Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 350 - Set/Out 2017

Alexandre Cabral - Resistir para que o sol possa nascer um dia

por Domingos Lobo

Com várias iniciativas em que serão evocadas a sua obra e vida 1, cumpre-se este ano o centenário de nascimento do escritor e ensaísta Alexandre Cabral, pseudónimo literário de José dos Santos Cabral. O autor nasceu em Lisboa em Outubro de 1917, falecendo em 1996, vivendo grande parte desse tempo pleno no Bairro de S. Miguel, na freguesia de Alvalade.

A sua formação inicial começou no Instituto Militar dos Pupilos do Exército – «aquilo que sou – e que me orgulho – devo-o à matriz que me enformou» –, instituição que o haveria de marcar no aspecto sensitivo e humano, experiência de vida e camaradagem que reflectirá em alguns dos seus livros de ficção e nesse incontornável testemunho autobiográfico que é Memórias de Um Resistente, textoque conseguiu ultrapassar as vigilantes malhas da censura Marcelista, recorrendo no processo narrativo a algumas subtilezas da técnica discursiva.Livro escrito em 1968 e publicado em 1970, é hoje considerado um documento indispensável para quem pretenda conhecer e aprofundar o que no plano cívico e cultural foram os anos mais violentos do fascismo português e a vida daqueles que a esse período funesto se opuseram e resistiram.

Sabedor da necessidade de passar testemunho desses dias ignaros, dos cercos que o Salazarismo impunha a referências públicas, por mais subliminar, das lutas travadas diariamente contra a repressão, Alexandre Cabral deixa claro nestas memórias essa inquietação geracional: “O Mário Sacramento na biografia crítica sobre o Fernando Namora, escreveu que «o futuro vai ter muita dificuldade em compreender o nosso tempo, peado de silêncios e semeado de hiatos que foi». Ficaria muito feliz se estas “memórias”, um tanto mais ambiciosas do que pretende uma simples obra de ficção, conseguissem preencher alguns desses silêncios e hiatos...».2

Saído dos Pupilos, onde estudou e viveu «em constante rebeldia contra os altos muros da cerca conventual», Alexandre Cabral exerce várias profissões: delegado de propaganda médica, redactor de uma agência noticiosa, chefe de escritório. É no período em que trabalha numa agência de publicidade que prosseguirá os seus estudos, licenciando-se em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Faculdade de Letras de Lisboa.

Aos dezanove anos funda A Voz da Mocidade, colabora e dinamiza, entre 1936 e 1940, com alguns jornais juvenis, nomeadamente nos jornais Movimento, Heraldo, Pensamento, Ecos do Alcôa, usando por vezes, nessas colaborações, o pseudónimo Z. Larbak, que manterá nos primeiros livros desse período, 1937, como Parque Mayer em Chamas, e Cinzas da Nossa Alma.

Alexandre Cabral foi, enquanto jornalista, crítico literário, investigador e ficcionista, um dos mais dinâmicos e proficientes escultores do neorealismo e, afirma-o António Pedro Pita, uma das «personagens que deram ao aparelho cultural neorrealista a dimensão e eficácia que se lhe reconhece».

É através da sua obra ficcional, do contacto que a partir dos anos 1940 trava com outros autores, nomeadamente Ferreira de Castro, cuja obra admira e sobre a qual escreve (Como conheci o escritor Ferreira de Castro e Ferreira de Castro: o seu drama e a sua obra), mas sobretudo com os jovens escritores ligados ao movimento neorrealista, que Alexandre Cabral se iniciará nessa descoberta do povo e das suas agruras, na denúncia das candentes injustiças sociais e na vontade de transformar, através da arma das palavras e da acção política, a realidade desses tempos cruéis. O seu primeiro livro desse fecundo período é um livro de contos que transporta no título toda uma carga simbólica, um grito de afirmação, um projecto de luta e de futuro: O Sol Nascerá Um Dia (1942). Com os seus camaradas de letras, de lutas e de sonhos, que nunca abandonou, como nunca se afastou do seu Partido de sempre, o PCP, percorreu os caminhos da resistência à ditadura, escreveu em jornais e revistas, polemizou, denunciou. Interveniente e activo militante, a sua participação nas lutas e nas funções partidárias teve como consequência o ter conhecido, por diversas vezes, os cárceres do fascismo, sobretudo os do Aljube.

