Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Organização, Edição 'Nº 361 - Jul/Ago 2019'

Uma campanha de massas

por Rui Higino

Os nossos inimigos de classe não se conformam com o papel que o PCP teve e tem na construção da nossa sociedade, na luta contra a ditadura, na construção do 25 de Abril e da democracia, na luta constante pela defesa dos direitos e melhoria de condições de vida dos trabalhadores e do povo português, na luta pela construção de uma sociedade mais justa, contra os ímpetos e intentos da direita e do grande capital e, mais recentemente, com a viabilização de uma solução governativa que pôs termo a um ciclo de políticas de direita de roubo e empobrecimento do povo português.

O resultado obtido pela CDU nas eleições para o Parlamento Europeu fica aquém das nossas expectativas e objectivos e é negativo para a defesa no Parlamento Europeu dos interesses dos trabalhadores, do povo e do país.

A redução da votação na CDU nestas eleições é um sinal de alerta e deve ser pretexto para uma cuidada análise e reflexão colectiva nos vários organismos do Partido, desde a célula de empresa, discussão e análise que não deverá ter como objectivo encontrar um culpado mas sim identificar insuficiências nossas que contribuíram para ele, os pontos fracos e fortes e os aspectos passíveis de melhoria.

Se as causas externas não são fáceis de combater e não dependem de nós, estando intimamente ligadas e servindo os interesses do capital e dos nossos inimigos de classe, as nossas insuficiências, essas sim, dependem de todos e de cada um de nós.

Estas eleições e a respectiva campanha eleitoral decorreram num contexto de grande dificuldade, com manobras de diversão que tiveram e têm como objectivo denegrir a imagem do PCP e da CDU, muitas vezes evidenciando um preconceito e um anti-comunismo primário, semeando o medo e a desconfiança entre o eleitorado conduzindo-o para a abstenção, ou para a votação noutras forças e movimentos políticos.

Uma campanha marcada pela difamação que teve início há muito tempo e que se agudizou no período de pré-campanha e campanha eleitoral, contando com o apoio dos chamados órgãos de comunicação social que fizeram e continuam a fazer um trabalho exemplar, sem imparcialidade e sem verdade, servindo os interesses dos seus donos, quer através da divulgação de notícias falsas, com ataques direccionados aos nossos dirigentes, eleitos e candidatos, sem direito ao contraditório e à reposição da verdade, quer através da falta de cobertura das acções de campanha e intervenção do Partido, menorizando quase sempre o PCP, dando destaque às forças políticas que servem os seus interesses e que procuram promover.

As sondagens foram utilizadas para condicionar o sentido de voto. É sabido que as sondagens sob a capa da imparcialidade e de elementos de análise sérios e fiáveis têm na verdade um efeito condicionador do sentido de voto, contribuindo também para o incentivo à abstenção. Se por um lado, mesmo que inconscientemente, as pessoas tendencialmente preferem estar do lado dos vencedores, levando-as a votar no partido que estiver à frente nas sondagens, também existem aqueles que mesmo sabendo que não elegerão ninguém tendem a dar o seu voto aos menos votados «para ajudar os mais pequenos». Por último existem aqueles que olhando para as sondagens decidem não exercer o direito ao voto, abstendo-se, porque «nada vai mudar», ou «são sempre os mesmos a ganhar», não percebendo que podem ser, através do voto, os agentes da mudança.

As referências constantes às posições assumidas pelo Partido no que diz respeito à Venezuela, Cuba, Coreia do Norte, etc., a par da campanha de intoxicação veiculada pelos designados órgãos de comunicação social, foi outra das estratégias utilizadas de forma insistente, servindo inclusive como elemento de distracção para impedir a discussão sobre os temas relacionados com a União Europeia.

A capitalização dos ganhos com o novo quadro político por parte do PS e do BE foi outro dos pontos fortes desta campanha, utilizando ambos os partidos a «táctica do cuco» tão do agrado do BE, assumindo como suas propostas que tiveram origem e são defendidas pelo PCP há muitos anos. O exemplo mais gritante é o da redução dos preços dos passes sociais intermodais, medida proposta de forma recorrente pelo PCP ao longo de 22 anos e chumbada também de forma recorrente pelo PS ao lado do PSD e do CDS, o mesmo PS que agora veio assumir como sua a paternidade da medida.

