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II Centenário de Karl Marx, Edição Nº 356 - Set/Out 2018

Marx e a imprensa «Queremos que os operários nos compreendam»

por Fernando Correia

Marx não foi um activo colaborador da imprensa que produziu livros, nem um investigador e cientista que escreveu para os jornais. Conciliou as duas coisas, potenciando-as mutuamente, com o resultado que define uma obra genial: única pela sua diversidade, dimensão, profundidade e influência – inseparável em si própria do contributo de Engels, projectada no futuro pelos desenvolvimentos de Lénine.

Numa reunião do Comité de Bruxelas em que Marx participava (Março 1846), um seu opositor, o socialista utópico Weitling, começou a utilizar «raciocínios vagos onde transparecia o desprezo pela teoria revolucionária», o que levou Marx, irritado, a ripostar que «dirigir-se aos operários sem ideias rigorosamente científicas e sem doutrina positiva era brincar à propaganda tão fútil como desonesta, que pressupõe, de um lado um profeta inspirado e, do outro, unicamente burros ouvindo-o de boca aberta». Perante a insistência provocatória de Weitling, criticando «os doutrinários insensíveis aos sofrimentos do povo», Marx levantou-se imediatamente e clamou: «Nunca a ignorância ajudou fosse quem fosse!» 1.

Engels, numa carta (1890) ao filósofo e economista alemão Conrad Schmidt, e referindo-se à presunção de certos jovens intelectuais alemães próximos do partido que não se davam ao trabalho de estudar a história da economia, das formações sociais, etc., escrevia: «Estes senhores têm por vezes a ideia de imaginar que tudo é suficientemente bom para os operários». E sublinhava: «Se estes senhores soubessem que Marx avaliava as suas melhores obras ainda insuficientes para os operários e considerava um crime oferecer aos operários qualquer coisa que estivesse aquém do perfeito!». 2

Por um momento, saltemos atrás no tempo. Inscrito aos 18 anos na Faculdade de Direito da Universidade de Berlim, Marx foi-se interessando cada vez mais pelas questões filosóficas e acabou por se doutorar na Universidade de Jena com uma tese sobre os filósofos materialistas gregos Demócrito e Epicuro. Mas não seguiu nem a carreira académica nem se deixou seduzir pela filosofia idealista então dominante nos meios universitários. Dedicou-se ao estudo da ciência, da arte e... fez poemas. Neles se exprimiam já o seu espírito combativo e as suas preocupações humanistas, mesmo os que eram dedicados a Jenny, sua namorada e futura companheira (casariam em 1853): «Kant e Fichte vagueiam de bom grado pelo éter, / Procuravam aí um país distante, / Eu, contudo, procuro compreender, bem, / Aquilo que encontrei na rua!» 3.

Estas duas efemérides, distanciadas quase duas décadas – a reunião de Bruxelas e o poema juvenil – ilustram bem a convicção de Marx, desde cedo pressentida e depois assumida, de que a transformação da sociedade não poderia ser construída sem que os explorados, os «da rua», ganhassem a consciência não só da necessidade e possibilidade dessa transformação, mas também do que era preciso para o conseguir.

Ser popular, ter popularidade, procurar a clareza

Marx era sensível à necessidade de estar próximo do povo, convicto de que as transformações sociais só seriam possíveis com a vontade e a participação das massas. Em breve encontraria na prática jornalística um dos caminhos para o conseguir. Entendia que a imprensa democrática devia revestir-se de duas características: por um lado ser popular, enquanto defensora dos interesses fundamentais das massas, as suas aspirações, pensamentos e sentimentos, em oposição aos senhores da terra e do dinheiro e ao seu domínio sobre a política, a economia e a justiça; por outro lado, ter popularidade, no sentido em que a escrita deveria ser clara, simples e compreensível, ainda que sem cedências ao rigor científico e ideológico. Dizia Marx: «Queremos que os operários nos compreendam». 4

Mas tanto ele como Engels – os dois sempre colaboraram de perto também no trabalho com a imprensa – tinham noção do tipo de leitores para quem escreviam e sabiam adaptar-se às diferenças quer na linguagem quer nos conteúdos. Por exemplo, entre a Gazeta Renana (1842/43) e a Nova Gazeta Renana (1848/49) a linguagem mudou: o primeiro era principalmente lido por fracções da pequena burguesia liberal e operários de vanguarda, enquanto o segundo, numa altura em que a luta de classes estava muito mais avançada e o país vivia uma situação revolucionária, se assumia claramente como um jornal operário e revolucionário.