Desafiado pelo ensaísta e editor Augusto da Costa Dias, do qual se tornará grande amigo, inicia os seus estudos camilianos, publicando entre 1962/70 os 4 volumes das Polémicas de Camilo, construindo em torno desse espólio único do nosso romantismo uma obra ensaística ímpar na cultura portuguesa contemporânea, baseada na vasta obra de Camilo Castelo Branco. Alexandre Cabral tornar-se-à no biógrafo excelso da obra camiliana, de tal modo essa investigação é intensa, tão copiosa e extensa, de tão absoluta entrega que por vezes o biógrafo parece confundir-se com «a alma do biografado», dado que o ensaísta, ao percorrer esse labor, esse complexo monumento literário, descobre um autor que estrutura sob a estética geral do romantismo, os primeiros e fecundos sinais do realismo e são os realismos e suas diversas vertentes, mais que a análise do romantismo, que enfoca esse estudo e o transforma num ponderoso projecto cultural. Em que terreno cresce a Literatura, interroga-se Claude Prévost, para concluir que no da realidade obviamente, mesmo que inúmeras sejam as variantes abordagens do real.

Sempre que voltarmos a Camilo, a lê-lo, a estudá-lo, quando sobre as origens desse génio literário nos quisermos debruçar mais profundamente, não podemos ignorar os estudos, a pesquisa, os incontornáveis ensaios e prefácios que sobre a vasta obra do autor de Amor de Perdição produziu Alexandre Cabral. O ensaísta não se limitou à minuciosa análise literária da obra camiliana, vai às raízes desse labor, contextualizando tempos, lugares, circunstâncias históricas, sociais e políticas em que a obra de Camilo se fundou e expandiu; influências, a vida pessoal, a ultrapassagem dos códigos comportamentais, o amor louco por Ana Plácido, a paixão, as teias que tecem os grandes dramas (reais ou ficcionados), o clima social oitocentista do Portugal profundo, os excessos da vida, a loucura, o suicídio: «Com efeito, qualquer que seja o local em que a acção se desenrola, qualquer que seja a classe ou o sexo da personagem, é fatal que a intriga, invariavelmente de índole amorosa, resulta de uma transgressão de princípios estabelecidos, (...) decorrentes da ordem social umas vezes, e outras da ordem moral e religiosa. No mundo novelístico de Camilo, o Pecado e a Punição, o Crime e o Remorso andam indissoluvelmente associados (...)». 3

Análise e estudo que se projecta lúcido e determinante, desde a ficção, ao entendimento interpretativo do universo fabular de Camilo, à correspondência, às polémicas, à condição da mulher na novelística, até às incoerências da sua obra romanesca, nomeadamente detectadas em O Retrato de Ricardina, deixando-nos uma herança ensaística de várias dezenas de volumes sobre a vida e a obra do autor oitocentista, tarefa que culmina com a publicação de um título emblemático e verdadeiramente incontornável que é o Dicionário de Camilo Castelo Branco, editado pela Caminho em 1989.

A primeira descoberta do neo-realismo foi o povo, escreveu Mário Dionísio no prefácio para a 3.ª edição de O Dia Cinzento e Outros Contos. O povo que andava arredado da nossa literatura desde Fernão Lopes e que só episódica e lateralmente surgia na nossa ficção, em obras do romantismo, que se limitou a explorar o lado pícaro e o tipicismo da sua ruralidade, e nas obras mais emblemáticas da Geração de 70 que o subalternizou, reduzindo-o à caracterização grosseira de megeras, serviçais, prostitutas, ou ao retrato paternalista do bom povo mourejando na paisagem, como em A Cidade e as Serras, de Eça, ou nos romances de Júlio Diniz. Mas o povo, essa imensa massa humana secularmente explorada, objectivamente considerada nas diferentes situações a que a mesma exploração a reduzira e reduzia (e reduz) e em que assentava todo o prestígio, se assim pode dizer-se, social e cultural, da sociedade em que vivíamos – e vivemos, só o neorrealismo literário português no-lo conseguiu dar em toda a sua plenitude, consequências e complexidades, enquadrando-o e definindo-o nos referentes históricos, conceptuais e sócio-políticos, na segunda metade dos anos 1930, e seguintes, sob a orientação crítica e ideológica que o marxismo vinha permitir ao discurso literário, pugnando por uma arte interventiva, revolucionária, comprometida com a realidade do seu tempo e pugnando pela sua transformação.

