Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Partido, Edição Nº 301 - Jul/Ago 2009

A Ligação do Partido às massas - Nas empresas e locais de trabalho

por Manuel Gouveia

As experiências de trabalho na Organização Regional de Lisboa (ORL), direccionadas para a implementação das decisões do XVII e XVIII Congresso no que respeita ao reforço da organização do Partido nas empresas e locais de trabalho, suscitam numerosas reflexões no que se refere à ligação do Partido às massas.

Como tudo nos processos históricos, a ligação do Partido às massas não se decreta, não se decide em Congresso, e não permanece estanque, garantida onde a construímos, inalcançável onde não existe hoje. Ela depende do acerto das nossas orientações, na medida em que estas determinam a nossa acção, as nossas prioridades, a nossa linha política.  E de uma prática revolucionária que concretize essas orientações.

Porque no trabalho do Partido não podemos desligar as orientações da sua concretização. De nada nos servem orientações correctas se após a sua colectiva aprovação passarmos ao seu colectivo esquecimento. O Partido sempre definiu a ligação aos trabalhadores nas empresas e locais de trabalho como a prioridade das prioridades. Mas nem sempre teve a capacidade de aplicar essa orientação.

O militante comunista

O Partido faz-se com militantes, homens e mulheres que integram a sua acção individual no colectivo partidário. É no militante comunista que assenta o essencial da ligação do Partido às massas. Pelo que transporta do seu local de trabalho, da sua empresa, do seu sector, da sua classe, para dentro do Partido. Pelo que do Partido transporta de volta.

Aumentar o número de membros do PCP nas empresas e locais de trabalho é uma condição necessária (ainda que não suficiente) para o reforço da ligação do Partido aos trabalhadores. Nas empresas em que o Partido já está organizado, o recrutamento tem que ser também ele organizado: elaborando listas de trabalhadores a recrutar, definindo a melhor forma de abordar cada um, fazendo um regular controlo de execução da tarefa. Nas restantes empresas, é preciso ter a capacidade de definir as prioritárias, canalizar forças para nelas intervir, elaborar planos de trabalho e controlar a sua execução. Sem esquecer que na definição das prioridades têm peso os factores objectivos (número de trabalhadores, importãncia estratégica) mas que os factores subjectivos não podem ser menorizados (por exemplo, as consequências da situação social concreta da empresa). E canalizar o recrutamento de trabalhadores por via das organizações locais para o trabalho nas empresas.

Demasiadas vezes damos por terminado aqui o processo de recrutamento de militantes. E é de militantes que precisamos. É preciso transformar cada novo membro do PCP num novo militante comunista, através da integração num colectivo, da formação e da responsabilização.

A célula de empresa

A construção de células nas empresas (*) é um passo decisivo para o reforço da ligação do Partido aos trabalhadores. A análise da situação concreta, as linhas de intervenção colectiva, a ligação da acção em cada empresa à acção geral dos trabalhadores portugueses deve ser feita na célula. Mas também aqui não é o nome da coisa o determinante, mas antes a coisa em si. Ao Partido, não basta que exista uma célula de empresa. É preciso que ela viva como uma célula de empresa.

Exemplos recentes de como por vezes esvaziamos nós próprios o papel das células de empresa encontramo-lo na transferência para organismos para o trabalho sindical do papel de direcção da intervenção dos comunistas na empresa, e na não atempada substituição de trabalhadores que se reformaram por trabalhadores no activo.

Um outro exemplo, é quando permitimos que as células se reduzam à concretização das orientações (em sentido lato, ou seja, imprensa, propaganda, linhas de trabalho, prioridades, etc.) produzidas a níveis superiores, por muito importante e decisivo que essa vertente do papel das células seja – e é!. Mas não menos grave, é quando uma célula de empresa se abstrai da luta geral dos trabalhadores portugueses e das tarefas que o Partido lhe atribuiu nessa luta, e se desvia exclusivamente para a sua empresa como se esta fosse uma ilha.

Uma célula liga o Partido às massas e as massas ao Partido.

Organizar e dirigir o movimento operário

A acção dos militantes comunistas nas ORT's assume uma importância significativa na ligação do Partido às massas.

Pelo contributo decisivo que dão a essas ORT's, impulsionando-as para uma acção consequente, combatendo o oportunismo, dinamizando-as e reforçando o seu prestígio junto dos trabalhadores. Mas também pelo exemplo que os militantes comunistas nas ORT's são, pela coragem e determinação de que dão mostras, pela firmeza e capacidade que revelam.

