Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Internacional, Edição Nº 358 - Jan/Fev 2019

Cuba Internacionalista

por Jorge Cadima

A Revolução Cubana teve um profundo impacto mundial. A solidariedade internacionalista foi, desde a primeira hora, uma marca característica da Revolução, e uma das suas mais belas expressões. São bem conhecidas as brigadas médicas em muitos cantos do planeta. Mas essa solidariedade expressou-se também nos campos de batalha e teve um papel fulcral na derrota dos planos imperialistas para impedir a independência de Angola e da Namíbia, e para derrotar o odioso regime racista do apartheid na África do Sul. Hoje são muitos os que tentam re-escrever a História e proclamar-se amigos de peito de Nelson Mandela. Escondem o facto de Mandela ter estado na lista oficial de terroristas dos EUA até 2008, nove anos após ter cessado as suas funções como primeiro Presidente livremente eleito da África do Sul! Mandela reconheceu o papel fundamental da solidariedade de Cuba na libertação da África Austral.

O Militante publica excertos de dois discursos importantes na afirmação da verdade histórica: o discurso de Fidel Castro em 2005, relatando a missão internacionalista de Cuba em África; e o discurso que Mandela proferiu em Cuba, a 26 de Julho de 1991, pouco tempo após a sua libertação das cadeias do apartheid.

Excertos do discurso proferido pelo Presidente da República de Cuba, Fidel Castro Ruz, no acto comemorativo do 30.º aniversário da Missão Militar Cubana em Angola e o 49.º aniversário do desembarque do Granma, Dia das Forças Armadas Revolucionárias, em 2 de Dezembro de 2005.

A história da pilhagem e saqueio imperialista e neocolonial de Europa em África, com pleno apoio dos Estados Unidos e da NATO, bem como a heróica solidariedade de Cuba com os povos irmãos, não são suficientemente conhecidas […]. Já em 1961, quando o povo de Argélia travava uma assombrosa luta pela sua independência, um navio cubano transportou armas para os heróicos patriotas argelinos e no regresso trouxe uma centena de crianças órfãs e feridos de guerra. Dois anos depois, quando a Argélia alcançou a independência viu-se ameaçada por uma agressão exterior que despojava o martirizado país de importantes recursos naturais. Pela primeira vez tropas cubanas cruzaram o oceano e, sem pedir licença a ninguém, acudiram ao chamado do povo irmão. Também por aqueles dias, quando o imperialismo arrebatou ao país metade de seus médicos, deixando-nos apenas 3 mil, várias dezenas de médicos cubanos foram enviados a Argélia para ajudar o seu povo. Iniciava-se, assim, há 44 anos, o que hoje constitui a mais extraordinária cooperação médica com os povos do Terceiro Mundo que a Humanidade já conheceu. […]

No caso de Angola, a mais grande e rica das colónias portuguesas […] o governo dos Estados Unidos pôs em prática um plano encoberto para derrotar os legítimos interesses do povo angolano e implantar um governo fantoche. Ponto-chave foi a sua aliança com a África do Sul para compartilhar o treino e armamento das organizações criadas pelo colonialismo português para frustrar a independência de Angola e torná-la num condomínio do corrupto Mobutu e do fascismo sul-africano, cujas tropas não hesitou em usar para invadir Angola. Ditadores, terroristas, ladrões e racistas confessos eram incluídos constantemente, sem o menor pudor, nas fileiras do chamado «mundo livre», e poucos anos depois o presidente norte-americano, Ronald Reagan, baptizou-os, com incrível cinismo, como «combatentes pela liberdade». […]

Em meados de Outubro de 1975, enquanto o exército de Zaire e forças mercenárias reforçadas com armamento pesado e assessores militares sul-africanos se preparavam para lançar novos ataques no norte de Angola e estavam já nas proximidades de Luanda, o maior perigo espreitava a sul. Colunas blindadas sul-africanas penetraram pelo sul do país e avançavam rapidamente em profundidade no território, com vistas à ocupação de Luanda pelas forças unidas dos racistas sul-africanos e as tropas mercenárias de Mobutu, antes da proclamação da independência em 11 de Novembro.

Nessa altura apenas havia em Angola 480 instrutores militares, chegados a esse país semanas antes em resposta à solicitação que nos fez o Presidente do MPLA Agostinho Neto, insigne e prestigioso líder que organizou e dirigiu a luta de seu povo durante muitos anos e contava com o apoio de todos os povos africanos e o reconhecimento do mundo. Simplesmente nos pediu cooperação para treinar os batalhões que fariam parte do exército desse novo Estado independente. Os instrutores tinham apenas armamento ligeiro. […] Pela primeira vez, nesse afastado ponto da geografia africana, o sangue de cubanos e angolanos uniu-se para adubar a liberdade daquela sofrida terra. Foi nesse momento quando Cuba, em coordenação com o presidente Neto, decidiu enviar tropas especiais do Ministério do Interior e unidades regulares das FAR prontas para combater, transportadas por ar e mar para enfrentar a agressão do apartheid. Sem hesitar aceitamos o desafio. […] O império não conseguiu os seus objectivos de desmembrar Angola e pôr em causa a sua independência. A heróica e longa luta dos povos de Angola e Cuba impediu-o. […]

