Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Organização, Edição Nº 307 - Jul/Ago 2010

É preciso confiar nas massas e estar lá, junto delas

por Patricia Machado

A ligação às massas, o conhecimento profundo da situação, dos problemas e dos anseios dos trabalhadores e do povo, o contributo para o seu esclarecimento, organização, unidade e luta, na concretização do papel de vanguarda do Partido e visando o alargamento da sua influência, é uma questão central do trabalho partidário, da acção das organizações e dos militantes, que se concretiza através de diferentes linhas de orientação e iniciativas.

Mais uma vez reafirmada, esta orientação, saída do XVIII Congresso do PCP, contempla uma das componentes essenciais do trabalho do PCP enquanto partido revolucionário. Nas várias etapas históricas das sociedades, os processos revolucionários e de transformação tiveram, além de factores objectivos, o factor subjectivo do Partido e o papel das massas como condição para que se alcancem transformações.Para as organizações do Partido assumirem o papel de vanguarda da luta e da transformação precisam de estar profundamente ligadas às massas e de terem conhecimento dos problemas e das aspirações dos trabalhadores e de outras camadas sociais.   As realidades variam de região para região, assim como as especificidades, bloqueios de intervenção, necessidades e problemas. Para levar a cabo esta tarefa decisiva do nosso Partido, a estruturação, a organização e o desenvolvimento criativo das orientações são essenciais para o aprofundamento e alargamento das condições de acção e de intervenção.Os trabalhadores e a maioria do nosso povo confrontam-se, hoje, com duros ataques às conquistas de Abril e à Constituição da República, ditados pelo grande capital e executados pelos sucessivos governos. Medidas que integram o PEC, como a privatização de sectores estratégicos, o roubo nos salários e pensões e o aumento dos impostos, o corte no investimento público, a desqualificação e destruição de serviços públicos, juntamente com a destruição do aparelho produtivo, o aumento da pobreza, o ataque à contratação colectiva, o desemprego e a precariedade, colocam ao país, aos trabalhadores e ao povo a necessidade de lutar e exigir um caminho alternativo.As forças do grande capital e de quem o serve têm procurado, através de uma intensa batalha ideológica, transformar em real o falso com as velhas receitas da inevitabilidade, do conformismo e do individualismo. O ataque à unidade e à luta dos trabalhadores e a quem defende os seus interesses, como o PCP, está na primeira linha da sua actuação.Não podemos, nem devemos ignorar os efeitos que têm nas massas. A transformação não depende só das forças que a desejam mas também de quem a combate.As mensagens do grande capital dirigidas às massas levam a que nos confrontemos, em muitas das nossas acções, com as repetidas frases: «Não há nada a fazer!», «São todos iguais!», «Isto está mal, mas o que fazer…, isto tem de ser assim!». É por isso que o esclarecimento se transforma num imenso desafio para as organizações e militantes do Partido. Pôr as pessoas a pensar e a reflectir não é tarefa fácil, mas é fundamental para romper com ideias feitas propagandeadas pelo grande capital.Realizamos regularmente distribuições de documentos do Partido, mas utilizá-los como instrumento de diálogo e de esclarecimento é mais exigente para o militante. Não basta dar o documento, ou perguntar se quer comprar o Avante!. Fazer a ligação das ideias e das propostas com a realidade concreta dos problemas daqueles trabalhadores, ou da população da freguesia, ou do concelho, é a questão central da tarefa de informação e propaganda.É essencial o combate a ideias como: «O povo é que tem a culpa», «Quando bater no fundo é que vão ver». A miséria nunca foi boa conselheira e é com este povo e com estes trabalhadores que precisamos e vamos construir a alternativa. Confrontamo-nos cada vez mais com o crescente descontentamento e indignação à porta das empresas e das fábricas, nas ruas e nos bairros. Mas descontentamento não é sinónimo de consciência. A consciência adquire-se e constrói-se na luta e na experiência do trabalho colectivo, e por isso temos que, incansavelmente, trabalhar e intervir para estar lá, onde estão as massas, estar lá e conhecer os seus problemas, estar lá hoje, amanhã e sempre para ganhar mais e mais massas populares para a luta e para o entendimento de que esse é o caminho.Transformar o descontentamento em acção e intervenção é exigente e complexo. As massas podem estar descontentes, mas, em muitos casos, estão simultaneamente «desorientadas», sem noção para onde se podem dirigir, sem