Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 350 - Set/Out 2017

A música como factor de mobilização e unidade da juventude

por Simão Calixto

Neste ano de 2017, o Concurso de Bandas e o Palco Novos Valores (PNV) comemoram o seu 20.º aniversário, na continuidade de anteriores formas de expressão da música juvenil na Festa do Avante!, desde a sua primeira edição em 1976. Neste artigo iremos abordar o concurso de bandas organizado pela JCP, enquanto espaço de alargamento e afirmação da JCP, do PCP e da Festa do Avante!, e enquanto espaço de afirmação da luta pelo direito à Cultura.

A música juvenil na Festa do Portugal de Abril

É muito rica a experiência das potencialidades da música enquanto forma de envolvimento da juventude e da sua consciencialização política. Durante o regime fascista, vencendo a repressão e contribuindo para animar a luta antifascista, mas sobretudo após o 25 de Abril, os concertos e sessões de Canto Livre, os Festivais da Canção Juvenil ou de Música Jovem, e tantas outras expressões marcaram a explosão de criatividade associada à construção de um país novo, liberto do fascismo, contribuindo para a afirmação dos valores de Abril, bem como do ideal e projecto comunistas. Como afirma Ruben de Carvalho numa entrevista ao AGIT de Setembro de 2014, «A organização de festivais de música criada por jovens tem fundas raízes na organização de juventude do PCP. Poderíamos recuar aos anos 40 e ao MUD Juvenil, mas significativas realizações datam ainda da década de 70, poucos anos haviam decorrido desde o 25 de Abril. E é de inteira justiça sublinhar que tal facto reflecte (…) a atenção e o reconhecimento dos jovens comunistas face à poderosa realidade social e cultural que é do interesse juvenil pela música».

Sendo a grande Festa do Portugal de Abril e «a Festa que a juventude tornou sua», ao longo das suas 40 edições a Festa do Avante! nunca passou ao lado desta realidade. O Palco «Juventude», o café-concerto e outros espaços na Cidade da Juventude foram sempre espaços de afirmação dessa importante realidade, e são também parte da história do Palco Novos Valores, que este ano celebramos.

Um Concurso de Bandas e um Palco únicos

A criação do Palco Novos Valores e do Concurso de Bandas foi, segundo a mesma entrevista, «um passo qualitativamente importante» pelo que representou na sua «transformação num palco que procura estimular o aparecimento e a divulgação a nível nacional de jovens grupos locais (…) uma realidade que estimula a revelação de talentos e a sua própria familiarização com outros grupos, públicos geograficamente diferenciados e as exigências e possibilidades da actividade musical».

O Palco Novos Valores constitui-se como um dos maiores concursos de bandas do país e o que tem maior expressão em todo o território, envolvendo centenas de bandas e músicos, sem discriminação de estilos musicais, e realizando todos os anos dezenas de eliminatórias por todo o país, de Norte a Sul, do Litoral ao Interior e também nas ilhas, afirmando amplamente a JCP e a Festa do Avante!.

Tal como há 20 anos, hoje o concurso de bandas preserva essas características únicas, mesmo num panorama em que, entretanto, foram criados outros concursos que contam com elevados patrocínios de grandes grupos económicos e portanto com elevados orçamentos. A título de exemplo, num dos mais badalados concursos de bandas, as várias eliminatórias decorrem apenas através da votação de músicas e vídeos disponibilizados online, sendo que só as oito bandas apuradas para a final tocam num único concerto ao vivo em Lisboa, de onde se escolhe o vencedor. Já no concurso organizado pela JCP, funciona de forma totalmente diferente: as bandas cuja inscrição for aceite têm a garantia de que pelo menos tocam uma vez ao vivo, na primeira eliminatória, o que muitas vezes representa a primeira oportunidade de mostrarem o seu trabalho a um público. As bandas apuradas em cada eliminatória – segundo a avaliação de um júri a partir de critérios definidos no regulamento – juntam-se depois em Finais Regionais, fazendo portanto mais um concerto, no qual são apuradas as bandas que irão tocar no PNV. Ao longo de todas estas eliminatórias e finais, que se realizam em colectividades, em bares, em salas de espectáculos, em espaços ao ar livre, proporciona-se às bandas o convívio, o lidar com a produção de um espectáculo, o lidar com o público, algo que a participação meramente online não permite. Este ano participaram mais de 70 bandas em 25 eliminatórias por todo o país, permitindo que bandas jovens mostrassem o seu trabalho a milhares de pessoas. Às 7 bandas vencedoras do concurso, juntam-se novos valores nacionais convidados pela JCP a actuar no mesmo palco, contribuindo para a sua valorização.

