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Efeméride, Edição Nº 315 - Nov/Dez 2011

Alves Redol - A escrita contra a sujeição

por Domingos Lobo

Este texto pretende-se evocativo de um dos autores mais fecundos, éticos e corajosos da ficção portuguesa do século XX; um dos obreiros do movimento estético e literário que teve na sua génese o contar das vivências, das lutas e das dores dos humilhados e ofendidos, dos «homens que acrescentavam ainda mais realidade ao real», no dizer de Óscar Lopes. No ano em que se cumprem 100 anos sobre a data do seu nascimento, a obra de Redol merecia uma mais extensa, demorada e profunda análise: ficam, no entanto, neste texto breve, alguns sinais para que os leitores regressem a um autor e a uma escrita que, tantos anos volvidos, ainda nos convoca, seduz e indigna.

Porque, como o afirmou Alexandre Pinheiro Torres no seu ensaio Os Romances de Alves Redol, avieiros «há-os por todo o lado: milhões de avieiros, que vêm hoje até às margens das cidades, avieiros, cujas angústias simbolizam as de um povo traído em nova revolução frustrada pelas ambições dos burgueses iluminados como o Polidor de Reinegros» (1).

É ainda a oportunidade para relembrar um autor e uma obra singulares que as nossas faculdades de letras têm, de forma sistemática e ideologicamente orientada, ignorado.

Não deixa, no entanto, de ser uma obra urgente e necessária nestes dias amargos que nos impõem. O próprio Redol, no prefácio à 6ª. edição de Fanga (1963), não deixou de o assinalar: «Exijo para mim a saudável simplicidade de reenunciar as necessidades primárias do homem português alienado pela servidão, pela suspeita e pelo medo, sem que me perturbem os rótulos que cada qual queira emprestar-me. As verdades profundas e urgentes são muito lineares em certas épocas. A autêntica vanguarda literária está nos que souberam chapá-las a corrosivo nos lombos da besta.»

Tal como em 1939, ano da publicação de Gaibéus, embora escudados por uma subtil camada de verniz cosmopolita, sob a égide do neo-liberalismo, continuamos a ter à liça os Agostinho Serra, senhores de poder e mando, os Francisco Descalço, subalternos que lhes aparam as migalhas e estendem o tapete para que o esbulho e as humilhações quotidianas permaneçam intactas e se aprofundem. Para tanto, basta que alguma coisa mude, como dizia o senhor Giuseppe Tomasi di Lampedusa (um cenário minimal, um leve odor de Calvin Klein, um humor rançoso) para que a essência da exploração capitalista perdure.

Gaibéus mostra-nos um Alves Redol jovem que se lançava à tarefa de nos contar a saga desse rancho de homens e mulheres que das Beiras desciam, no final do Verão, aos vastos campos do Ribatejo para as tarefas de ceifa dos arrozais, mas, apesar de um romance primeiro e de juventude, este texto revela-nos um autor já destro no manejo da língua, senhor de um estilo seguro, de uma peculiar forma de contar que percorreria, num labor incomum (Alves Redol teve vida breve, vindo a falecer com apenas 58 anos), cerca de 34 títulos, abarcando o conto, o romance, o teatro e as estórias para a infância. Esse trabalho de contínuo e apurado exercício ficcional, culminaria com a publicação, em 1961, daquele que a crítica considera o seu melhor romance e uma das obras-primas do neo-realismo: Barranco de Cegos.

O autor era, aos 28 anos, um escritor já de prosa enxuta, rodada no conto, na crónica e na escrita jornalística, trazendo no bornal das experiências adolescentes uma breve e pouco frutuosa passagem por Angola, conhecedor das gentes e da paisagem ribatejanas, das grandezas e misérias da lezíria de entre Tejo, Sorraia e Almansor, observador atento e estudioso (veja-se esse incontornável ensaio de etnografia que é «Glória, Uma Aldeia do Ribatejo», no qual o ficcionista não está ausente) dos hábitos e tarefas do seu povo, desse povo da «borda d´água» ao qual orgulhosamente afirmava pertencer.

