Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Abertura, Edição Nº 350 - Set/Out 2017

Por uma campanha política de massas!

por Revista «O Militante»

Este número de O Militante contém contribuições sobre temas de grande actualidade e sobre questões do passado histórico que encerram experiências e valores que se projectam no presente e no futuro da intervenção revolucionária. Quanto aos primeiros, são de referir os artigos relativos às Eleições Autárquicas, a grande tarefa do mês de Setembro; à chamada Quarta Revolução Industrial, introduzindo uma problemática que é necessário acompanhar muito de perto, tanto pelo seu impacto no plano económico e social como pela campanha de diversão ideológica a que está a dar lugar; a uma política de Administração Interna democrática vinculada com os valores de Abril; à agudização das contradições do desenvolvimento mundial e ao perigoso agravamento da situação internacional. Quanto aos segundos, o prosseguimento da evocação do Centenário da Revolução de Outubro, com um valioso trabalho que evidencia a explosão de criatividade artística da revolução russa de 1917 e um artigo incidindo sobre a luta ideológica que se desenvolve em torno do empreendimento de sociedade socialista; um trabalho sobre Lénine e o Capital, que se pode considerar inserido na evocação do II Centenário do nascimento de Karl Marx que se celebra no próximo ano; a lembrança da vida e obra do camarada Alexandre Cabral por ocasião da passagem do centenário do seu nascimento.

A variedade dos temas abordados reflecte de certo modo a diversidade e a exigência das tarefas que estão colocadas na actual situação nacional e internacional, e o papel que o Partido é chamado a desempenhar para alcançar a necessária ruptura com a política de direita e com os constrangimentos externos que comprometem o desenvolvimento e a soberania de Portugal, e para impedir que o capitalismo, a braços com o aprofundamento da sua crise estrutural e a agudização das suas contradições, mergulhe o mundo numa guerra de catastróficas proporções. E é precisamente pelo que representa na aguda luta de classes, que se desenvolve no plano nacional e mundial, que o PCP tem sido alvo – primeiro, a pretexto do Centenário da Revolução de Outubro, e ultimamente pela sua posição solidária com o processo revolucionário bolivariano – de uma violenta e sórdida ofensiva anticomunista. Isto no quadro de uma colossal campanha mundial orquestrada pelos centros de diversão ideológica do imperialismo, que mente despudoradamente sobre os acontecimentos na Venezuela e procura silenciar toda e qualquer voz discordante daquela que é venenosamente destilada pela comunicação social dominante.

A inusitada violência da campanha contra o poder bolivariano tal como a violência da campanha contra o PCP têm uma explicação muito simples. A reacção interna venezuelana e o imperialismo norte-americano, acolitados pela reacção e pela social-democracia internacional, entendem que, perante a grave crise económica que se abateu sobre a Venezuela, chegou finalmente o momento de derrubar o governo, liquidar as conquistas do processo bolivariano, assenhorear-se das imensas riquezas petrolíferas deste país. Depois de várias tentativas golpistas fracassadas – nunca esquecer o golpe de 2002 frustrado por uma poderosa mobilização popular, nem a operação sediciosa após a vitória de Maduro nas presidenciais de 2013 que provocou a morte de dezenas de venezuelanos – consideram que, com o avanço da reacção na Argentina, no Brasil e noutros países latino-americanos, e a renovada agressividade da administração norte-americana, estavam criadas as condições para passar a uma ofensiva vitoriosa, apoiando-se na sabotagem económica, no domínio dos principais órgãos de comunicação de que continuam a dispor, na acção destabilizadora, violenta e terrorista de grupos arregimentados.

O que está em jogo na Venezuela não é uma simples questão de orientação política, mas a própria questão do poder, que é a questão central de toda e qualquer revolução, de todo e qualquer processo de transformações da estrutura económica e social. O que está em jogo é a natureza de classe do poder político. Uma revolução que se não defenda, que não utilize todas as armas à sua disposição para responder à ofensiva contra-revolucionária, é uma revolução perdida. No caso do processo revolucionário venezuelano a legitimidade e a legalidade estão do seu lado. A Constituição de 1999 em vigor prevê o seu próprio aperfeiçoamento, estipula explicitamente a possibilidade e a necessidade de aprofundamento da componente participativa da democracia de modo a reforçar o seu carácter popular. É isso que se pretende com a Assembleia Nacional Constituinte eleita em 30 de Julho, num processo que encheu de ódio a reacção e o imperialismo mas que o PCP justamente saudou como uma vitória do povo venezuelano, posição que suscitou uma avalanche de insultos e acusações do mais primário anticomunismo. Mas se alguém pensa que é possível intimidar e calar a voz dos comunistas portugueses está bem enganado. Para o PCP a solidariedade internacionalista é para as horas boas e as horas más, não anda, como acontece com outros que se pretendem «a esquerda verdadeira», ao sabor oportunista das circunstâncias ou conveniências eleitorais. É uma questão de princípio, de honestidade, de coerência revolucionária.

Com a Festa do «Avante!» entramos em força na campanha para as eleições autárquicas de 1 de Outubro. Há muitas razões para confiar num bom resultado da CDU, a começar pela superioridade do património de realizações dos seus eleitos. Isso exige, porém, que o intenso trabalho já realizado que possibilitou a apresentação de listas ao maior número de freguesias de sempre (e mais 72 que nas eleições de 2013) se intensifique audaciosamente com a realização de uma grande campanha política de massas em que, através do contacto directo, do porta-a-porta, do diálogo com o eleitorado, o projecto e as propostas da CDU cheguem ao maior número possível de portugueses.

Não ignoramos as dificuldades. Não ignoramos o embuste de candidaturas ditas de «independentes», destinadas a ludibriar os eleitores quanto à sua verdadeira natureza política. Não ignoramos a tentativa fraudulenta de utilizar a posição conjunta do PCP com o PS para abrir espaço a candidaturas do PS e minar a influência da CDU. Não ignoramos a actuação oportunista do BE que em municípios de forte influência da CDU se apresenta com o propósito não de crescer à custa do PS, PSD ou CDS, mas de combater as candidaturas do «Trabalho, Honestidade e Competência».

Nem ignoramos como, explorando acontecimentos internacionais – como no caso da Venezuela denegrindo a posição solidária do PCP com o processo bolivariano –, se procura enlamear a imagem do PCP e influenciar negativamente a sua votação nas eleições de 1 de Outubro. Não ignorando isto e muito mais, o que temos a fazer é seguir em frente com o nosso programa em prol dos interesses e aspirações das populações e de um poder local realmente democrático e participado.

A importância das eleições autárquicas no quadro político actual é muito grande. Mas a concentração de energias na campanha eleitoral não pode levar a secundarizar a luta de massas nem o trabalho de reforço do Partido. Aliás, tudo se encontra ligado. A própria campanha eleitoral, com o amplo contacto que exige com os trabalhadores e o povo, propicia uma oportunidade de excepção, por exemplo, para alargar as fileiras do Partido, tarefa central permanente do militante comunista. E é uma evidência que o reforço das posições do PCP e da CDU criará também melhores condições para o prosseguimento da luta pela necessária viragem na política nacional, por um Portugal com futuro.