Alexandre Cabral, nascido em 1917, pertence, geracionalmente, a esse pujante núcleo central do nosso 1.º neorrealismo: Joaquim Namorado (1914/1986), Mário Dionísio (1916/1993), Vergílio Ferreira (1916/1996, Álvaro Feijó (1917/1941), Jofre Amaral Nogueira (1917/1973), Joaquim Ferrer (1917/1994), Fernando Namora (1919/1989) e João José Cochofel (1919/1982). Instado por Jacinto Baptista sobre o sentido de pertença a uma geração, o autor, recusando a ideia de que o neorrealismo se confinava a um determinado período histórico, responderá: «Honro-me sobremaneira na companhia dos camaradas que pertencem à minha geração – que deu, como sabe, nomes ilustres – recuso que me integrem num determinado tempo histórico (estável em relação à noção de geração). Pelo contrário, procuro acompanhar a dinâmica dialéctica que faz com que nos sintamos parceiros e camaradas dos escritores mais recentes, o que quer dizer parceiro e camarada de todos os homens». 4 O poeta José Gomes Ferreira dirá sensivelmente o mesmo: «Junto a minha voz ao coro dos poetas mais novos: recuso-me a ter mais de vinte anos!». 5

A ficção de Alexandre Cabral, que ele lamentava não ter sido alvo de atenção crítica mais demorada e que certamente merecia, fixa um universo de vivências singulares, rocambolescas, dirá, desde os Pupilos do Exército, que abandonou aos 15 anos, à sua filiação no Partido, as prisões no Aljube, onde sempre quis estar em celas junto com os trabalhadores para «sentir menos a clausura» e onde produziu, em 1963, vários retratos, entre os quais o de Ana Plácido e um singular auto-retrato, desenhos a grafite sobre papel, para não ser tragado pelo absurdo desses dias; a emigração por terras de África, no Congo, por exemplo, aventura que encetou com o seu amigo e poeta Sidónio Muralha e lhe permitiu escrever e publicar Contos da Europa e da África (1947) e Histórias do Zaire (1956), além do romance Terra Quente (1953), regressando três anos após para mergulhar de novo na realidade portuguesa com um romance sobre os pescadores da pesca artesanal na Caparica, Fonte da Telha (1949), seguindo-se os romances da maturidade criativa e literária, Malta Brava (1955), pelo qual perpassam algumas memórias do seu tempo dos Pupilos, a peça de teatro As Duas Faces (1959) e o romance Margem Norte (1961). As obras de Alexandre Cabral, nas suas primeiras edições, contaram com capas e ilustrações de importantes pintores, também eles ligados ao neorrealismo, como Ribeiro de Pavia, José Dias Coelho, Júlio Pomar, Figueiredo Sobral e Rogério Ribeiro.

A poesia e a prosa do nosso neorrealismo tiveram como propósito iniciático descrever o homem em situação, o homem em conflito com o seu tempo, em luta contra a usura e as injustas condições de vida e de trabalho que em Portugal se viviam nos anos ignaros de 1930/40, entre duas guerras, uma próxima e profundamente sentida pelos intelectuais portugueses progressistas (a Guerra Civil em Espanha), e a II Guerra Mundial, cujo horror contribuíra para formar a consciência crítica e interventiva da geração do realismo social. Entrevistado por Alves da Costa, para a revista Transtagana, à pergunta sobre as tendências da poesia contemporânea, responde Alexandre Cabral de modo claro e afirmativo: Apesar do problema ser bastante delicado, vou procurar expô-lo com a maior clareza possível. A meu ver, na poesia contemporânea distinguem-se duas tendências: uma, rica de conteúdo e de interesse humano, exteriorizada pelos poetas do Novo Cancioneiro; a outra, que eu considero uma poesia de deserção, vulgarizada pela revista Távola Redonda. (...) Os poetas que escreveram para o Novo Cancioneiro, tais como Sidónio Muralha, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, Fernando Namora e outros – procuraram solidarizar a Poesia com os problemas do momento português. Todos sabem que a sua missão de poetas deve andar intimamente relacionada com os problemas e aspirações do homem. Os seus temas são arrancados às próprias raízes da vida. (...) Em meu entender, apenas considero de valor o caso individual do escritor que se enquadre nos grandes problemas colectivos. (...)O neorrealismo procura remoçar os temas e processos literários anteriores. O escritor neorrealista ocupa-se de preferência das camadas mais humildes da população como: pescadores, camponeses, vinhateiros e garotos da Borda d’Água. O neorrealismo arrancou estas figuras à vida social portuguesa e deu-as a conhecer à população do País. A característica mais importante desta corrente é a parte optimista e construtiva que ela extrai da vida daqueles trabalhadores. Os autores do neorrealismo, conclui, crêem obstinadamente num futuro melhor, confiados no esforço colectivo do homem.6

Raul Proença, ensinou-nos que o escritor existe «para compreender o terrível destino dos homens, ter na alma a sede de infinito e, ao mesmo tempo, a certeza do ilimitado e do precário. Sentir que a consciência é um átomo no seio do universo, esse «vazio imenso», ou, noutra formulação mais abrangente, como Philip Roth, que «ninguém sabe nada de si mesmo» e que a escrita é uma forma em que permanentemente nos buscamos e, nessa busca, nos entrecruzamos, em frutuoso diálogo dialéctico, com o Outro.

