Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Abertura, Edição Nº 307 - Jul/Ago 2010

Valorizar 29 de Maio, persistir na luta

por Revista «O Militante»

A importância da manifestação de 29 de Maio que ao apelo da CGTP-IN reuniu em Lisboa mais de 300 000 pessoas é realmente muito grande. Pela sua extraordinária dimensão.  Pela combatividade e determinação demonstrada em prosseguir a luta. Pela generalizada alegria e confiança de quem se sente participante de uma formidável corrente de protesto e luta capaz de barrar o caminho à ofensiva e de vencer.  Quem participou nesta grande manifestação nacional certamente que saiu dela reforçado na convicção da justeza da luta e da necessidade e possibilidade de lhe dar ainda mais força. Certamente saiu ainda mais motivado para intensificar a acção de esclarecimento, organização e mobilização que se impõe contra o roubo dos salários e demais atentados às condições de vida e direitos dos trabalhadores e do povo. Ao nível das empresas e locais de trabalho, em primeiro lugar, pois se é aí que o confronto de classe se revela mais duro e mais difícil é também aí que ele mais dói ao patronato e é mais susceptível de fazer avançar a consciência política dos trabalhadores. Mas a luta tem de ser travada por toda a parte, resistindo a cada medida do PEC, procurando, como em larga medida aconteceu a 29 de Maio, unir em torno da classe operária as outras camadas sociais não monopolistas, também elas golpeadas pela ofensiva, sempre com a perspectiva de acções mais amplas no plano regional e nacional (como em 8 de Julho) e que coloquem o grande capital e o seu Governo de serviço perante a maior convergência e força possível do protesto das massas populares e da exigência de ruptura com as políticas de direita.

.

A manifestação de 29 de Maio teve um mérito que é particularmente importante sublinhar. Foi uma vitória da persistência, da organização e da confiança nas massas e representou uma humilhante derrota daqueles que, como José Sócrates, escarneceram da organização e combatividade do movimento sindical e do povo português, e daqueles outros que, de Mário Soares à Ministra do Trabalho passando pelo Presidente da UGT divisionista, com a sua cultura de sujeição ao imperialismo, não hesitaram em acusar a resistência e a luta popular contra as leoninas exigências da União Europeia, de prejudicar a imagem do país no estrangeiro e contribuir para o agravamento da própria crise.



.

Não é fácil derrotar os profetas do fatalismo e levar as massas a confiar em que há alternativa para trinta e cinco anos de políticas de direita que têm arruinado o país. A própria crise e o brutal nível de desemprego que a acompanha, geram, com a ajuda de uma propaganda avassaladora, medos e sentimentos de fatalismo e  resignação desmobilizadores. Anos e anos de governos em que a um se sucede outro ainda pior, seja ele do PS, do PSD ou dos dois acompanhados ou não pelo CDS-PP, tornam mais difícil às massas visualizar a possibilidade de uma viragem democrática que não está à vista, e que depende decisivamente da luta das próprias massas. É por isso que 29 de Maio ficará como uma expressão, não só de combatividade mas de consciência de classe e de maturidade política, mostrando a possibilidade de a luta evoluir para formas ainda mais massivas e superiores de luta.A grave situação do país é inseparável da crise que grassa no mundo capitalista e em particular na União Europeia, e a ofensiva conduzida pelo Governo do PS, de modo articulado com o PSD, é parte integrante da resposta do grande capital que não só quer atirar para cima dos trabalhadores os custos da crise como procura tirar partido desta para impor uma regressão política e social de dimensão histórica. Mas isso não deve fazer esquecer as responsabilidades de décadas de políticas de direita que destruíram o tecido produtivo, desmantelaram o sector público empresarial, endividaram o país e alienaram instrumentos fundamentais de soberania. É tendo em conta esta realidade que o Comité Central na sua reunião de 27 e 28 de Junho avança um conjunto de medidas urgentes para a saída da crise – visando o desenvolvimento económico, a produção nacional, a criação de emprego e justiça social – e apela aos trabalhadores e ao povo a lutar pela sua concretização.

.

Concentrando forças no desenvolvimento da luta de massas – dos trabalhadores, dos agricultores, dos pequenos e médios empresários, das populações, das mulheres, da juventude, dos reformados – os comunistas têm simultaneamente de cuidar da organização partidária e trabalhar para a concretização dos objectivos da acção «Avante! Por um PCP mais forte». Não é fácil  dar simultaneamente grande atenção ao desenvolvimento da luta social e política e ao reforço do Partido. A verdade porém é que as duas coisas estão indissoluvelmente ligadas. É na luta que se revelam aquelas mulheres, homens e jovens sérios e combativos de que o Partido necessita para renovar e rejuvenescer muitas organizações e ligá-las estreitamente com as massas. É na luta, junto daqueles que reconhecem o papel imprescindível do PCP na vida nacional, que podemos ampliar a recolha de apoios financeiros ao Partido. É na luta, e porque reflecte essa luta com verdade, que a imprensa do Partido pode chegar mais longe e tornar-se para muitos comunistas e outros activistas uma ferramenta indispensável. É na luta que se provam militantes, quadros e organizações, pondo à prova as suas qualidades, revelando quer potencialidades desconhecidas, quer atrasos, dificuldades e mesmo rotinas a superar.Na Sessão Pública «O Partido com paredes de vidro: o Partido, o Ideal e o Projecto Comunistas», uma das iniciativas com que PCP assinalou a passagem de cinco anos sobre o falecimento do camarada Álvaro Cunhal, o Secretário-geral do PCP destacou esta questão afirmando: «Nesta obra fascinante de Álvaro Cunhal, encontramos no momento de grande intensidade de luta, intervenção e iniciativa política, a importância da organização como expressão e instrumento da força do Partido e princípio geral e universal de trabalho. O livro define o conceito integrado da organização e da luta de massas. Como afirma, a organização é um instrumento capital para promover, orientar e desenvolver a actividade da luta de massas. E a actividade e luta de massas constitui o terreno fecundo em que germina, se desenvolve, floresce e frutifica a organização do Partido».A compreensão desta realidade, que não é descoberta de hoje mas património histórico do PCP, é indispensável para que o Partido esteja à altura das suas responsabilidades. Hoje como ontem e como sempre, «Organizar e lutar, lutar e organizar» é uma palavra de ordem que deve estar presente onde quer que um comunista se encontre.



«Organização e trabalho de massas

A organização e a actividade e a luta de massas estão dialecticamente unidas. São, uma e outra, no seu paralelo desenvolvimento, simultaneamente causa e efeito.Só foi possível criar e construir uma organização como a do PCP porque o trabalho de massas tem sido ao longo dos anos o fundamental da actividade do Partido.E só se pode ter um trabalho de massas tão vasto e profundo, como realiza o PCP, dispondo o Partido da organização de que dispõe.A organização é um instrumento capital para promover, orientar e desenvolver a actividade e a luta de massas. E a actividade e a luta de massas constituem o terreno fecundo em que germina, se desenvolve, floresce e frutifica a organização do Partido.»

Álvaro Cunho, O Partido com paredes de vidro,edições «Avante!», 5.ª edição, Lisboa, Novembro de 1985, pp. 186-187.