A simulação da crise política e da demissão do governo desencadeada por António Costa, a reboque da reivindicação da contagem integral do tempo serviço dos professores, foi uma jogada claramente eleitoralista do PS, fazendo-se de vítima e passando a imagem da irresponsabilidade de quem defende esta medida pelos prejuízos que isso representaria nas contas públicas, com o falso argumento de que não existia o dinheiro, injustamente roubado, para devolver aos professores. António Costa em simultâneo encurralou o PSD e CDS, forçando-os a alterar o seu sentido de voto, ao mesmo tempo que «passava a mão no pêlo» ao PCP dizendo que a posição do nosso partido demonstrava coerência em relação a algo que sempre temos defendido, sabendo que o odioso da questão, pela forma como foi propositadamente colocada, penalizaria a CDU, escondendo de forma deliberada que essa medida consta no programa eleitoral do PS de 2015.

Estas são apenas algumas da extensa lista das possíveis linhas de ofensiva contra o PCP, no entanto também existem insuficiências nossas, questões de organização, que sentimos no terreno no decurso da campanha que convém analisar e encontrar forma de corrigir.

Existem fragilidades das organizações locais ao nível da mobilização e programação das acções de campanha, que foram notórias. Não chega ter uma acção de campanha à porta de uma empresa que conte com a presença de um candidato e dois ou três activistas. Uma acção de campanha com um número razoavelmente elevado de activistas, com bandeiras e em alguns locais com som, dá uma imagem de força, de aglutinação, de forte apoio e mobilização. Aqui também, tal como nas sondagens, o efeito psicológico faz-se sentir. Por outro lado, há momentos em que um pequeno grupo para fazer porta-a-porta é o mais indicado.

É importante também que os locais e horas de desenvolvimento das acções de campanha sejam criteriosamente escolhidos e devem ser as organizações locais a fazê-lo, porque são os seus elementos que conhecem melhor a realidade de cada local e como tal são eles que deverão construir a campanha. Por norma procura-se fazer o máximo de acções possível, mesmo que com um curto intervalo de tempo entre elas, não deixando tempo disponível para ir à conversa, para fazer o esclarecimento necessário, para explicar as posições do Partido, mesmo que contestadas, e apelar ao voto na CDU, única forma que temos de dar a conhecer as nossas propostas face à ocultação feita pelos órgãos de comunicação social. Está provado que a quantidade de iniciativas realizadas não é directamente proporcional ao número de votos obtidos, tal como a simpatia e cordialidade com que somos recebidos não é sinónimo de votos garantidos.

A presença dos camaradas que constituem os organismos do Partido, nomeadamente das organizações concelhias e dos autarcas actuais e antigos eleitos nas Assembleias e Juntas de Freguesia, nas Assembleias e Câmaras Municipais é muito importante. É evidente que a sua presença não significa necessariamente um maior número de votos na CDU, no entanto, porque conhecem e são reconhecidos pelas pessoas, porque conhecem os locais e os problemas existentes, podem responder a questões locais que invariavelmente são colocadas pelos munícipes e para as quais os candidatos e os activistas que os acompanham não têm resposta. Os autarcas da CDU por norma são prestigiados e o seu trabalho é reconhecido pelos munícipes que representam e como tal podem e devem ser a imagem da CDU.

No decurso da campanha foram levantadas questões ditas «fracturantes», como por exemplo a eutanásia, as touradas, as questões ambientais, os salários dos políticos, a corrupção na chamada classe política, questões que poderão ter contribuído para a alteração do sentido de voto, como é o caso da eutanásia, uma questão de consciência, muito sensível, ou as questões relacionadas com os animais e o ambiente, questões estas que estão muito em voga nos dias de hoje, procurando alguns partidos, de forma insistente e quase fundamentalista, «humanizar» os animais e tratando as questões ambientais com propostas radicais, semeando o medo com a imagem apocalíptica do fim do planeta Terra dentro de poucos anos. Isto demonstra que as pessoas por norma fazem uma análise dos assuntos isoladamente, não procurando perceber qual o alcance no seu todo.

