Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Internacional, Edição Nº 315 - Nov/Dez 2011

A agressão da NATO à Líbia

por Jorge Cadima

Meio ano após o início da agressão da NATO à Líbia, o país africano com o maior Índice de Desenvolvimento Humano (1) foi destruído pelos bombardeamentos, pilhagens e massacres. Mais uma vez, uma guerra de agressão imperialista cria uma enorme tragédia para a população civil, com milhares de mortos e a destruição da infraestrutura social e económica do país agredido (2). Tudo indica que a guerra está longe do seu termo. À data em que se escreve, Sirte, Bani Walid e outras localidades resistem heroicamente às forças agressoras e a resistência à ocupação cresce em todo o país. É quase certo que as precipitadas celebrações imperialistas aquando da ocupação e massacres (3) de Tripoli, em finais de Agosto, venham a ter o mesmo destino que a famigerada proclamação de Bush, em Maio 2003, de que a guerra do Iraque terminara com a «missão cumprida».

A guerra de agressão imperialista à Líbia não é um facto menor. Pode ser um marco na crise mundial de bem maiores proporções para a qual um capitalismo em profunda crise está a conduzir a Humanidade. Ninguém deve subestimar a gravidade das declarações do Senador norte-americano McCain, porta-voz do sector mais belicista do imperialismo dos EUA, quando, por duas vezes, no rescaldo da ocupação de Tripoli, veio dizer que essa «grande vitória da Primavera árabe» se devia agora estender ao Irão, à Síria,... à Rússia e à China (4).

As causas da guerra

O grande pretexto para a guerra da Líbia foram os alegados «bombardeamentos aéreos» com que o regime de Kadafi teria «reprimido o levantamento popular pacífico» de Fevereiro (5). Esses «factos» foram expressamente desmentidos pelas declarações à Antena 1 do Embaixador português na Líbia, Rui Lopes Aleixo (6), no dia 23 de Fevereiro, que afirmou não ser verdade que tenha havido «os bombardeamentos que os noticiários têm estado a divulgar, com centenas de mortos. Isso não é verdade. Não há bombardeamentos da força aérea, não há bombardeamentos de artilharia pesada, o que há é tiros, toda a gente tem armas». O testemunho do Embaixador dum país da UE e da NATO foi ignorado pela comunicação social (mundial e portuguesa) e substituído pela versão oficial das potências agressoras, mil vezes martelada até se tornar uma «goebbelsiana verdade». Já foi assim em todas as anteriores guerras imperialistas.

As causas da intervenção imperialista na Líbia são outras. Por um lado, são causas comuns a outras guerras de rapina recentes. A Líbia detém as maiores reservas confirmadas de petróleo em África e as décimas a nível mundial. Os fundos soberanos líbios (confiscados, logo no início da guerra, pelas potências imperialistas) ascendiam a muitas dezenas de milhar de milhões de dólares. A Líbia possuía ainda «reservas substanciais de ouro, as 25as a nível mundial, segundo o FMI […] no valor de 6 mil milhões de dólares e em grande medida guardadas no país» (BBC, 22.3.11). O subsolo sahariano líbio alberga parte considerável da maior reserva subterrânea de água do planeta, posta à disposição da população e economia líbias pela gigantesco Grande Rio Artificial, um sistema de mais de 4 mil quilómetros de canalizações subterrâneas construído pelo regime de Kadafi. As riquezas líbias são uma presa apetitosa para as potências imperialistas em crise, como foi confessado após a tomada de Tripoli. A até então minimizada participação na guerra de agressão das potências da NATO foi transformada em cartão de visita ostentado para reivindicar fatias importantes do bolo que se pretende rapinar. Afirma a belicista Al Jazeera (25.8.11): «há uma razão para esta súbita vaga de honestidade sobre o seu envolvimento. Como alude o The Economist, a contribuição de cada país da NATO deverá ter um impacto sobre qual o quinhão dos despojos que irá arrecadar. […] um anónimo oficial britânico disse ao The Economist que o envolvimento da NATO na revolta líbia significa que “agora somos os donos daquilo”». Igualmente franco, o New York Times escreveu (22.8.11): «ainda não se placaram os combates em Tripoli, mas já começou a corrida para garantir o acesso às riquezas petrolíferas líbias. […] As nações ocidentais – em particular os países da NATO que garantiram o apoio aéreo crucial para os rebeldes – querem assegurar-se que as suas empresas estejam nas posições cimeiras para bombear o crude líbio». O inglês Telegraph conta em minúcia o «papel secreto desempenhado pela Grã Bretanha para desbravar o caminho que levou à queda de Tripoli» (22.8.11) e titula que «as [forças especiais inglesas] SAS chefiam a caça a Kadafi» (24.8.11). Paris alega que a tomada de Tripoli foi uma «vitória da Quinta República» (Independent, 23.8.11) e tomou a dianteira na convocação da Cimeira para repartir os despojos. O imperialismo é uma máquina de pilhagem criminosa e já não tem vergonha em confessá-lo. Uma desfaçatez também fruto do desespero resultante da crise mundial do capitalismo que se aprofunda rapidamente, sem solução à vista.

