Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Partido, Edição Nº 337 - Jul/Ago 2015

Lembremos Germano Vidigal e Alfredo Dinis Assassinados há 70 anos

por Revista o Militante

Portugal foi sujeito durante quase meio século – e nunca é demais lembrá-lo em tempos de branqueamento do fascismo e de ressurgimento de novas ameaças fascistas e fascizantes um pouco por todo o mundo – ao domínio de uma ditadura fascista que privou o povo português das mais elementares liberdades, sujeitando-o a brutais níveis de exploração, miséria e obscurantismo.

Uma ditadura contra a qual os trabalhadores, as massas populares, os antifascistas sempre lutaram. Uma luta traduzida em milhares de pequenas e grandes acções – nas fábricas, nos campos, nas escolas, nas ruas – sistematicamente reprimidas por um feroz e poderosos aparelho repressivo, que tinha como instrumento mais sinistro a PIDE, montado e instruído com a colaboração das polícias de Mussolini e de Hitler. Um aparelho especificamente montado para a repressão da oposição e muito em particular do Partido Comunista Português, o partido que Salazar erigiu à categoria de inimigo principal, na prática a única força organizada clandestinamente que dispunha de um aparelho técnico de propaganda, instrumento de esclarecimento e de organização.

A repressão fascista, institucionalizada e por vezes assumindo carácter de massas, traduziu-se num vasto rasto de vítimas: dezenas de milhar de antifascistas presos, alguns durante muito longos anos, submetidos ao arsenal de métodos de tortura de que a polícia dispunha; centenas de presos enviados para o Campo de Concentração do Tarrafal onde foram assassinados 32 antifascistas, a que há que acrescentar mais de uma centena de outros assassinatos praticados durante os interrogatórios policiais, nas prisões sem assistência médica, quando encabeçavam acções de massas ou realizavam actividades clandestinas.

Os militantes comunistas foram as principais vítimas da repressão fascista, expresso no número de presos, nos anos de prisão e no número de assassinados, constituindo cerca de metade do total de assassinados pelo fascismo. Vidas sacrificadas pela entrega à luta pela liberdade, por um Portugal democrático e socialista. No vasto rol de militantes assassinados, os casos de Germano Vidigal e de Alfredo Dinis («Alex») têm um significado muito particular. E particular porque tiveram lugar numa situação muito particular do país e do mundo.

O nazi-fascismo acabava de ser derrotado. A Alemanha hitleriana tinha capitulado incondicionalmente. Mussolini e Hitler, amigos de Salazar, seus ídolos e apoiantes, estavam mortos. Os campos de concentração eram encerrados, as suas vítimas libertadas e a barbárie que representaram era dada a conhecer ao mundo. Os regimes fascistas eram liquidados, dando lugar a regimes democráticos. Por todo o mundo milhões de pessoas exigiam a erradicação do fascismo, liberdade, democracia. Em Portugal centenas de milhar de pessoas vitoriavam o fim da guerra, a derrota do nazi-fascismo, exigindo o fim da ditadura. E, no entanto, a ditadura fascista de Salazar continuava a privar o povo português da liberdade e da democracia. O Campo de Concentração do Tarrafal continuava a funcionar, bem como as cadeias políticas. A PIDE desencadeava uma feroz ofensiva contra os combatentes antifascistas, prendendo-os, torturando-os, assassinando-os. Uma ofensiva marcada pela raiva de ter sido derrotado o nazi-fascismo e para conter e quebrar o poderoso ascenso da luta antifascista.

A sobrevivência da ditadura foi tornada possível pelo suporte político, económico, militar e diplomático que lhe foi dado pela Inglaterra e pelos Estados Unidos, países empenhados em salvar o regime fascista de Salazar, ao qual atribuíam importante papel na estratégia de reagrupamento das forças reaccionárias à escala internacional, tendo em vista reverter a correlação de forças saída da II Guerra Mundial e que não puderam impedir devido ao papel determinante da URSS na derrota do nazi-fascismo. Apoio que se viria a estender ao aparelho repressivo, em que instrutores da CIA – a quem coube a introdução da tortura do sono no vasto arsenal de torturas da PIDE – ocuparam o lugar dos instrutores das polícias de Mussolini e de Hitler.

É um facto que algumas forças procuram esconder que o povo português, os antifascistas, tiveram de pagar um pesado tributo por este apoio do imperialismo à ditadura fascista, que continuou a privar os portugueses durante quase mais 30 anos do direito à liberdade, a prender, a torturar e assassinar patriotas, como foi o caso dos camaradas Germano Vidigal e de Alfredo Dinis e de muitos outros.

Germano Vidigal (1)

Assassinado no dia 28 de Maio de 1945, era operário da construção civil, dirigente do Sindicato da sua classe e responsável pelo Comité Local do Partido em Montemor-o-Novo. Tinha então 35 anos.

