Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 358 - Jan/Fev 2019

Uma mulher na Revolução - Nadia Krupskaya

por Alma Rivera

A vida e obra de Nadia Krupskaya conta-nos a história da Revolução de Outubro. Uma vida inteiramente dedicada à libertação da exploração e que nos transporta para o processo em que, pela primeira vez na História da Humanidade, os trabalhadores conquistaram o poder. Conhecer o seu percurso é conhecer os combates do seu tempo, dos bolcheviques, do período que antecede a Revolução aos grandes desafios que se colocaram à União Soviética.

Num tempo de grande investimento num certo «feminismo» 1 (sem classe) em resposta aos retrocessos e direitos sugados à vida das mulheres trabalhadoras pelo sistema capitalista, problemas que mobilizam legitimamente grande número de mulheres, não deixa de ser reveladora a ausência de referências às revolucionárias de Outubro, entre elas Nadia Krupskaya, mulheres protagonistas do salto em frente na igualdade entre homens e mulheres.

Uma vida dedicada à luta

Nascida na cidade industrial de São Petersburgo a 26 de Fevereiro de 1869, Nadia era filha de um oficial do exército de ideias progressistas e de uma professora, ambos de famílias nobres mas empobrecidas por diversas circunstâncias. Após a morte do pai avolumam-se as dificuldades e Nadia, aos 14 anos, teve de ir dar aulas. Ainda assim conseguiu estudar em boas instituições como o liceu feminino Obolensky, onde deu aulas de substituição, e formar-se nos cursos Bestuzhev, aprofundando o interesse em pedagogia.

O fascínio pela leitura deu-lhe a conhecer Leo Tolstoy e interessou-se pelas reflexões éticas propostas. Mas é sobretudo a partir do confronto com a realidade dura e injusta que ela percebe ser preciso ir mais além do que viver nos valores do despojo e fraternidade, isso era inócuo e não alteraria o estado de coisas – era preciso contribuir para um movimento revolucionário que alterasse radicalmente a sociedade.

Por volta de 1891, Nadia já frequenta os círculos de estudo marxistas de São Petersburgo. Nessa altura, dá aulas na Smolenskaya, uma escola de domingo para adultos em que estudam muitos operários, o que a entusiasma pela «excelente oportunidade para estudar a vida quotidiana da classe trabalhadora, as condições de trabalho e o temperamento das massas» 2. É nestes círculos que conhece Lénine, mas é no trabalho concreto que os dois se aproximam. À medida que se estabelecia a confiança e cumplicidade entre alunos e professoras, as aulas acabaram por funcionar como espaço de discussão, ultrapassando em muito os programas permitidos. Entretanto, muitos recrutamentos e já muitos trabalhadores se tinham juntado à recém-formada «União de Luta pela emancipação da classe operária», que agregava numa organização os núcleos de revolucionários.

Krupskaya dedica-se ao que viria a ser o Partido Comunista da União Soviética e pouco tempo depois Lénine é preso por divulgação de panfletos ilegais. Nessa altura davam-se largos passos na agitação nas fábricas, publicando e distribuindo-se propaganda dirigida aos trabalhadores. Krupskaya contribuiu para este trabalho e recorda em particular a greve dos têxteis, em que aderiram 30 mil. Em 1896, também ela é presa. Após cumprir pena na prisão é condenada a três anos de exílio e nesse momento consegue transferência para a Sibéria onde se encontrava Lénine. Para se juntarem, Krupskaya alegou que eram noivos e casou-se com Lénine.

«Da centelha nascerá a chama»

Durante este primeiro exílio em que Lénine escreveu «O desenvolvimento do capitalismo na Rússia», Krupskaya produziu o folheto «A Mulher Trabalhadora», o primeiro documento de perspectiva marxista sobre a situação da mulher na Rússia que contém uma análise de fundo sobre as causas da ausência de direitos das mulheres. Faz-se um apelo para que as mulheres se juntem às fileiras da luta por uma vida melhor, lado a lado com os homens e como iguais. «A mulher trabalhadora faz parte da classe trabalhadora», «todos os seus interesses estão vinculados ao interesse desta classe». Ela faz uma descrição impressionante do fardo da mulher trabalhadora, da sua falta de autonomia e dependência do marido, em que a mulher é «trazida para casa», desvalorizada, vista pelo camponês como sua propriedade, considerada apenas pelo valor do seu trabalho. Krupskaya escreve ainda que a mulher tem uma dupla jornada, porque quando acaba o seu trabalho no campo ou na fábrica ainda está presa ao trabalho doméstico e ao cuidado dos filhos. O trabalho junto das mulheres faz com que elas tenham um papel de destaque nas lutas que constroem a Revolução de Outubro.

Ainda que longe da Rússia, vivendo em várias cidades da Europa, foram anos de trabalho intenso, estabelecendo e agregando contactos, aprofundando o estudo, trabalhando na organização do novo Partido. Nadia tem uma tarefa de grande responsabilidade: pôr em circulação, a partir da fronteira, a imprensa clandestina.

A um primeiro exílio segue-se um breve período de regresso, que dá lugar a um segundo exílio, desta vez em Paris. Lénine e Kruspkaia voltariam a viver na Rússia pouco antes do eclodir da Revolução.