Alexandre Cabral era um autor assim, atento e preocupado com as questões centrais do seu tempo, inquieto, culto, sagaz, inquiridor. Sabia, como os seus companheiros neorrealistas, que a componente ideológica da função literária e criativa era pertinente para os autores mais conscientes das derivas totalitárias do Salazarismo, que a acção crítica, a par da criação literária, não era, no conjunto dessa acção, pormenor de somenos.

Sabia, defensor das dinâmicas estruturais da dialéctica, que a relação entre ideologia e literatura é de conflito e interrogação permanentes, pela própria condição subjectiva, fragmentária e interactiva da criação literária e dos seus pressupostos teóricos e estéticos, daí os ideólogos do neorrealismo como Mário Dionísio, Alexandre Cabral, Augusto da Costa Dias, terem praticado a actividade crítica, sabendo que essa função é substantiva como suporte protector das liberdades criativas, estéticas, metodológicas, de sentido e essência, face aos mecanismos opressores constituídos para impedir a sua difusão. O Salazarismo serviu-se de alguns movimentos literários, como os da Presença e, mais tarde, Távola Redonda, para criar o inconsciente cultural, que lhe permitiu o controlo dos imaginários que ressumavam, criticamente, os produtos culturais, enquanto foi criando a necessidade psicológica, de forma persecutória e através dos mecanismos da censura, da fuga à reflexão crítica do real. O neorrealismo foi essa fronteira, esse muro de resistência crítica, pujante e sagaz que impediu que esse domínio se estabelecesse avassalador.

A acção cultural e cívica de Alexandre Cabral não se limitou à literatura, ao jornalismo (foi, também, redactor de O Diário), ao ensaio, à dimensão sem par nos estudos camilianos, ou como elemento preponderante na criação da Sociedade Portuguesa de Escritores, a cuja direcção, presidida por Aquilino Ribeiro, pertenceu: como tradutor, devemos-lhe a revelação, através de exemplares traduções, de livros e de autores influentes na história da literatura contemporânea, como Claude Roy, Anatole France, Mikail Sadoveanu, Jaroslav Hasek.

A História Singela do Calcinhas, um dos contos integrantes do livro O Sol Nascerá Um Dia, reflecte de modo exemplar o que foi o percurso do escritor Alexandre Cabral e dos autores da notável geração a que pertenceu, esse sentido de razão«que a razão desconhece, uma força de prodígio, um apelo irresistível, que vai de homem a homem, que muda, mudará os homens e as coisas»7, quando um dia, por fim, o sol nascer.

Notas

(1) A exposição Alexandre Cabral – Memória de Um Resistente, no Museu do Neorealismo, em Vila Franca de Xira, e Alexandre Cabral – Vida e Obra de Um Resistente, na Biblioteca Nacional.

(2) Alexandre Cabral, Memórias de um Resistente, 1970, p. 103 – citado por António Pedro Pita, catálogo da Exposição «Memória de Um Resistente» – Museu do Neorealismo, 2017.

(3) Alexandre Cabral, prefácio a Polémicas de Camilo, 1970, p. 11 – citado porAntónio Pedro Pita.

(4) Jacinto Baptista (org.), «O ofício de escrever», in Diário Popular, Lisboa, 27 Março de 1975. Texto citado por António Pedro Pita no catálogo da exposição: Alexandre Cabral – Memória de Um Resistente – V. F. Xira, Junho de 2017.

(5) José Gomes Ferreira, série Heróicas, in Poesia I, 1946.

(6) Alguns momentos de conversa com o escritor Alexandre Cabral/Alves da Costa, in Revista Transtagana, n.ºs 198 - 199, p. 3, Lisboa, Nov./Dez., 1950.

(7) Mário Dionísio, prefácio a Poemas Completos, de Manuel da Fonseca, Portugália, Lisboa,1967, p. 38.