Das notas encontradas no seu espólio, consta uma sintomática reflexão sobre os ofícios de escritor, ofício que ele sempre exerceu com coragem, luta e desafio, não desligando essa tarefa das suas actividades políticas e cívicas: «Se um dia alguém me perguntasse que aprendizagem deveria um jovem fazer para chegar a romancista, se o ofício se ensinasse, eu diria que enquanto a vida lhe não desse todas as voltas e reviravoltas, amores, sofrimentos, repúdios, sonhos, frustrações, equívocos, etc., etc., (...) seria avisado que o mandasse ensinar a sapateiro, não para saber deitar tombas e meias solas, porque nem para tanto ele usufruirá, às vezes, com a escrita, mas para que ganhasse o hábito de padecer bem, amarrado ao assunto durante largos anos, antes que provasse o paladar gostoso de algumas horas de pleno prazer». E esse prazer teve-o Redol em muitos dos seus textos, prazer que, junto com a indignada revolta que muitas das suas páginas ainda hoje nos provoca, com ele partilhamos e sentimos ao lê-lo.

Gaibéus, o primeiro romance de Redol, é um marco histórico no movimento neo-realista, dado que iniciador de uma corrente literária sem a qual dificilmente conseguiríamos entender o contexto sócio-económico vivido durante o regime fascista e as lutas a que essa especificidade social e histórica deu origem, mas inaugura igualmente um novo modo de contar, de olhar o real, embora nestas páginas perpasse, por vezes, indelével, o ofício de repórter que atenta aos pormenores da paisagem, aos humores do tempo e da natureza, detectável sobretudo no capítulo inicial. Pormenores que substantivam o estilo ao invés de o tornar opaco. Em Gaibéus, Redol introduz, com inteligente parcimónia, um processo narrativo que só encontraremos muito mais tarde na novelística portuguesa: a elipse, a repetição frásica (e, neste particular, os versos das cantigas que criam, na sua repetição sincrónica ao longo do texto, atmosferas a um tempo distanciadoras e dramáticas) e a heterodiegese.

E é este sentido de espaço amplo das personagens que entram na narrativa, a pluralidade de vozes que a enformam, que tornam Gaibéus uma epopeia na qual o herói é o corpo colectivo, esse punhado de homens e mulheres que de sol a sol na campina buscavam o sustento para os dias amargos do Inverno que se aproximava. E se, nesse corpo heterogéneo, apenas os sonhos esparsos do «ceifeiro rebelde» parecem entender a real dimensão do momento e da exploração de que são alvo os alugados, se apenas ele tem essa lucidez e essa isolada angústia, não é menos verdade que os outros, embora de forma menos evidente e dialéctica, sentem, cada um a seu modo, na pele e na carne a profundidade dessa exploração e da sujeição que os oprime: «aquelas, as éguas apeadas, estão com´à gente...». E sentem, mesmo dobrados sobre a terra, olhos cegos de tanta seara por ceifar, que «na crista das marachas os capatazes espiam sempre» e que o destino é coisa difícil de torcer, porque «a ceifa não pára, não pára nunca», metáfora de quem só a terra abarca no círculo do olhar – são batalhas sem fim, a da seara e a do destino, que não impossíveis de vencer. Até o céu, que tanto pode suspender um sol abrasador (áuga, áuga, pedem os alugados, gargantas secas de sol e suor), como trazer borrasca no capricho cinzento das nuvens. E, a chuva, obriga a paragem nas tarefas da ceifa e logo a menos jorna, menos dinheiro nos bolsos minguados para o regresso à leira natal e aos rigores invernais. Daí que os gaibéus prefiram sofrer a canícula e a secura das gargantas a rebentar de sezões (áuga, áuga) do que perderem um dia curvados, de sol a sol, na ceifa e na debulha.