Tinham igualmente o cuidado, como observa Gurevich, com as diferenças entre escrever para um jornal diário como a NGR, mais virado para a actualidade, os acontecimentos, ainda que devidamente contextualizados, ou para uma revista teórica, que exigia um tratamento mais aprofundado, mais atento às causas e às consequências, ligado menos aos factos e mais aos processos. Como foi o caso da NGR – Revista de Política e Economia, que imediatamente se seguiu ao fim, imposto pela censura, da NGR. «Um artigo escrito para uma revista teórica podia não ser compreendido por muitas das pessoas que liam um jornal de massas. Inversamente, uma reportagem sobre acontecimentos de actualidade escritas para um jornal podia não cumprir o seu objectivo se publicado numa revista». Numa altura em que os géneros jornalísticos ainda não estavam claramente definidos, nos textos de Marx e Engels reflectia-se uma concepção que mantém toda a actualidade.

Com o mercado editorial igualmente desestruturado, sem a consistência que viria a alcançar décadas mais tarde, várias das obras mais importantes de Marx foram publicadas em brochuras e panfletos, mas também, totalmente ou em parte, na imprensa, nomeadamente na Nova Gazeta Renana, no fim dos anos 40 e início de 50. Por exemplo: «A Burguesia e a Contra-Revolução» (2.º artigo), NGR (15.12.1848); «Trabalho Assalariado e Capital», separata da NGR (1849); «As lutas de classes em França de 1848 a 1850», NGR – Revista de Política e Economia, n.ºs 1, 2, 3, 4, 5-6 (1850); «O 18 de Brumário de Napoleão Bonaparte», Die Revolution, jornal em língua alemã publicado em Nova Iorque (1852).

Os cuidados com a elaboração dos materiais escritos alargava-se às intervenções orais em congressos, conferências e reuniões com trabalhadores, muitas vezes editadas em panfletos e brochuras para mais ampla e fácil divulgação. E é significativo verificar até que ponto tais preocupações serão mais tarde prosseguidas por Lénine, ao longo da sua também intensíssima ligação como responsável e redactor de muitas dezenas de jornais e revistas, o que mostra até que ponto estamos aqui perante um princípio base e um objectivo permanente da ligação às massas. Que, também em Lénine, se alargava a todo o tipo de contactos. Nos últimos anos de vida, quando lhe falavam da acessibilidade das suas intervenções em reuniões e comícios, Lénine recorda: «Só sei que (...) pensava constantemente que os operários e camponeses eram os meus ouvintes. Queria que eles me compreendessem. Onde quer que um comunista fale, deve pensar nas massas, deve falar para elas.» 5

O objectivo de Marx ser claro casava-se bem com um estilo de escrita que lhe era próprio. Marx tinha a consciência de que o título se revestia de grande importância para prender a atenção do leitor e recorreu a diversas formas para o conseguir. Por exemplo, o título do panfleto «Senhor Vogt» é simples e tem, como assinala Gurevich, «um toque de desprezo», correspondendo ao conteúdo do texto. A preocupação pela atractividade dos títulos abrangia outras soluções, quer de natureza indicativa («A situação dos operários alemães»), quer afirmando desde logo a posição do autor («A baixeza profissional alemã»), quer satírica («As façanhas da dinastia Hohenzollern»), quer ainda apelando a uma acção concreta («Não mais Impostos!»).

Uma outra característica do estilo, tanto nos títulos como nos textos, e em que Marx se revelou particularmente hábil, era o recurso a trocadilhos, aforismos e expressões epigramáticas, cuja brevidade, acutilância e muitas vezes tom satírico e mordaz, davam clareza e eficácia aos seus pensamentos. Exemplos: «A crítica moralizante e a moral criticante»; «Um grande talento sem convicções produz um velhaco»; «Um fim que necessita de meios injustos não é um fim justo»; «Uma imprensa livre é o olho vigilante do espírito do povo»; «O punho é o derradeiro argumento da coroa, o punho será o derradeiro argumento do povo».