Esta forma de funcionamento, marcada pela iniciativa dos jovens comunistas, dos jovens que compõem as bandas e de muitos outros que ajudam a construir este concurso, são alguns dos ingredientes que têm contribuído para o crescimento do prestígio deste concurso e do PNV. Um Palco no qual têm passado ao longo dos anos muitas bandas que se revelaram grandes nomes do panorama musical português. Um Palco que nos últimos anos tem vindo a crescer no seu prestígio, na diversidade de estilos musicais e na qualidade das bandas, afirmando-se cada vez mais como ponto de visita “obrigatório” para quem visita a Festa do Avante! e quer conhecer um pouco da música nova em Portugal.

«Cultura para todos – É pela luta que lá vamos!»

Além das características acima referidas, o Concurso de Bandas para o Palco Novos Valores continua a assumir-se como expressão da luta da juventude em defesa da cultura para todos, da livre criação e fruição cultural e da afirmação da cultura como pilar da democracia, elemento que esteve presente em todas as suas edições, nomeadamente através do lema do concurso que este ano é “Cultura para todos – É pela luta que lá vamos!”.

Estiveram presentes nos últimos anos problemas e reivindicações. como a falta de espaços para tocar e ensaiar, os preços exorbitantes dos instrumentos e equipamentos musicais, a situação de precariedade e baixos salários de quem trabalha da música ou de outras expressões artísticas, a luta contra as políticas de desinvestimento na cultura de sucessivos governos do PS, PSD e CDS e em defesa de 1% do Orçamento de Estado para a Cultura, assim como as lutas mais gerais da juventude portuguesa em defesa da Escola pública, gratuita e de qualidade, do direito ao trabalho com direitos, entre outras.

No ano de 2016, a JCP lançou, no quadro do concurso de bandas para o PNV, uma campanha intitulada «Aumenta o Som, Abaixa o IVA!» que, entre o ano de 2016 e 2017, já contou com mais de 2000 assinaturas e ainda foi dinamizado um foto-protesto nas redes sociais. Petição esta que pretende que os instrumentos musicais sejam considerados bens culturais essenciais, tal como acontece hoje com livros e outros artigos, pagando a taxa reduzida de IVA (6%) em vez dos actuais 23%, tornando os instrumentos musicais mais acessíveis aos músicos, estimulando desta forma a criação cultural. Esta campanha, apesar de não se ter ainda conseguido aproveitar todas as potencialidades de alargamento, tem sido uma experiência positiva que demonstra mais uma vez como é possível construir unidade em torno da defesa da cultura.

Divulgar a Festa do Avante!, a Festa da juventude

O Concurso de Bandas tem também sido importante elemento de divulgação da Festa do Avante!, sendo que nas dezenas de eliminatórias que acontecem todos os anos milhares de jovens, e não só, têm contacto pela primeira vez com a Festa e com os seus valores. Nos últimos anos, a JCP decidiu antecipar a organização do Concurso, lançando o concurso em Janeiro e organizando os concertos entre os meses de Março e Maio, num período em que há menos elementos concretos de divulgação da Festa, correspondendo ao desafio de divulgar a Festa durante todo o ano. Além disso, este período permite a organização dos concertos ainda em tempo de aulas, conseguindo assim chegar a mais jovens com o concurso e com a Festa.

Quem vai à Festa do Avante! pela primeira vez não esquece a experiência e fica sempre com vontade de repeti-la. Quem vai à Festa fica a conhecer a capacidade de organização dos comunistas portugueses, o seu projecto e ideal libertadores, vencendo preconceitos e mistificações. Por isso, é de particular importância continuar a trazer gente de todas as idades pela primeira vez à Festa, particularmente a juventude. É para isso que a JCP procura contribuir com o Concurso de Bandas, com a distribuição do AGIT Especial da Festa do Avante!, do Jornal dos Artistas, seja nos principais festivais de música, em espaços de concentração da juventude, seja em escolas e locais de trabalho, com a organização de bancas de EP’s, com a promoção do Comboio da Festa e dos Autocarros da Juventude, com a pintura de murais e outras iniciativas.

No momento em que este artigo será publicado estará prestes a começar mais uma grande edição da Festa do Avante!, que será mais uma vez um grande momento de afirmação do PCP e da JCP, quer no seu vasto programa político, quer no seu vasto programa cultural. Um programa que integra também o Palco Novos Valores, por onde passam todos os anos dezenas de bandas em início de carreira, que têm naquele espaço uma oportunidade única para mostrarem o que de melhor a juventude faz na música em Portugal. Para quem quiser por lá passar, o Palco Novos Valores situa-se junto à Cidade da Juventude.

Porque esta é a Festa que a juventude tornou sua e porque a música faz parte da vida da juventude desde sempre, a música juvenil continuará a marcar presença no PNV e em toda a Festa do Avante! e continuará a ser um importante espaço de intervenção dos jovens comunistas, como parte integrante da luta por uma sociedade livre da exploração do homem pelo homem, onde as aspirações da juventude possam ser plenamente cumpridas e onde a criatividade e a cultura estejam ao serviço de todos.