Em nenhum momento o Presidente dos Estados Unidos nem o seu poderoso secretário de Estado, Henry Kissinger, nem os serviços de inteligência desse país, imaginaram sequer a possibilidade da participação de Cuba. Nunca um país do Terceiro Mundo tinha actuado em apoio de outro povo num conflito militar longe de sua vizinhança geográfica. No final de Novembro, a agressão inimiga foi detida no norte e no sul. Unidades completas de tanques, abundante artilharia terrestre e anti-aérea, unidades de infantaria blindada até o nível de brigada, deslocadas por navios da nossa Marinha Mercante, acumulavam-se rapidamente em Angola, onde 36 000 soldados cubanos iniciaram uma fulminante ofensiva. Atacando o inimigo principal no sul, fizeram retroceder o exército racista sul-africano mais de 1000 quilómetros até seu ponto de partida, a fronteira entre Angola e a Namíbia, território colonial dos racistas. Em 27 de Março, o último soldado da África do Sul abandonou o território angolano. No norte, em poucas semanas as tropas regulares de Mobutu e os mercenários foram empurrados para o outro lado da fronteira com o Zaire. […] em Abril de 1976, o companheiro Raúl, Ministro das Forças Armadas, viajou até Angola para analisar com o presidente Neto a necessidade inevitável de proceder à retirada gradual e progressiva das tropas cubanas que atingiam 36 000 efectivos num período de três anos, tempo que ambas as partes, Cuba e Angola, achávamos suficiente para formar um forte exército angolano. […]

Formámos dezenas de milhar de soldados angolanos e assessorámos a instrução e os combates das tropas daquele país. Os soviéticos assessoravam a alta direcção militar e forneciam generosamente às Forças Armadas angolanas as armas necessárias. Acções originadas no assessoramento superior deram-nos não poucas dores de cabeça. Mas sempre prevaleceu entre militares cubanos e soviéticos um grande respeito e profundos sentimentos de solidariedade e compreensão. Como é conhecido, no fim de 1987 produziu-se a última grande invasão sul-africana ao território angolano, em circunstâncias que punham em perigo a própria estabilidade dessa nação. Nessa data, a África do Sul e os Estados Unidos lançaram o último e mais ameaçador golpe contra um forte agrupamento de tropas angolanas que avançava por solos arenosos em direcção à Jamba, no limite sul-oriental da fronteira de Angola, onde se supunha radicasse o posto de comando de Savimbi, ofensivas às quais sempre nos opusemos se não se impedisse a África do Sul de intervir com a sua aviação, a sua poderosa artilharia e as suas forças blindadas. Mais uma vez repetiu-se a conhecida história. O inimigo, muito encorajado, avançava em profundidade para Cuito Cuanavale, antiga base aérea da NATO, e preparava-se para assestar um golpe mortal contra Angola. […]

Num esforço titânico, apesar do sério perigo de agressão militar que também existia sobre nós, a alta direcção política e militar de Cuba decidiu reunir as forças necessárias para assestar um golpe definitivo às forças sul-africanas. A nossa Pátria repetiu novamente a proeza de 1975. Um rio de unidades e meios de combate cruzou rapidamente o Atlântico e desembarcou na costa sul de Angola para atacar pelo sudoeste em direcção à Namíbia, enquanto, 800 quilómetros para o leste, unidades especiais avançaram para Cuito Cuanavale e ali, em conjunto com as tropas angolanas que se retiravam, prepararam uma armadilha mortal às poderosas forças sul-africanas que avançavam em direcção àquela grande base aérea. Nessa ocasião reuniram-se 55 000 soldados cubanos em Angola. Assim, enquanto em Cuito Cuanavale as tropas sul-africanas eram dizimadas, pelo sudoeste 40 000 soldados cubanos e 30 000 angolanos, apoiados por aproximadamente 600 tanques, centenas de peças de artilharia, 1000 armas antiaéreas e as audazes unidades de MIG-23 que se apoderaram do domínio aéreo, avançavam para a fronteira da Namíbia, dispostas a varrer literalmente as forças sul-africanas que se aquartelavam naquela direcção principal. […]

As contundentes vitórias em Cuito Cuanavale e, sobretudo, o avanço fulminante do poderoso agrupamento de tropas cubanas no sudoeste de Angola, puseram ponto final à agressão militar estrangeira. O inimigo teve que engolir a sua habitual prepotência e sentar-se à mesa das conversações. As negociações terminaram com os Acordos de Paz para o Sudoeste da África, assinados pela África do Sul, Angola e Cuba na sede da ONU, em Dezembro de 1988. […]