Óscar Lopes refere, num estudo que dedicou a este romance de Redol, que o autor não prestou particular atenção, como faria em textos posteriores, como faria em Marés, Avieiros e no Ciclo Port Wine, «à dialéctica pessoal da conduta, à entredeterminação de uma personagem e da sua história», opondo-se, desse modo, ao personalismo literário da malta da Presença. Embora concordando com o mestre, entendo que nessa particularidade reside ainda hoje a importância dos modos narrativos experimentados por Redol e a singularidade semântica e de corpo orgânico deste modelar romance. Neste texto, o sujeito é o corpo colectivo, o rancho, essa anónima força que apenas a espaços se individualiza para introduzir novos elementos de unidade ficcional. Daí que o patrão, Agostinho Serra, seja apenas um esboço, um traço de pena («não tenho medo que me não gramem», diz ele e basta), que a Rosa do rancho do Francisco Descalço, depois de violada pelo patrão se negue a regressar à aldeia, se transforme em Balbina e se perca na Rua Pedro Dias, que o Cadete, o Pananão, o Passarinho, Fomelas e o Marrafa, sonhem com afagos de mulheres, ladrões heróicos e fugas para o Brasil, que «o ceifeiro rebelde» parta com o bornal às costas à procura de outro poiso para o corpo e outra sorte como maltês que é; rabezanos e gaibéus são apenas a mancha escura, anódina, dobrada na campina, dado que ali «não há homens, só máquinas» e o dinheiro que assim os obriga não é mais afinal «que a apoteose da incerteza do ano», todos «ferrados com o nove, quem padece é o pobre», atados ao mesmo chão. É a opressão que os irmana e torna corpo, que lhes dá o sentido de gesta e de colectivo e esse sentimento abstracto, mas fundo, da opressão, ainda que o não saibam expressar em acto (o único dentre eles que o sabe, partirá solitário pelos caminhos do mundo), conduzi-los-à, em Maio e Junho de 1962, à luta, à greve e às manifestações pelo aumento dos salários e pela jornada de trabalho de 8 horas.

Regresso a Óscar Lopes e ao seu texto (2) sobre Gaibéus para referir uma passagem com a qual não poderia estar mais de acordo: «o protagonista da acção é claramente colectivo, como acontece com o coro da mais antiga tragédia ática». É este aspecto, o da introdução na estrutura ficcional da personagem num ser colectivo, que pela vez primeira torna consequente e estrutural a estética neo-realista. Embora o realismo social já tivesse cultores de mérito, reconhecidos e influentes (Ferreira de Castro, Aquilino Ribeiro, por exemplo), é com este romance que o neo-realismo se funda e vem consignar um dos mais profícuos e exaltantes movimentos literários de todo o século XX português.

Augusto da Costa Dias afirma, sobre as origens do movimento: (3) «O neo-realismo é, à nascença, contemporâneo dos primeiros esforços para a reorganização do Partido. Surge como sua expressão na batalha cultural e ideológica, como oposição fundamental à ideologia dominante das classes dominantes fascistas, ao totalitarismo da sua escolástica medieval, ao seu obscurantismo e ao obscurantismo raso em que embalsamava o povo, à proibição sistemática das realidades portuguesas das quais fazia uma antologia escolhida e folclórica para tapar a cloaca das suas devastações (...).»

Com Gaibéus inicia Alves Redol «o ciclo da ficção temática ribatejana», a que se seguiriam Marés, Avieiros e Fanga e, mais tarde, já no final da sua vida literária, os seus dois textos canónicos: Barranco de Cegos e Muro Branco.

Alves Redol insere-se, a partir dos anos trinta, na luta clandestina antifascista. É preso em 1944 e, de novo, em 1963. Gaibéus é apreendido pela PIDE, em 1940. O regime exerce várias pressões sobre as editoras que publicam os seus livros e submete os seus originais a censura prévia. É o único escritor português a sofrer semelhante humilhação.

