Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Tema, Edição Nº 352 - Jan/Fev 2018

Inteligência Artificial (IA) - A propósito de um conceito

por Rogério Reis

Não é fácil dizer o que é a Inteligência Artificial (IA) porque esta sempre correspondeu a um conceito vago, cujo significado foi variando com o tempo. A definição formal prende-se com a possibilidade de um dispositivo artificial, um computador, conseguir «pensar» de forma não distinguível à de um humano. Apesar desta ideia de autómatos poderem realizar actividades que julgávamos exclusivas dos humanos remontarem a tempos muito mais recuados, é na sequência da construção dos primeiros computadores digitais para uso não exclusivamente militar, imediatamente a seguir à Segunda Guerra Mundial, que se formula com rigor a pergunta se é possível colocar um computador a «pensar» e Alan Turing concebe a famosa experiência que um computador teria que passar com sucesso para comprovar tal facto. Nasce, nessa altura, o conceito de IA.

Com o muito rápido avanço das aplicações da Lógica, agora tendo os computadores como campo de experimentação, e as «promessas» de utilização generalizada destes novos dispositivos, que ainda muito poucos percebem como funcionam, começa a utilizar-se o termo de IA para o estudo da possibilidade de utilização de computadores para a realização de tarefas complexas, que somente especialistas humanos conseguem realizar. Mas o que então se podia fazer, dados os escassos recursos dos computadores dos anos 70 e 80, era tentar entender o silogismo que estava por de trás das decisões do especialista, e codificar tal raciocínio lógico por forma que o computador pudesse dar, automaticamente, uma resposta equivalente à desse agente humano. De cada vez que a resposta não era a pretendida havia que entender o que estava errado na simplificação do raciocínio do especialista e produzir a alteração correspondente no programa. Um processo tão moroso que aplicações confiáveis tardaram a serem produzidas e as que o foram, foram-no a um preço muito alto e que teria que continuar a ser pago se se pretendesse manter o programa actualizado com o conhecimento que entretanto vai sendo acumulado pelos especialistas.

Nas últimas décadas, com o desenvolvimento tecnológico dos computadores e em especial com o advento das comunicações digitais, assim como a transposição para estas de um grande conjunto de interacções humanas, algoritmos e estruturas de dados que até então, pela sua reduzida dimensão, não produziam respostas adequadas, passaram a conter agora a «memória» de suficientes respostas humanas para que as respostas do computador obtidas por simples similitude estatística com esses dados, passem a ser respostas, em muitos casos, semelhantes à dos humanos na mesma situação.

Suponhamos, por exemplo, que se pretende um programa que reconheça o género de sujeitos através do retrato do seu rosto. Não acertando sempre, o cérebro humano é bastante competente a resolver este problema. Para encontrar uma solução automática para esta tarefa, em vez de tentar exprimir a forma como somos capazes de identificar o género de uma pessoa, o que seria muito difícil, fornecemos ao computador uns milhares de fotografias associadas a uma classificação de género. O programa tentará, quando colocado perante uma nova fotografia, encontrar semelhanças estatísticas com fotografias anteriores e dar uma resposta se se trata de um homem ou de uma mulher que está retratado. Podemos repetir a experiência com um conjunto de novas fotografias e verificar qual a qualidade das respostas do programa. Caso o nível de falhas ainda seja considerável, acrescentamos mais casos de exemplo à base de dados. Este é o princípio (muito simplificado) de como hoje funcionam os programas a que normalmente se classificam de IA. As repostas podem ser bastante aproximadas das de um humano, ainda que não possamos dizer que o computador «pensou» que o género do retratado seja este ou aquele. Mais do que isso, o programa comporta-se como previsível somente para o âmbito para que foi «treinado». Caso tenhamos fornecido ao programa somente retratos de humanos típicos do Mediterrâneo e apesar de as respostas serem normalmente boas, se interrogarmos o programa sobre um retrato de uma pessoa da Escandinávia temos uma alta probabilidade de obter uma resposta errada. Estes programas são relativamente competentes em âmbitos restritos não havendo qualquer tipo de garantia sobre a qualidade das respostas fora do âmbito para que foram treinados. Isso não acontece com um humano quando olha pela primeira vez para o rosto de alguém com traços tipológicos desconhecidos até aí.