Entretanto, o Marx de O Capital não duvidava de que muito do que escrevia, nomeadamente sobre temas filosóficos e económicos, não seria logo à primeira de fácil apreensão para muitos leitores. Procurava ser «popular» (a expressão é sua) até ao limite possível, principalmente na imprensa, mas não abdicava do rigor científico. No Prefácio à 1.ª edição alemã de O Capital (1867) afirma: «À excepção da secção sobre a forma-valor não se poderá (...) acusar este livro de difícil inteligibilidade»; mas mais adiante faz questão de acrescentar: «Suponho, naturalmente, leitores que querem aprender algo de novo e que, portanto, também querem pensar por si». (Sublinhados nossos). E este texto de introdução à sua obra magna termina assim: «Todo o juízo da crítica científica é para mim bem-vindo. Face aos pré-juízos da chamada opinião-pública, a quem nunca fiz concessões, vale para mim, como anteriormente, a divisa do grande florentino: Segue il tuo corso, e lascia dir le genti! (Segue o teu caminho e deixa falar as gentes. Divisa adoptada por Dante em A Divina Comédia) 6.

O ferro «já está quente»... e a teoria e a prática

A intervenção de Marx e de Engels na imprensa é inseparável da sua actividade nas tarefas de mobilização e organização, nomeadamente nos anos 40. Numa carta (Novembro de 1844) enviada a Marx por Engels de Barmen, sua terra natal, onde episodicamente se encontrava, dá conta ao amigo da decisão sua e de outros camaradas de se organizarem e mobilizarem no sentido de uma participação activa em reuniões públicas promovidas pela burguesia para a criação de «Associações para a promoção da classe operária», cujo objectivo era distrair e afastar os trabalhadores da luta pelos seus direitos. A tarefa teve êxito, e o facto é que os estatutos propostos pelo clero e os patrões foram derrotados pela acção de Engels e seus camaradas.

Dois meses depois, nova carta a Marx, em que Engels confessa que «aquilo que especialmente me alegra» é «este foro de cidadania comunista na Alemanha, que se tornou agora um facto consumado. (...). Jornais, semanários, revistas mensais e trimestrais e as reservas concentradas da artilharia pesada, está tudo na melhor ordem. Tudo tem corrido depressa! A propaganda clandestina também deu os seus frutos...». Uma revista que outrora se publicava como separata da Gazeta Renana, acrescenta Engels, «já está também nas nossas mãos». E continua, no seu estilo expedito: «Mas aquilo de que actualmente temos maior necessidade é de algumas obras de uma certa envergadura, a fim de proporcionar uma base de apoio sólido a todos os nossos demi-savants, desejosos de saber mais, que estão cheios de boa-vontade mas não podem desenvencilhar-se sozinhos. Dispõe-te a terminar o teu livro de economia política; pouco importa que muitas páginas não te satisfaçam totalmente: os espíritos estão maduros e precisamos de bater no ferro, porque já está quente.» O livro era a Crítica da Política e da Economia Política, que Marx nunca chegaria a completar. 7

Estas cartas de Engels não têm um interesse meramente episódico, exemplificando bem a relação entre a imprensa e a acção no terreno. Simultaneamente, a necessidade de «algumas obras de certa envergadura» denota a consciência da importância de «armas teóricas» que enriquecessem e completassem o trabalho político de organização. A verdade é que seria redutor pensar a participação de Marx na imprensa apenas como uma forma de chegar às massas. O significado da imprensa tem muito a ver com o lugar onde a evolução do pensamento de Marx se cruza com a questão da ligação entre a teoria e a prática. A imprensa contribui de forma fundamental para constituir e dar consistência à relação dialéctica entre uma e outra, afirmando-se, juntamente com as obras teóricas, como um dos instrumentos dessa frutuosa e enriquecedora interligação.

Ao longo dos anos as situações políticas, sociais e económicas iam mudando, o que implicava sucessivas adequações das análises e da escrita na imprensa às situações concretas. Simultaneamente, o próprio Marx, ao mesmo tempo que escrevia para a imprensa ia avançandono seu pensamento teórico através da investigação, das leituras, da reflexão, do estudo. Sendo certo, porém, que para esses avanços se revelaram de grande importância as necessidades e obrigações implícitas a uma colaboração nos jornais que estivesse atenta à actualidade e aos factos, mas recorrendo a um enquadramento sociológico, histórico e político.