ideia de qual é o verdadeiro caminho alternativo. Cabe ao PCP e aos seus militantes orientá-las. Quantas vezes questionamos os trabalhadores e a população e nos dizem: «Têm razão», «Não tinha pensado nisso». A tarefa de levar às massas o nosso programa «Portugal: uma democracia avançada no limiar do século XXI», é contribuir para transformar na sua consciência a inevitabilidade em potencialidade e alternativa. Também por isso o PCP, no comunicado do Comité Central saído da sua reunião de 17 de Maio de 2010, refere: «Só a luta da classe operária, dos trabalhadores e todas as classes e camadas não monopolistas poderá travar estas medidas e garantir o futuro de justiça social e desenvolvimento que Portugal precisa». Esta exigência será tanto mais possível quanto mais reforçado estiver o PCP. Organizar para intervir é discutir para intervir junto das massas. Quando realizamos Assembleias das organizações, responsabilizamos mais quadros, recrutamos, difundimos e vendemos o Avante! e O Militante, reforçamos a nossa capacidade financeira, estamos a contribuir para o reforço orgânico do nosso Partido e, consequentemente, para o trabalho de ligação às massas. Criar uma célula, colectivo ou organismo é, em primeiro lugar, criar um espaço onde os militantes daquela empresa, sector, freguesia ou concelho podem discutir os problemas concretos, levando não só a sua experiência e conhecimento como a realidade sentida e as aspirações dos trabalhadores ou da população.O nosso Partido tem experiências muito ricas de desenvolvimento criativo das orientações. A elaboração do boletim de célula de empresa é um desses exemplos, transpondo para uma folha de papel os problemas daqueles trabalhadores e as propostas do PCP. Na maioria dos casos os trabalhadores revêem-se neles, reagem às ideias reflectidas no documento e, nalguns casos, até fazem sugestões.A venda do Avante! à porta da empresa, ou numa praça, é outro dos exemplos. São tantas as vezes em que já fomos surpreendidos com o conhecimento dos trabalhadores da existência do nosso órgão central e tantas foram as vezes que esgotámos o número que decidimos levar!Exemplos como estes fazem com que o nosso Partido esteja mais próximo das massas e que estas estejam mais próximas de «Tomar partido». Para tal, também é necessário que estejamos atentos àqueles com quem trabalhamos no plano unitário. São inúmeras as situações, nomeadamente em períodos eleitorais, em que contactamos e envolvemos pessoas e que, passado esse período, se traduzem em trabalho efémero. Precisamos e queremos que se mantenham connosco e para isso a organização do Partido é condição insubstituível e saímos reforçados quando tal acontece.Igual preocupação deve ser a dos militantes comunistas no movimento associativo e sindical, que contactam com milhares de trabalhadores e com outros dirigentes, delegados e activistas. A acção e intervenção dos comunistas nos movimentos unitários constituem um elemento que contribui para a construção da unidade, da luta e da elevação da consciência das massas.O nosso potencial de recrutamento junto das massas é enorme, sobretudo se tivermos em conta que muitos dos que aderiram ao PCP nos últimos anos vieram ter connosco. É por isso também fundamental continuar e reforçar o sentido «inverso», tomando a iniciativa de convidar a aderir ao Partido os trabalhadores sérios que se destacam nas lutas. São estas algumas das muitas tarefas que se colocam às organizações e aos militantes comunistas na perspectiva de reforçar o nosso trabalho de ligação às massas. O Partido, na sua reunião do Comité Central de Abril de 2010, fez um balanço da discussão e do trabalho desenvolvido ao longo do 1.º trimestre nas organizações e organismos. A importância desta discussão, o envolvimento e consciência dos militantes foram uma realidade sentida. No entanto, muito há ainda a fazer e as organizações têm essa consciência. Existe, a par das dificuldades, um conjunto de potencialidades que precisam ser exploradas e desenvolvidas junto dos trabalhadores, dos agricultores, das mulheres, dos reformados, do movimento associativo, entre outras, que cada organização, pelas suas condições, deve avaliar.

Ser, e não apenas afirmar-se, vanguarda não se compadece com o isolamento de uma força política e uma intervenção separada das massas. Exige, sim, a par de uma orientação política correcta, uma profunda ligação com as massas, a capacidade de ganhar as massas para a luta, de fundir a acção dos militantes de vanguarda com a acção das próprias massas. (Prefácio de Álvaro Cunhal ao IV Congresso do PCP)

E continua a ser este o grande desafio e a tarefa decisiva do PCP e das suas organizações.