O espírito dinamizador de Krupskaya era reconhecido por todos, mesmo os que se viriam a confrontar com ela 3, reconhecendo-lhe a contribuição decisiva para a organização das massas e sucesso da Revolução. Sendo a tarefa da propaganda a que mais a ocupou inicialmente, logo em 1901 torna-se responsável do Centelha (Iskra), o órgão central do então já Partido Operário Social-Democrata Russo, instrumento decisivo da intervenção do Partido. Boa parte do trabalho não era propriamente de redacção, mas sim de construção de uma rede de contactos e de «correios», de medidas de protecção da actividade e dos camaradas, trabalho que descreve com entusiasmo.

Uma Revolução na Educação

Após a Revolução Bolchevique, Krupskaya faz parte do Comissariado do Povo da Educação, com a principal responsabilidade pela Instrução de Adultos, consagrando todo o seu estudo e interesse de sempre nesta discussão colectiva: «O governo operário e camponês (...) deve eliminar o carácter de classe da escola, deve fazer com que todos os graus sejam acessíveis a todos os sectores da população e deve fazê-lo não em palavra, mas de facto. A instrução continuará a ser um privilégio da burguesia enquanto não forem modificados os objectivos da escola. A população está interessada em que as escolas primárias, secundárias e superiores tenham um mesmo objectivo: educar indivíduos integralmente desenvolvidos, com instintos sociais conscientes e organizados, possuidores de uma visão de mundo reflectida e íntegra, que tenham clara compreensão de tudo o que ocorre ao seu redor na natureza e na vida social; indivíduos preparados na teoria e na prática para todo o tipo de trabalho, tanto manual como intelectual (...). Tais indivíduos fazem falta à sociedade socialista, sem eles não pode materializar-se cabalmente o socialismo». 4

Para estes pedagogos a escola é chamada à formação do ser humano para este processo de transformação. O desafio colocado ao novo sistema era criar uma escola que, não apenas pela politecnia, a junção da componente técnica e prática com a teórica, mas pela sua forma de funcionamento, sem rotinas, controlada colectivamente, forme homens e mulheres de luta, construtores do futuro da revolução.

Especial dimensão neste trabalho tiveram as bibliotecas. Contrariando o que até então existia e para permitir essa educação emancipadora, era necessário erguer uma rede de bibliotecas com características definidas: universal, abrangente a todo o território, com diversidade e qualidade nas obras disponíveis. Para isso, Krupskaya promoveu o inventário de todas as bibliotecas, incentivando-as a procurarem corresponder aos interesses das massas, indo ao seu encontro e captando as suas necessidades. Insistiu que a formação dos próprios bibliotecários deveria muni-los das ferramentas necessárias para estabelecer essa fusão necessária entre a sociedade e as bibliotecas.

Do lado certo da História

Desde a prisão ao exílio, Nadia Krupskaya não perdeu a confiança no futuro. Num comentário crítico às «Lições de Outubro» de Trotsky, relembra com a habitual simplicidade: não se podem subestimar as massas. O papel por elas desempenhado é a pedra-de-toque do leninismo e nunca são «um meio para» mas sim o factor decisivo. «Se ao Partido compete liderar milhões na Revolução, então tem de estar em estreito contacto com esses milhões, tem de compreender a vida, as preocupações e as suas aspirações».

Para além de ter deixado grande legado na pedagogia socialista, são inestimáveis os seus contributos, tanto no plano teórico, como prático. A sua militância, coragem, o trabalho junto da juventude, na discussão do novo modelo de educação, na criação dos Pioneiros, as suas contribuições fraternas para a organização da juventude comunista, o seu papel na constituição da organização de mulheres do Partido, na redacção do jornal «A Operária», na Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, fizeram de Krupskaya uma grande revolucionária. Hoje empresta o seu nome ao Prémio Krupskaya de Literacia da UNESCO, ao asteróide descoberto por uma compatriota e ao mais amado chocolate russo.

Notas

(1) No primeiro número de «A Operária», publicado em Fevereiro de 1914, Krupskaya explicava as diferenças entre as bolcheviques e as feministas burguesas: «As mulheres da classe constatam que a sociedade actual está dividida em classes. Cada classe tem os seus próprios interesses. A burguesia tem os seus, a classe operária tem outros. Os seus interesses são opostos. A divisão entre homens e mulheres não tem grande importância para as mulheres operárias, o que une as mulheres trabalhadoras com os trabalhadores é muito mais forte do que o que os divide».

(2) N. Kruspkaya, Memórias de Lénine.

(3) Alexandra Kollontai, revolucionária próxima de Krupskaya, destacava a sua inabalável confiança, firmeza de espírito e humildade. Mas também Trotsky, a quem Krupskaya teceu duras críticas, destacou que «ela tinha um papel central no trabalho de organização (…) No seu quarto havia sempre cheiro a papel queimado das cartas que ela aquecia», referindo-se à técnica utilizada pelos revolucionários, e introduzida por Lénine quando estava na prisão, de escrever com leite e, por efeito do calor, revelar o que estava escrito.

(4) N. Krupskaya, A Construção da Pedagogia Socialista.