A missão internacionalista foi cumprida cabalmente. Os nossos combatentes iniciaram o regresso à pátria orgulhosos, trazendo apenas consigo a amizade do povo angolano, as armas com as que combateram com modéstia e valor a milhares de quilómetros de sua pátria, a satisfação do dever cumprido e os gloriosos restos mortais de nossos irmãos tombados em combate. A sua contribuição foi decisiva para a consolidação da independência de Angola e a obtenção da independência da Namíbia. Também contribuiu significativamente para a libertação do Zimbabwe e para o desaparecimento do odioso regime do apartheid na África do Sul. Poucas vezes na história uma guerra, a acção humana mais terrível, devastadora e difícil, esteve acompanhada por um tão alto grau de humanismo e de modéstia por parte dos vencedores, apesar da falta quase absoluta desses valores nas fileiras dos que acabaram derrotados. […]

A façanha de Angola e a luta pela independência da Namíbia e contra o apartheid fascista fortaleceram muito o nosso povo. Os incontáveis actos de heroísmo, abnegação e humanismo protagonizados por mais de 300 000 combatentes internacionalistas, e perto de 50 000 colaboradores civis cubanos que de maneira absolutamente voluntária cumpriram a missão em Angola, são um tesouro de extraordinário valor. Essa bela tradição é hoje dignamente continuada por dezenas de milhar de médicos e demais profissionais e trabalhadores da saúde, professores, treinadores desportivos e especialistas dos mais diversos sectores […]. [Em Angola] morreram 2077 compatriotas. […].

Mais uma vez, ratificamos o eterno compromisso com nossos mortos gloriosos de levar avante a Revolução e ser sempre dignos de seu exemplo […]. Continuaremos derrotando cada agressão imperialista, as mentiras da sua propaganda e as suas traiçoeiras manobras políticas e diplomáticas.

Continuaremos resistindo às consequências do bloqueio, que um dia será derrotado pela dignidade dos cubanos, pela solidariedade dos povos, e pela quase absoluta oposição dos governos do mundo – como ficou demonstrado mais uma vez na votação da ONU [...]. Os nossos internacionalistas, e os restantes combatentes cubanos, que é o mesmo que dizer o povo todo, estão conscientes de que se houver uma agressão militar derrotaremos o invasor.

Excertos do discurso proferido por Nelson Mandela no Acto Central do 38.º Aniversário da Vitória da Revolução Cubana, em Matanzas, Cuba.

Há muito tempo que gostava de ter visitado o vosso país e expressar-vos o nosso apreço pela Revolução Cubana e o papel desempenhado por Cuba em África, na África Austral e no mundo. O povo cubano ocupa um lugar especial no coração dos povos de África. Os internacionalistas cubanos deram uma contribuição à independência, liberdade e justiça em África que, pelos seus princípios e pela sua natureza desinteressada, não tem paralelo. Desde os seus primeiros dias, a Revolução Cubana foi fonte de inspiração para todos os povos amantes da liberdade. […] Podemos aprender muito com a sua experiência. Comove-nos de forma particular a afirmação dos laços históricos com o continente africano e os seus povos. O seu compromisso permanente com a erradicação sistemática do racismo não tem paralelo. […]

Viemos até aqui conscientes da grande dívida que temos para com o povo de Cuba. Que outro país pode mostrar uma história de maior desapego do que a de Cuba nas suas relações com África? Quantos países do mundo beneficiam da obra dos trabalhadores da saúde e dos educadores cubanos? Quantos de entre esses estão em África? Qual é o país que tenha solicitado a ajuda de Cuba e ao qual tenha sido negada? Quantos países ameaçados pelo imperialismo, ou que lutam pela sua libertação nacional, puderam contar com o apoio de Cuba?

Eu estava na prisão quando soube pela primeira vez da ajuda massiva que as forças internacionalistas cubanas estavam a dar ao povo de Angola – numa escala tal que era-nos difícil acreditar – quando os angolanos se viram atacados, em 1975, de forma combinada pelas tropas sul-africanas, a FNLA financiada pela CIA, os mercenários e as forças da UNITA e do Zaire. Em África estávamos habituados a ser vítimas de outros países que querem tomar conta do nosso território ou subverter a nossa soberania. Na História de África não existe outro caso de um povo que se tenha erguido para nos defender. […]

Sabemos que as forças cubanas estavam dispostas a retirar-se pouco depois de terem repelido a invasão de 1975, mas as continuadas agressões de Pretória tornaram isso impossível. A vossa presença e o reforço enviado para a batalha de Cuito Cuanavale tiveram uma importância verdadeiramente histórica. A esmagadora derrota do exército racista em Cuito Cuanavale constituiu uma vitória para toda a África! Essa contundente derrota do exército racista em Cuito Cuanavale deu a possibilidade a Angola de desfrutar da paz e consolidar a sua própria soberania. A derrota do exército racista permitiu ao povo combatente da Namíbia alcançar finalmente a sua independência. A decisiva derrota das forças agressoras do apartheid destruiu o mito da invencibilidade do opressor branco. A derrota do exército do apartheid serviu de inspiração ao povo combatente da África do Sul. Sem a derrota infligida em Cuito Cuanavale, as nossas organizações não teriam sido legalizadas. A derrota do exército racista em Cuito Cuanavale tornou possível que hoje eu possa estar aqui convosco. Cuito Cuanavale é um marco na História da luta pela libertação da África Austral! Cuito Cuanavale marca a viragem na luta para libertar o continente e o nosso país do jugo do apartheid! [...]