Mas há outros factores em jogo. A guerra da Líbia é uma tentativa do imperialismo desencadear um contra-ataque no mundo árabe e encetar a recolonização de África. A agressão da NATO contra um país símbolo do anti-imperialismo árabe dá-se no rescaldo das «Primaveras árabes» da Tunísia e Egipto (países limítrofes da Líbia) que ameaçavam a histórica dominação imperialista-sionista do mundo árabe. Representou a ocasião para o imperialismo retomar a iniciativa e criar bases para novas acções militares (directas ou indirectas) na região. O comando das forças armadas dos EUA para África, AFRICOM, deverá finalmente mudar o seu QG da Europa para território africano (algo que nenhum país desse continente aceitara até hoje). O papel charneira da Líbia e dos seus fundos soberanos na criação e financiamento de importantes instituições pan-africanas (incluindo no campo financeiro) (7) representava também uma ameaça directa ao domínio neo-colonial das velhas potências (França e Inglaterra) sobre os seus ex-impérios africanos, ameaçando em particular o papel da moeda de troca neo-colonial francesa, o Franco CFA. Este facto ajuda a explicar o acicatamento destas velhas potências coloniais nesta guerra.

A ocupação da Líbia reforçou o garrote do imperialismo em África e no mundo árabe. Com prejuízo da China e outras potências emergentes (como o Brasil), o que torna tanto mais incompreensível a abstenção desses países na votação da Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, que serviu de folha de parra para desencadear a guerra. Resolução já de si contrária à Carta da ONU e ao princípio de não ingerência nos assuntos internos de cada Estado e que, mesmo assim, foi claramente violada pelas potências imperialistas em aspectos cruciais, mal iniciada a operação militar. Igualmente vergonhoso foi o reconhecimento pelo CS ONU de um «governo» fantoche líbio que, além de ter chegado ao poder pelas bombas da NATO, nem sequer constituiu formalmente os órgãos de poder cujo reconhecimento se votou (8). Ao dar, de novo, cobertura às agressões da NATO/EUA, as Nações Unidas desferem mais um golpe na sua credibilidade e razão de ser. Por este caminho, a ONU conhecerá o triste fim da sua antecessora, a Sociedade das Nações, para quem a conivência com as agressões das potências nazi-fascistas fez soar o dobrar de finados.

Se alguém pensa que contemporizar ou colaborar com as potências imperialistas assegura a sua imunidade, a História (passada e recente) mostra claramente o contrário: o appeasement apenas aguça o apetite da fera. Em 2003, a própria Líbia, após anos de sanções e agressões pelas potências imperialistas, abriu portas ao regresso das empresas petrolíferas dos países imperialistas (embora mantendo a propriedade das reservas (9)). O governo líbio entregou o seu programa nuclear aos EUA, aceitando privar-se de armas nucleares. Colaborou com as potências ocidentais na repressão do fundamentalismo islâmico (10). Mas a colaboração líbia foi usada pelo imperialismo para preparar a mudança de regime. O tempo decorrido tornou claro que parte importante do governo líbio colaborava com o imperialismo e que os acontecimentos de Fevereiro foram um golpe de estado instigado a partir do exterior. Numerosos ex-ministros e embaixadores mudaram de campo e constituem hoje o CNT (ainda) sediado em Bengasi (11). O jornal inglês Guardian (22.8.11) escreve: «A CIA e outras agências secretas dos EUA têm estado a recolher informações durante o conflito, utilizando os contactos que desenvolveram quando colaboraram estreitamente com o governo de Kadafi em matéria de contra-terrorismo, contra grupos militantes islâmicos activos na Líbia». A maioria desses fundamentalistas islâmicos fora amnistiada pelo governo líbio, no âmbito dum programa de reconciliação nacional, em troca da promessa de abandono de acções armadas. Mas pouco após a sua libertação, pegaram em armas, assaltando quartéis e esquadras de polícia e abrindo as portas à agressão da NATO.

Tal como o governo de Saddam Hussein colaborou com a ONU na destruição das suas armas não convencionais e acabou por ver o seu país invadido, também a Líbia foi agredida pelas potências após aceitar a desnuclearização do seu país. A conclusão inevitável é que aceitar o desarmamento unilateral abre as portas à agressão do imperialismo. Também neste campo, o colaboracionismo da ONU com as guerras imperialistas é criminoso.

