasto de miséria, desemprego, fome, mas também um conjunto de referências e valores que contribuíram para a construção de uma identidade própria. As heróicas greves e outras acções de luta desencadeadas pelos «homens toupeira» contra a exploração feroz de que eram alvo, e que teve a decisiva contribuição do Partido Comunista Português, ainda estão bem presentes na memória daqueles que viveram de perto com esta dura realidade.Hoje, passados cerca de 40 anos após o encerramento das minas, o papel do Partido continua a ser reconhecido por largas camadas da população. É verdade que não se pode desligar este reconhecimento das históricas tradições de luta a que freguesia assistiu, do elevado prestígio que o Partido foi acumulando junto dos operários do subsolo e suas famílias contra a vida desumana que levavam, e do contributo permanente e decisivo do Partido ao longo de décadas, antes e depois da Revolução de Abril, para que o povo de S. Pedro da Cova tivesse uma vida melhor, mas é sem dúvida o trabalho concreto e no presente do Partido na freguesia que tem contribuído para que nos últimos anos a sua influência e prestígio se amplie.O Partido também está mais forte em S. Pedro da Cova. De há três anos para cá, e correspondendo a uma resolução do Comité Central, têm-se vindo a realizar assembleias anuais da organização. A realização das assembleias de forma regular permite fazer um balanço mais concreto, fiel e objectivo dos avanços orgânicos e tomar as medidas necessárias de forma a corrigir erros, debilidades e obstáculos que vão surgindo. É possível, pois, ter uma melhor noção do que somos e fazemos.Com a actualização de dados conseguiu-se também obter uma maior ligação e participação dos militantes na vida partidária. Hoje são mais os que pagam quotas, sendo que segundo o balanço de 2008 pagaram pelo menos uma quota no respectivo ano, mais de 90% dos efectivos partidários. Um outro importante elemento para a influência política e ideológica está na imprensa do Partido, já que são vendidos semanalmente na freguesia cerca de 40 Avantes, sendo este número normalmente duplicado nas vendas especiais. A edição de documentos e propaganda própria, por parte da comissão de freguesia, tem sido decisiva para que as propostas do Partido sejam mais facilmente conhecidas pela população local. A inauguração em 30 de Setembro de 2007 do novo Centro de Trabalho do Partido na freguesia, num espaço central e digno, foi um passo importante para o seu reforço. Correspondendo às palavras do Secretário-geral do Partido proferidas durante a inauguração, esta nova casa não foi para ter e estar, antes tem funcionado como um espaço aberto a toda a população, onde se têm realizado de forma regular iniciativas que aliam a camaradagem e o convívio fraterno à acção e intervenção política. Foi um passo importante para a renovação de forças e a abertura de novas perspectivas no trabalho partidário. A campanha de fundos, ainda a decorrer, para a aquisição deste novo espaço, e os objectivos em torno dela alcançados, foram a prova provada da influência e prestígio local do Partido. Foram muitos os que não sendo comunistas ou identificando-se mesmo com outras forças políticas, mas reconhecendo o papel insubstituível do PCP para a construção de uma freguesia, um concelho ou um país melhor, quiseram estar solidários e contribuíram para a campanha de fundos. O Partido organiza anualmente a única iniciativa político-cultural de S. Pedro da Cova, a Festa da Unidade, que já conta mais de 30 anos na sua realização. A Festa da Unidade tem contado, ano após ano, com uma forte adesão popular, sendo de destacar nos últimos anos a participação de jovens, em particular da JCP, na sua concepção e construção, o que tem contribuído para o seu melhoramento.Com a realização anual das Assembleias de Organização, tem sido possível responsabilizar novos militantes. A Comissão de Freguesia eleita na 8.ª Assembleia da Organização, realizada no passado dia 15 de Fevereiro de 2009, foi mais uma vez construída com a preocupação de assegurar o necessário rejuvenescimento do organismo. Dos 22 elementos que a constituem, 8 têm menos de 35 anos, sendo que a cada camarada foi atribuída uma tarefa ou responsabilidade.É de realçar o número de camaradas que são membros da Comissão de Freguesia e que assumem responsabilidades em diversas colectividades. Metade dos camaradas da Comissão de Freguesia integra órgãos dirigentes de associações com diferentes âmbitos de acção e intervenção: associações culturais e desportivas; grupos folclóricos; banda filarmónica; associação de reformados; associação juvenil; associação de moradores; associação de defesa dos serviços públicos.S. Pedro da Cova tem um forte movimento associativo, contando com mais de 30 colectividades, sendo por isso fundamental a intervenção dos comunistas no campo associativo. Só com esta participação é possível conhecer os principais problemas e aspirações da população.O trabalho unitário, no quadro da CDU, tem funcionado também como um indispensável instrumento para o alargamento da base social do Partido. O envolvimento de vários independentes, com particular destaque para o envolvimento de muitos jovens, tem-se revelado numa importante experiência de trabalho, sendo que alguns deles acabam mesmo por aderir ao Partido. A CDU está na presidência da Junta de Freguesia de S. Pedro da Cova desde 1983, com um interregno entre 1997 e 2001, sendo-lhe reconhecida o trabalho e a honestidade na resolução dos problemas da população, afirmando-se como a única força política com propostas e um projecto para S. Pedro da Cova.Tal como já referi, o Partido está mais forte em S. Pedro da Cova, e só foi possível alcançar esse fortalecimento com a definição de objectivos concretos de reforço orgânico, dando expressão prática às orientações traçadas no XVII e XVIII Congresso. Mas está mais forte, não porque apenas tem mais militantes que pagam quotas, ou mais jovens nos organismos, ou um novo centro de trabalho que abre diariamente, mas sim porque está mais perto de cada militante, porque conhece melhor a realidade da freguesia, porque o rejuvenescimento efectuado não esqueceu a experiência e apenas lhe imprimiu nova dinâmica. Está mais forte porque está mais influente e isso vê-se na sua capacidade de mobilização, seja para as iniciativas locais, seja para Marcha CDU, seja para as grandes acções de massas, seja para o voto como recentemente aconteceu nas eleições para o Parlamento Europeu.