Estas técnicas, hoje usadas na IA, não são, como se disse, novas ainda que só recentemente tivessem começado a dar resultados práticos fiáveis e por isso começassem a ser de utilização generalizada em diversos campos. No entanto, o termo «Inteligência Artificial» continua a ser utilizado pela imprensa de forma muito ligeira, mais como um adjectivo lisonjeiro sobre uma aplicação computacional do que com qualquer critério de classificação do mesmo.

A aplicação da Inteligência Artificial, hoje, não carece de sistemas particularmente potentes, dado ser sempre possível aceder ao poder de armazenamento e de processamento de servidores ligados permanentemente via internet (o que vulgarmente se refere como processamento na «nuvem»). As aplicações vão começando a aparecer, não só incorporadas na produção, como também na tecnologia que acompanha o nosso quotidiano, como nos telemóveis que respondem a comandos de voz ou nos previsíveis carros autónomos num futuro já próximo. Mas temos contacto com grandes aplicações da IA, essencialmente, quando usamos a internet. Desde logo, com o tradutor automático da Google, que constitui um importante feito tecnológico, que muitos consideravam completamente impossível de concretizar à uma curta vintena de anos atrás. Mas a IA aparece hoje um pouco por toda a internet, nas personalizações das nossas buscas, no conjunto de notícias que os agregadores das mesmas seleccionam para nós todos os dias e em especial na publicidade que se pretende ajustada ao nosso perfil de consumo e que é omnipresente na internet. Esta é uma faceta mais insidiosa da IA, com aspectos bastante mais negativos, nomeadamente da completa perda de privacidade dos cidadãos. O conjunto de dados colhidos sobre cada utilizador através das suas interacções nos diversos locais da rede e, de forma ainda mais preocupante, dos múltiplos sensores que os nossos dispositivos móveis «vertem» para os respectivos servidores, podem agora ser pasto para grandes programas de observação dos cidadãos, programas onde a utilização de técnicas da IA pode fazer realmente a diferença transformando-os no verdadeiro «Big Brother» dos nossos dias.

Na incorporação de IA no mundo da produção, o que é essencial é que os programas acumulam em si mesmo quantidades imensas de informação que correspondem a actividade humana, e com essa informação conseguem produzir respostas que podem ser comparadas às de um especialista na área.

Também isso não é novo. O tear mecânico de Cartwright também incorporava o saber e gesto de gerações de tecelões nas suas peças articuladas que lhe permitiam produzir, no início na revolução industrial, os tecidos a uma velocidade inimaginável para a manufactura. Levou à drástica diminuição de mão-de-obra com a sua generalizada utilização, da mesma forma que a incorporação de IA na produção tenderá essencialmente no mesmo sentido.

A utilização desta IA, sendo um fenómeno do mesmo tipo, pela imensa quantidade de informação que compreende, assim como pela possibilidade de ser generalizado a um amplo campo de actividades, parece ser qualitativamente diferente das restantes evoluções tecnológicas.

Ao fazer diminuir a intensidade da utilização força de trabalho, como capital variável, no ciclo de produção, confirma-se a evolução da composição orgânica do capital na fase produtiva, aumentando a razão entre o o capital constante e capital variável, confirmando a tendência identificada por Marx da descida tendencial da taxa de lucro, portanto avolumando significativamente as já críticas contradições do modo de produção capitalista.

Esta aquisição técnica (e científica) não poderá realizar o seu potencial, libertando o homem do jugo do trabalho dentro do modo de produção capitalista, exactamente como o tear a vapor o não pôde fazer. Só o Socialismo ao colocar o potencial produtivo ao serviço do Homem poderá voltar a devolver-lhe o tempo (livre) de que hoje ele se vê negado.