A conivência da pseudo-esquerda europeia

Perante uma operação de contornos tão claramente imperialistas, pode surpreender o silêncio, quando não mesmo a conivência activa, de parte importante das forças que, na Europa, se reclamam de esquerda – em contraste flagrante com claras posições de princípio assumidas pelas forças progressistas da América Latina. Repetiram os chavões sobre o “regime de Kadafi”, alimentando as forças da guerra que preparavam o banho de sangue na Líbia. Uma argumentação insustentável para quem, em 2003, assumiu posições contrárias à invasão do Iraque. Se acaso a questão estivesse no regime, há um único aspecto em que o regime de Saddam fosse melhor do que o regime de Kadafi? A verdade é claramente o contrário. Porque razão aqueles que em 2003 separaram as questões, e identificaram na vontade de dominação imperialista sobre as riquezas e recursos do Iraque a verdadeira causa da guerra de 2003, não chegaram agora a uma conclusão análoga? A resposta, por muito que possa doer, não reside no regime líbio, mas nos regimes europeus. Em 2003, várias potências imperialistas da Europa opuseram-se declaradamente à acção unilateral dos EUA no Iraque, que não tinha em conta os seus interesses. Na questão da Líbia, eventuais divergências foram silenciadas (12) e a França foi campeã da acção bélica. A verdadeira razão do silêncio ou activismo cúmplice de certa auto-proclamada esquerda europeia reside na sua dependência política, ideológica, e em certos casos económica, das potências imperialistas europeias.

Algumas lições importantes

A agressão à Líbia trouxe lições importantes para as forças anti-imperialistas que, não sendo inteiramente novas, importa sublinhar.

A primeira diz respeito à importância capital da desinformação, tanto mais grave quanto o controlo do «partido da guerra» sobre os grandes meios de comunicação social é hoje quase total. Essa contra-informação oficial dominou a fase que antecedeu o desencadear da guerra, mas foi ainda mais esmagadora num momento operacional crucial: a ocupação de Tripoli. A barragem de mentiras, como as capturas de vários filhos de Kadafi «confirmadas» pelo Tribunal Penal Internacional (uma óbvia arma da guerra imperialista) e o vídeo filmado em estúdios do Qatar, mostrando uma falsa «captura» da Praça Verde de Tripoli, mostram bem como a grande comunicação social está totalmente enfeudada ao imperialismo, sendo impossível distinguir verdade e mentira. É imperativo reforçar canais alternativos e credíveis de informação. É hoje legítima a dúvida sobre quais os «factos históricos» comummente aceites que são, na realidade, falsificações grosseiras.

Uma segunda lição diz respeito à utilização de exércitos contra-revolucionários de criminosos e terroristas, generalizada pelo imperialismo a partir dos anos 80 (contras, UNITA, mujahedines afegãos, UÇK, albano-kosovares, etc.). Na Líbia alcançaram-se novos limites com a nomeação, para Comandante Militar de Tripoli, do fundamentalista islâmico Belhadj, chefe dos Grupos Islâmicos de Combate Líbios (LIFG), organização que figura na própria lista de organizações terroristas elaborada pelo Departamento de Estado dos EUA (13). O cínico título da revista Time «A revolução líbia cria um novo híbrido: islamistas pró-ocidentais» (16.9.11) é falso no adjectivo «novo». Já o falecido ex-MNE inglês Robin Cook tinha escrito: «Al Qaeda, que literalmente significa “a base de dados”, foi na sua origem o ficheiro de computador dos milhares de mujahedines que foram recrutados e treinados, com a ajuda da CIA, para derrotar os russos [no Afeganistão]» (Guardian, 8.7.05). Mas a tese de Cook segundo a qual isso se tratou de um colossal erro de avaliação que se virou contra os próprios EUA perde hoje qualquer credibilidade, ao ver as bombas da NATO servirem para entregar a Líbia a esta gente. Será que alguma vez nos dez anos de «guerra ao terrorismo» a «Al Qaeda» deixou de ser um dos múltiplos mecanismos de acção do imperialismo?

Uma terceira lição diz respeito à importância da resistência, em todas as circunstâncias. Por duas vezes (em Fevereiro e em final de Agosto) foi anunciado ao mundo o «fim de Kadafi». Nas mais adversas condições, a resistência dos patriotas líbios deu uma contribuição fundamental para desmascarar as mentiras do imperialismo, para acirrar as suas rivalidades internas, para dar tempo a futuras vítimas da ofensiva mundial do imperialismo para se prepararem e ganharem consciência da natureza do monstro que é o imperialismo. É uma lição de importância crucial, pois o imperialismo em crise profunda é hoje uma ameaça para a Humanidade inteira. Mas não é invencível. Grandes perigos coexistem com grandes potencialidades.