A burguesia e os seus representantes no movimento operário, procuram afastar dos trabalhadores, institucionalizar, a acção das ORT's. Também no trabalho unitário, para que a ligação às massas seja permanentemente reforçada, é preciso uma prática próxima dos locais de trabalho, que partindo dos problemas concretos, alargue a consciência de classe e política, dinamize a participação na luta dos trabalhadores, e reforce no processo as organizações de classe. 

O reforço da organização sindical, particularmente das redes de delegados e o aumento da sindicalização, a criação e funcionamento das CT's e sub-CT's, e o funcionamento de Comissões de Higiene e Segurança, são tarefas centrais de uma célula de empresa.

A propaganda própria das células de empresa

O Partido ultrapassa parte da repressão de que é alvo por parte das classes dominantes pela sua capacidade de se dirigir directamente às massas. Mas fá-lo sempre num ambiente que está enquinado pelos gigantescos meios de propaganda da ideologia dominante. Sendo a empresa o centro do confronto de classes, a propaganda própria das células de empresa assume uma eficácia muito grande.

Partindo dos problemas concretos para o seu enquadramento na luta de classes, apresentando a perspectiva e incluindo nessa perspectiva os objectivos e as formas de luta, a propaganda das células de empresa assume um papel precioso na ligação do partido às massas.

E esta tem sido uma grave debilidade do Partido. Em demasiadas situações, tal deveu-se à completa substimação da tarefa ou mesmo a um desvio no trabalho, «delegando» o Partido no movimento unitário as suas responsabilidades nos campos da propaganda e agitação (com a, mesmo assim demasiado esporádica, excepção dos momentos eleitorais). Na ORL, o controlo de execução regular ao nível do Executivo Distrital tem permitido sensíveis melhorias neste trabalho, mas ainda muito longe das necessidades e possibilidades, bem expresso no facto de já se ter editado (ou, só se ter editado) propaganda sobre os seus problemas dirigida aos trabalhadores de cerca de 60 empresas.

O trabalho institucional e as empresas

A ligação do trabalho institucional do Partido directamente às empresas, por via da acção organizada do Partido nestas, é uma vertente do trabalho de massas. Essa ligação dá sentido à existência de eleitos comunistas nas instituições burguesas, contribui para a elevação da consciência política dos trabalhadores e alarga a luta..

Como em todas as restantes vertentes do trabalho de massas, a força do Partido está na capacidade de partir das massas para as instituições e destas para as massas, nunca desviando para as instituições o papel transformador que só as massas assumem. A importância de uma moção numa Assembleia de Freguesia, dum requerimento ao Governo ou de um projecto de lei não se medem pela complexidade técnica envolvida na sua elaboração, mas sim pelo seu impacto nas massas. 

Este ligação depende muito da disponibilidade, capacidade e firmeza dos colectivos de eleitos comunistas nas instituições. Mas várias experiências de trabalho envolvendo as células do Partido nos sectores da ORL e o colectivo de deputados comunistas na Assembleia da República, mostram que essencialmente está nas mãos das células de empresa, da sua capacidade de iniciativa e direcção.

O «Avante!»

A venda organizada do «Avante!» representa um patamar superior da ligação do Partido aos trabalhadores de uma empresa. Pelo que significa no plano da organização, pela importância na formação e informação dos militantes, pelo que o núcleo de leitores do «Avante!» irradia para dentro de toda a empresa.

Hoje, em demasiadas empresas e locais de trabalho, não conseguimos superar as dificuldades objectivas que permitam ultrapassar esta fasquia superior da ligação do Partido às massas. A difusão do «Avante!» não se suporta numa acção irregular. É preciso organizar a sua distribuição, a sua difusão e a sua venda. Todas as semanas. A tarefa de «difusor do «Avante!», cuja plena assumpção só está ao alcance dos mais disciplinados militantes do Partido, tem que assumir, na distribuição das forças partidárias, o papel prioritário que de facto tem.

Concluindo:

A ligação do Partido às massas é o resultado de uma laboriosa acção militante e colectiva, de uma corajosa e firme direcção e definição de prioridades. Essa ligação torna o Partido indestrutível do exterior. Mas não é a nossa defesa que nos move. É que nós sabemos – e não podemos esquecer – que são as massas que alcançarão a sua própria libertação. Com o movimento operário e o Partido na vanguarda.

(*) Falarei sempre de célula de empresa por economia já que essa realidade é mais diversa, fruto das condições objectivas que encontramos no desenvolvimento da acção partidária. Grosso modo, a célula será de empresa sempre que possível, mas será de sector ou geográfica sempre que necessário.