A organização partidária no Alentejo conheceu um desenvolvimento extraordinário com a reorganização de 1940/1941. Já em 1942 têm lugar importantes lutas do proletariado agrícola, que se vão estender pelos anos 1943-45.

Muitas terras alentejanas passaram a figurar na história como símbolos heróicos pelas muitas lutas do proletariado agrícola contra a opressão, pelo pão, pela terra, contra o fascismo e pela liberdade. Montemor-o-Novo é uma delas.

Nos finais de 1944, princípio de 1945, os trabalhadores de Montemor-o-Novo e terras circundantes, correspondendo ao apelo do PCP para que se desenvolvessem acções contra a fome, travaram importantes lutas: manifestações, concentrações junto à Câmara Municipal, à Casa do Povo. No dia 20 de Maio, os trabalhadores declaram-se em greve e concentram-se junto à Câmara Municipal exigindo aumento de salários, fornecimento de géneros, trabalhos públicos para combater o desemprego, fim do sistema de empreitadas, etc.

A repressão desencadeada pela GNR, sob a direcção da PIDE, é brutal. Mais de 1500 trabalhadores são presos e metidos na Praça de Touros. À frente da luta estava a organização local do Partido, encabeçada por Germano Vidigal, que é preso e levado para o posto da GNR, onde é torturado até à morte por agentes da PIDE. As marcas das torturas no corpo dão bem a imagem da brutalidade que se abateu sobre o nosso camarada: unhas arrancadas, testículos esmagados, cabeça rachada, corpo rasgado à bastonada.

Germano Vidigal foi um exemplo de coragem revolucionária, de fidelidade ao seu Partido, o PCP, mantendo-se firme, sem falar na polícia, apesar de submetido a torturas tão brutais.

Passado cerca de um mês, no dia 4 de Julho de 1945, na Estrada de Bucelas (Loures), Alfredo Dinis é assassinado a tiro por uma brigada da PIDE, quando se dirigia de bicicleta para um encontro clandestino. Tinha então 28 anos.

Alfredo Dinis («Alex») (2)

Era à época um dos mais destacados e promissores quadros do Partido. Dele dizia Álvaro Cunhal, em 1943, que o seu desenvolvimento como quadro revolucionário era verdadeiramente prodigioso.

Alfredo Dinis, operário metalúrgico da Indústria Naval, tendo começado a trabalhar na empresa Parry & Son (margem Sul do Tejo). Em 1936, com 19 anos, adere à Juventude Comunista e ao Socorro Vermelho. Em Agosto de 1938 é preso na rua e condenado a 18 meses de prisão, tendo tido um porte digno na polícia.

Uma vez libertado, retoma de imediato a actividade partidária. Assume a responsabilidade da célula da Parry & Son e da organização de Almada. Foi um dos impulsionadores das greves na região de Lisboa, em Novembro de 1942. Participa activamente na reorganização de 1940/41. Em 1943, passa à clandestinidade como funcionário do Partido. Destaca-se na organização das grandes greves de Julho/Agosto de 1943. Nesse mesmo ano, no III Congresso do Partido, é eleito para o Comité Central. Assume a responsabilidade por organizações como a Organização Regional de Lisboa, da Margem Sul e do Ribatejo. Integra o Comité dirigente das grandes greves de 8 e 9 de Maio de 1944. Pouco tempo antes de ser assassinado é eleito para a Comissão Política do Comité Central.

O camarada «Alex» era um camarada que se destacou pela dedicação ao Partido, pela forma como se relacionava com os seus camaradas, pelo profundo conhecimento dos anseios das massas e sua disposição de luta.

Os nossos mártires não serão esquecidos. Não esqueceremos os ignóbeis crimes que os vitimou. Mas não esqueceremos igualmente a sua coragem, a sua firmeza de convicções, o seu trabalho partidário.

Germano Vidigal e Alfredo Dinis, como muitos outros camaradas, deram enorme contributo para o enraizamento do Partido na classe operária, para a sua transformação num grande Partido nacional.

Eles continuam, pois, ao nosso lado na lembrança do que foram, na lembrança do que fizeram no âmbito do Partido e da luta revolucionária. Parafraseando o camarada Álvaro Cunhal, diremos que Germano Vidigal e Alfredo Dinis continuam na nossa lembrança também porque a luta ulterior, a luta antifascista, o desenvolvimento da luta revolucionária, a Revolução de Abril, alguma coisa devem – e muito devem – a eles, como a muitos outros que foram assassinados pela PIDE.

Notas

(1) Ver O Militante N.º 180, Maio de 1990, p. 31.

(2) Idem O Militante N.º 169, Junho de 1989, p. 41.