Notas

(1) O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) elabora o IDH todos os anos. Em 2010 a Líbia pontuava 0.755, o maior IDH de qualquer país africano, incluíndo os restantes países do Magrebe árabe. O IDH de Portugal (0.795) é pouco superior ao da Líbia.

(2) Segundo o Relatório Global Trends 2010 da Agência da ONU para os Refugiados, UNHCR, os países de onde são provenientes o maior número de refugiados são o Afeganistão (mais de 3 milhões) e o Iraque (1,7 milhões). Os países que mais acolhem estes refugiados são todos países ameaçados por novas guerras imperialistas: o Paquistão (1,9 milhões), o Irão e a Síria (1 milhão cada). Estes números não incluem os refugiados internos, nem englobam os 5 milhões de refugiados palestinos, que estão sob a alçada de outra agência da ONU, a UNRWA.

(3) A ocupação de Tripoli foi marcada por massacres em larga escala, como a chacina do Hospital de Abu Salim. As cenas de horror chegaram a furar o silêncio da comunicação social, embora de forma fugidia e escondendo as responsabilidades pelos crimes.

(4) Veja-se o artigo sobre a viagem de McCain a Tripoli, New York Times, 29.9.11.

(5) A Resolução 95 de 2011 do Parlamento Europeu – aprovada com os votos favoráveis dos três euro-deputados eleitos pelo BE – afirma no seu considerando C que «o regime de Kadafi recorreu às forças armadas líbias, a milícias, bem como a mercenários e combatentes estrangeiros, para esmagar brutalmente as manifestações, incluíndo através da utilização indiscriminada de metralhadoras, de franco-atiradores, bem como de aviões e helicópteros de combate contra civis». O texto descreve, na realidade, tudo aquilo que se passou com a intervenção militar da NATO, a que a resolução do PE conscientemente abriu portas.

(6) A entrevista ainda estava disponível no site da RTP em Setembro: http://www.rtp.pt/noticias/?headline=46&visual=9&tm=7&t=Embaixador-portugues-na-Libia-descreve-cenario-de-desordem-no-pais.rtp&article=418669&source=mail

(7) Mais pormenores em «Sobre a agressão à Líbia», Seara Nova, n.o 1716, Verão 2011, p. 32.

(8) Facto justamente assinalado pelo Governo de Angola no debate sobre o «reconhecimento» dos fantoches do CNT.

(9) Esse regresso nunca foi inteiramente pacífico. A revista norte-americana Time escreve (6.9.11) que «Mesmo após o regresso em força das empresas ocidentais à Líbia, em 2004, Kadafi usava frequentemente os seus negócios com elas como forma de pressionar os seus antigos inimigos. Ao mesmo tempo que aumentavam os preços mundiais do petróleo, a Líbia exigia uma percentagem cada vez maior dos lucros – um motivo fundamental de protesto das empresas petrolíferas, que se viam obrigadas a entregar 90% das receitas ao regime de Kadafi, em comparação com uma quota governamental de 70% noutros países da região».

(10) No início de Setembro os jornais ingleses afirmaram que os serviços secretos anglo-americanos «colaboraram com o regime de Kadafi» em matéria de combate a fundamentalistas islâmicos. Um dos alvos dessa colaboração foi o actual Comandante Militar de Tripoli, Belhadj, que – segundo o próprio – «foi torturado em Bangkok por dois agentes da CIA, antes de ser entregue à Líbia onde foi de novo torturado» (Guardian, 4.9.11). «Agentes britânicos estiveram entre os primeiros a interrogá-lo em Tripoli» (Mailonline, 5.9.11). As ligações com os serviços secretos ingleses eram mantidas pelo então chefe da segurança líbia e mais tarde Ministro dos Negócios Estrangeiros, Mussa Kussa, que em Março fugiu da Líbia para Londres «num vôo organizado pelos [serviços secretos ingleses] MI6» (Guardian, 4.9.11), estando hoje no Qatar (país com um papel de destaque na agressão, seja no plano militar, seja através da Al Jazeera). Pelo lado inglês, os contactos com Mussa Kussa foram assegurados pelo então director do MI6 para a luta anti-terrorista, Mark Allen, que foi nomeado Sir após a sua reforma e «tornou-se conselheiro da BP [British Petroleum]» (Telegraph, 5.9.11).

(11) Um deles, o General Younnes foi assassinado pelos próprios rebeldes em Bengasi.

(12) Apesar da Alemanha se ter abstido na votação da Resolução 1973 do Conselho de Segurança, juntamente com a Rússia, a China, o Brasil e a India, facto que não é desprovido de significado.

(13) Para mais pormenores, veja-se «How Al-Qaeda men came to power in Libya» de Thierry Meyssan, Voltairenet.org.