Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Abertura, Edição Nº 318 - Mai/Jun 2012

História e confiança na luta

por Revista o Militante

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As questões da História sempre ocuparam uma posição relevante na batalha das ideias, posição que nos dias de hoje se tornou em muitos aspectos ainda mais decisiva. Para impor a sua visão da história, a classe dominante mobiliza poderosos meios materiais e humanos. Começa por se assegurar do férreo controle dos mecanismos de produção e difusão ideológica do sistema, da Escola e Universidades aos Institutos de Investigação, dos grandes meios de comunicação social e produção editorial a uma densa e sofisticada rede de conferências, seminários, «estágios» e acções de «formação». Claro que o controle não é nem poderá ser absoluto. A resistência, a luta, e até a simples verticalidade intelectual e o brio profissional, conseguem impor janelas de sentido crítico e de respeito pela Verdade que devem ser valorizadas. Mas o que predomina, avassaladoramente, é a imposição de valores, conceitos, opiniões que apagam e desvalorizam o papel das massas na história.

A realidade global do mundo capitalista é cada vez mais a de uma autêntica ditadura da classe dominante de fachada democrática. A agudização das suas contradições e o amadurecimento das condições objectivas para a sua superação revolucionária, colocam o capitalismo numa posição historicamente defensiva em que, a par do desenvolvimento de tendências autoritárias e fascizantes, se revela fundamental o refinamento dos métodos de condicionamento ideológico para tentar atrasar a criação das condições subjectivas – de organização, consciência de classe, unidade popular, determinação combativa, confiança na alternativa – indispensáveis ao processo de transformação progressista e revolucionária da sociedade.

No caso concreto de Portugal, esta tendência global adquire traços específicos porventura mais graves. Por aqui passou uma revolução política e social profunda que, inacabada embora, deixou sulcos profundos – de experiências, realizações, valores – que por responderem às exigências do desenvolvimento social, integrarão necessariamente, como sublinha o Programa do PCP, o projecto de Democracia e Socialismo do nosso Portugal futuro. É esta perspectiva que a grande burguesia procura a todo o custo fechar, tentando levar até ao fim o processo de desmantelamento de conquistas e direitos que subsistem na realidade e na ordem constitucional portuguesa e, simultaneamente, procurando varrer da consciência da classe operária e do povo português a memória do seu próprio e insubstituível papel transformador e revolucionário.

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Numa autêntica desforra de classe contra a revolução portuguesa, os monopólios, reconstituídos em aliança subalterna com o grande capital estrangeiro, não hesitam em arruinar Portugal e torná-lo em protectorado do imperialismo. É para aí que o pacto de agressão empurra o país. É para aí que aponta a criação, em violação frontal da Constituição, de um edifício de poder político ao serviço do grande capital, inteiramente concebido para acentuar a exploração dos trabalhadores e do povo de modo a contrariar a inelutavel tendência para a baixa da taxa de lucro e as desastrosas consequências da financeirização da economia, que acentua ainda mais o carácter predador parasitário do capitalismo na sua fase actual. Três exemplos mostram claramente o crime contra os trabalhadores, o povo e o país que este processo de recuperação monopolista do poder significa. O ataque continuado e sistemático às leis laborais que protejam o trabalho contra a gula e o arbítrio do capital, que constituiu a razão próxima da grande Greve Geral de 22 de Março; a guerra ao poder local democrático que recebeu com a Manifestação nacional de 31 de Março contra o encerramento das freguesias uma resposta de grande dimensão; o desmantelamento sistemático das funções sociais do Estado, e em particular do Serviço Nacional de Saúde, em defesa do qual se tem desenvolvido um amplo movimento das populações, e de que foi importante expressão a jornada nacional de 14 de Abril foi importante expressão.

A estes podiam juntar-se muitos outros exemplos, mostrando, por um lado, os ambiciosos objectivos revanchistas que têm orientado os trinta e sete anos de políticas de direita, de recuperação capitalista e imperialista, e que se estão a acelerar com o pacto de agressão. E, por outro lado, a persistente resistência que tais propósitos têm encontrado por parte dos trabalhadores e restantes classes e camadas anti-monopolistas. Resistência que é necessário e possível intensificar, tornar ainda mais ampla e diversificada, tornar ainda mais intensa nas empresas e nas ruas, exprimir-se em novas acções de convergência de dimensão nacional como no 25 de Abril e no 1.º de Maio.

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Neste caminho a batalha das ideias assume uma importância decisiva para sacudir a chantagem e o medo, fazer recuar o conformismo, derrotar a teoria da «inevitabilidade» e incutir confiança na possibilidade de alternativa e na força da organização e da luta. Uma batalha que vai muito para lá da já por si decisiva batalha da informação. Uma batalha em que a enorme desproporção de meios materiais e institucionais não pode levar a abandonar um terreno, que é decisivo: o da história do nosso país ao longo do século XX e em particular a história da revolução portuguesa e de um partido, o PCP, cuja resistência e abnegada luta desempenhou e desempenha um papel insubstituível na defesa dos interesses do povo português e na luta por um Portugal com futuro.

Quando a ditadura terrorista dos monopólios (associados ao imperialismo) e dos latifundiários é considerada um mero «regime autoritário» e a ditadura fascista e seus expoentes são descaradamente branqueados e promovidos; quando o papel determinante da classe operária e da luta popular de massas como motor da revolução são sistematicamente apagados; quando a acção do PCP como o grande e incansável obreiro da resistência popular e da frente anti-fascista é tergiversada e diminuída, se não mesmo caluniada; quando as classes dominantes, tradicionalmente enfeudadas ao imperialismo, são absolvidas das suas responsabilidades pelo atraso e dependência do país – mais necessário se torna intervir para repor a verdade histórica, e tudo fazer para que se não esqueça, e para que as novas gerações conheçam, a realidade da luta de classes em Portugal e no mundo, iluminando assim os caminhos que é necessário percorrer na actualidade para enfrentar a violentíssima ofensiva exploradora do capital e desmascarar a desinformação e a manipulação política e ideológica da classe dominante. E sobretudo para cimentar a confiança de, reforçando a organização e persistindo na luta, alcançar finalmente a satisfação das mais caras aspirações populares.