O texto de Costa Dias remete-me novamente para o episódio que referi no início desta crónica. Estamos a viver, como nos anos 1940, uma feroz luta ideológica por parte dos média ditos de referência, patronato e subalternos de espinhaço torcido. Neste contexto histórico, faz todo o sentido regressarmos ao verbo libertário de Gaibéus, de Seara de Vento, de Esteiros, de Quando os Lobos Uivam, de Até Amanhã, Camaradas, de Casa na Duna, de Bastardos do Sol, de Viúvas de Vivos, de Levantado do Chão. São património nosso, ameias nossas, do povo que somos e nesse chão prenhe das palavras nos reconhecemos; o nosso mais perene «lugar do ser».

Enquanto nós referimos, com sentido orgulho, a efeméride de um autor que traça o percurso colectivo rumo à dignidade da nossa condição, os próceres da direita comprazem-se em rituais de afronta aos direitos que os trabalhadores conquistaram com Abril, o mesmo Abril que estava já, nos seus mais lídimos contornos, inscrito em muitos dos romances de Redol. A incontinência verbal com que nos invectivam tenta, em desespero, que nos demitamos de lutar, de exigir, de impedir o retorno aos dias azedos vividos por homens e mulheres que a escrita certeira e luminosa de Redol, com corajosa argúcia, denunciou. Ao evocarmos o autor, e o singular significado da sua obra, estamos a afirmar o repúdio por um tempo em que os homens traziam as gargantas secas de gritos, de fome, de febres e pediam em vão «áuga, áuga» e só o eco surdo da lezíria, ou das escarpas agrestes do Douro, lhes devolvia o angustiado rogo. Um tempo de desumanidade de cujo modelo de sociedade, preconizada pelos Agostinho Serra, de Gaibéus, António Falcão, de Fanga, Diogo Relvas, de Barranco de Cegos, e outros títeres menores, arautos de uma sociedade que estes senhores, herdeiros dilectos de uma galeria de fantasmas, ainda hoje evocam e tentam impor.

E não esqueçamos, como o próprio Redol afirma no prefácio de Gaibéus, que este romance «nasceu quando muitos morriam por nós». O nós que ele próprio inaugura na sua estrutura narrativa.

Notas

(1) Alexandre Pinheiro Torres, Os Romances de Alves Redol, Morais Editora, p. 358.
(2) Gaibéus – Óscar Lopes - Uma Leitura cinquentenária.- Cifras do Tempo, Editorial Caminho, Lisboa, 1990, p. 233.
(3) Augusto da Costa Dias, Literatura e Luta de Classes, Editorial Estampa, Lisboa, 1975, p. 66.
Alves Redol nasceu em 29 de Dezembro de 1911 em Vila Franca de Xira, terra que alberga hoje, muito justamente, o Museu do Neo-realismo, corrente estética vinculada ao povo trabalhador e da qual Alves Redol é considerado um dos principais impulsionadores.
Da sua intensa actividade literária fala-nos o artigo do camarada Domingos Lobo.
Com este breve apontamento, a redação de O Militante apenas quer sublinhar que Alves Redol foi um militante comunista consequente e destacado que tendo aderido ao PCP muito jovem, ao PCP se manteve ligado até ao fim da sua vida.
Alves Redol desenvolveu uma intensa actividade cultural e política no meio operário, participou activamente na actividade da Oposição Democrática, tendo nomeadamente sido membro da Comissão Central do MUD (Movimento de Unidade Democrática) e da Comissão Nacional para a Defesa da Paz. Foi dirigente do Partido no Baixo Ribatejo, tendo tido papel destacado em importantes lutas sociais antifascistas.
Foi preso por três vezes, em 1953, 1958 e 1963.
Faleceu em 29 de Novembro de 1969. O seu funeral em que participaram milhares de pessoas foi uma expressiva manifestação de pesar e de luta antifascista.