Por outro lado, as questões relacionadas com os salários dos políticos e a corrupção na chamada classe política, alimentadas pelas notícias veiculadas nos órgãos de comunicação social com o objectivo de passarem a mensagem de que «são todos iguais» e «querem é tacho», contribuíram para o aumento da abstenção, servindo os interesses dos mesmos de sempre.

As situações de conflito existentes em algumas empresas e não resolvidas à data da campanha, alimentadas e sob a influência divisionista dos sindicatos e organizações ditas independentes, conhecedores do papel activo que temos na estrutura do Movimento Sindical Unitário, imputando ao PCP a responsabilidade pela não resolução daqueles conflitos, nuns casos, ou a forma como foram resolvidos, noutros casos, causaram dificuldades na campanha, com algumas manifestações de desagrado e alguma agressividade verbal de alguns trabalhadores, usando muitas vezes o argumento de que só nos preocupamos com os funcionários públicos, um argumento falso porque essa parte é aquela a que é dada maior visibilidade. Não há luta nenhuma, seja no sector público ou privado, em que o MSU e o PCP não estejam junto dos trabalhadores apoiando e corporizando essa luta, daí ser de extrema importância a criação de estrutura e de organização nos locais de trabalho, única forma de lutarmos contra as manobras divisionistas.

É preciso não esquecer que não temos tempo para parar, fazer um balanço exaustivo e pensar como vamos ultrapassar as dificuldades porque temos de estar mobilizados para a luta de todos os dias nas empresas e nos locais de trabalho, temos que construir a Festa do Avante!, evento de extrema importância para o reforço financeiro do Partido e momento de excelência para veicular a nossa mensagem e, é preciso não esquecer, temos dentro de cerca de quatro meses as eleições legislativas, em que é importantíssimo reforçar o Partido elegendo mais deputados, única forma de defender o povo e o país.

Não temos tempo para lamber as feridas nem para lamentações. É necessário apelar à unidade, à participação de todos e reforçar a militância. É necessário levantar a cabeça e seguir em frente de peito aberto para a luta, com a força, a coragem, a determinação, com a nossa marca distintiva, sem abdicar dos nossos princípios, dos nossos ideais. Não temos por hábito virar a cara à luta perante as dificuldades.

Nas próximas batalhas que se avizinham apenas podemos contar connosco, como sempre. Não podemos esperar que os órgãos de comunicação social façam o seu trabalho com verdade e isenção. Os ataques ao Partido irão continuar e é necessário que entendamos que não há votos garantidos. Os votos no PCP e na CDU não são oferecidos, são conquistados um a um e para isso é necessário fazer uma campanha de proximidade, como nós sabemos fazer, olhos nos olhos, informando, esclarecendo, apelando ao voto na CDU e explicando mais uma vez que o que está em causa nas legislativas não é a eleição de um primeiro-ministro, mas sim a eleição de deputados para a Assembleia da República, resultando da correlação de forças um primeiro-ministro e um governo.

Por muito que custe aos nossos detractores, adversários e inimigos, por muito que tentem passar a sua mensagem, nem todos os políticos são iguais. Não estamos na política para nos servirmos, estamos sim para servir, para dar voz a quem não a tem, para lutar por uma sociedade mais justa, colocando os interesses individuais atrás dos interesses colectivos.

É necessário que cada militante do PCP, cada activista da CDU perceba que é tão importante quanto qualquer candidato, cada um de nós deve ser um candidato.

Para reforçar o Partido e estarmos preparados para as próximas batalhas e desafios é necessário que nos organizemos nas empresas e locais de trabalho, nas células de empresa, nas comissões de freguesia, é necessário continuar com a campanha dos 5000 contactos, procurando desta forma trazer novos militantes ao Partido, enquadrá-los e responsabilizá-los, é necessário continuar com a entrega dos novos cartões e sobretudo garantir a autonomia financeira do Partido.

Avançar é preciso, mas só se avança se o PCP e a CDU forem reforçados com mais votos e deputados. Fazer com que isto aconteça é a nossa tarefa, o nosso desafio diário.