Por um lado, a escrita na imprensa foi acompanhando não só a alteração das conjunturas, mas também a evolução do pensamento do autor; por outro lado, o constante e sucessivo confronto de Marx com as situações concretas, através dos seus contactos, encontros e debates com as associações e outras organizações operárias e de trabalhadores, mas também devido à sua permanente colaboração nos jornais e ao trabalho específico que essa tarefa implicava, lhe permitiram alargar, enriquecer e aprofundar o seu próprio pensamento teórico.

Marx, tal como Engels, desde cedo deu importância à participação na imprensa, na medida em que isso lhe proporcionava uma intervenção directa junto dos leitores mas também conhecer ao vivo as realidades económicas e sociais, contactar directamente e no local os trabalhadores. Engels – que, aliás, tinha especial gosto em fazer reportagens – recordaria, já depois do desaparecimento do amigo, «sempre ter ouvido a Marx que pela sua ocupação com a lei de roubo da madeira e com a situação dos camponeses de Mosela (temas que Marx acompanhara quando em 1842 trabalhava na GR) tinha sido dirigido da simples política para as relações económicas e tinha chegado ao socialismo». 8 Foram dezenas os jornais e revistas onde Marx colaborou, foram muitas e muitas centenas os artigos que escreveu. Só na NGR, que resistiu à repressão um ano (Maio 1848 a Maio 1849), publicou perto de centena e meia de artigos, mais vários outros em colaboração com Engels; os temas abordados, por ordem decrescente, foram a política interna prussiana, análises teóricas, perfis de políticos, declarações e apelos em nome do jornal, política estrangeira e relatos dos trabalhos parlamentares. 9 Assume especial significado a colaboração de Marx no New-York Daily Tribune, jornal da burguesia liberal americana, considerado então como o maior diário do mundo, com uma tiragem de 250 000 exemplares. Pela duração – de Agosto de 1852 a Fevereiro de 1862; pela quantidade de artigos publicados – perto de 500, sendo que uma pequena parte foi escrita por Engels ou por ambos, devido à doença de Marx; pela temática – tendo sido convidado para ser correspondente em Londres, onde Marx estava exilado, acabou por transformar-se, nas palavras de Engels, em «toda uma série de artigos compreendendo exposições da situação política e económica dos vários países europeus». 10 Marx foi obrigado a um aturado trabalho de recolha de informação e de estudo da situação internacional, extremamente útil para o aprofundamento das realidades sociais, económicas e políticas de diversos países dos vários continentes e a sua utilização para a elaboração das suas obras.

Marx foi essencial para o jornalismo militante e revolucionário, mas as implicações da prática jornalística não foram menos essenciais para o Marx teórico e fundador do comunismo científico.

Notas

(1) Karl Marx. Biografia, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1983, p. 128.

(2) Marx, Engels. Correspondance, Éditions du Progrès, Moscou, 1976, p. 431.

(3) Karl Marx. Biografia, ed. cit., p. 24. No original: «Kant und Fichte gern zum Ather schweifen / Suchten dort ein fernes Land / Doch ich such nur tuchtig zu begreifen / Was ich-auf der Strasse fandt!».

(4) Semyon M. Gurevich, Karl Marx the Publicist, 1982, International Organization of Journalists.

(5) Lenine. Biografia, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1984, p. 323.

(6) Marx/Engels. Obras Escolhidas em 3 tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1983, pp. 90 e 93.

(7) Engels. Biografia, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1986, p. 59; Marx, Engels. Correspondance, ed. cit., pp. 13, 15 e 508 (nota 6).

(8) Karl Marx. Biografia, ed. cit., p. 146.

(9) Trin Van Thao, Marx, Engels et le Journalisme Révolutionaire, Éditions Anthropos, 2.º vol.,1979, pp. 235-237.

(10) Karl Marx. Biografia, ed. cit., p. 319 e Rubel, Maximilien, Karl Marx. Oeuvres. Économie I, Chronologie, pp. LVIII-CLXXVI.