Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 371 - Mar/Abr 2021

100 anos do PCP - A luta da juventude na imprensa do Partido

por António Azevedo

A História do PCP é inigualável. Anos e anos de luta formam o Partido que hoje conhecemos, um Partido com identidade própria, com bases ideológicas cimentadas e um Partido que olha para a actual fase da história e consegue identificar etapas e objectivos.

O PCP é o Partido da classe operária e de todos os trabalhadores, mas, por isso mesmo, é também o Partido de toda a Juventude. Não é somente por defender medidas em que os jovens se revêm. É porque o projecto de sociedade que defende vai ao encontro dos seus mais profundos anseios e as suas mais profundas aspirações. É porque também incorpora em si uma longa História de defesa desta camada da sociedade, de acompanhamento das suas lutas e de contributo para a sua organização. É porque a juventude também contribui para o fortalecimento do Partido.

Desde a fundação do PCP a imprensa partidária tem importância central na actividade do Partido, assumindo a função de informar, com a verdade, consciencializar sobre as condições de vida dos trabalhadores e do povo, dar nota das lutas travadas e galvanizar os trabalhadores a partir também para a luta, encerrando em si um elemento de agitação.

Ou seja, através da imprensa partidária, acabamos por ter uma ferramenta para confirmar o que atrás dissemos: que o PCP é o Partido da Juventude. O exercício de a revisitar dá-nos elementos concretos que só alguém desonesto é capaz de refutar. Elencaremos alguns desses elementos, mesmo que sejam uma pequena amostra de uma imensidão de artigos, textos e reflexões publicados no período entre 1921 e 1974.

1921 – 1926: A juventude nos primeiros anos do PCP

O Comunista, o primeiro jornal do PCP, foi publicado pela primeira vez em Outubro de 1921, sete meses após a fundação do Partido, ainda em legalidade. A primeira vez que a Juventude é referida é logo na primeira edição, de 16 de Outubro de 1921. Diz o jornal que se encontravam detidos, há mais de um mês, 12 jovens comunistas no Forte de S. Julião da Barra e na Cadeia do Limoeiro. Esse mesmo número dá nota que os jovens comunistas foram presos por distribuírem propaganda e colarem cartazes referentes à III Internacional Comunista, sendo que o motivo apresentado para a detenção se encontrava no facto dos documentos estarem escritos em francês e impressos a vermelho. O n.º 3 de O Comunista, publicado a 30 de Outubro, dá nota que o Núcleo de Lisboa do PCP realizara uma sessão de congratulação com a libertação dos jovens presos e o n.º 5, publicado a 13 Novembro, noticia que o Núcleo de Juventude Comunista do Porto também saudava a libertação.

Ao longo dos vários números de O Comunista várias são as referências à juventude. Uma grande parte são os primeiros passos na organização da mesma. Exemplo disso é o n.º 4, publicado a 15 de Julho de 1923, que dá conta da eleição de uma Comissão Reorganizadora da organização de juventude então existente e os n.ºs 30 e 32, de Março e Abril de 1925, respectivamente, dão nota de avanços da organização em Lisboa, no Porto e tentativas de alargamento da Juventudes Comunistas para outros pontos do país. É na edição n.º 33, de 9 de Maio de 1925, um ano antes do Golpe militar de 28 de Maio, que surgem orientações claras para os jovens comunistas com a publicação de um excerto de um manifesto publicado nesse mês onde se assume a responsabilidade da juventude no combate ao capitalismo, dando perspectiva de reforço e de organização – «o que é preciso numa organização revolucionária como o PC é quem trabalhe todos os dias, todas as horas, não apenas discursando ou escrevendo artigos, mas organizando núcleos de camaradas nas fábricas, nos armazéns, nos campos, distribuindo jornais ou manifestos (…)» e de seguida dando orientação para o trabalho em unidade e para a ligação às massas – «É preciso também cooperar sem hesitações nem tibiezas nos movimentos de rua e nas obras de solidariedade de classe».

Os passos a dar na clandestinidade

Após o golpe militar de 28 de Maio de 1926, e a consequente ilegalização do PCP, a actividade passa a ser clandestina obrigando assim à reorganização. Na década de 30 surge o Avante!. Dadas as circunstâncias, o trabalho do PCP acarretava riscos, mas a concepção revolucionária do papel da imprensa servia para dar passos na luta organizada dos trabalhadores. O Avante!, publicado pela primeira vez a 15 de Fevereiro de 1931, assume-se como Órgão Central do PCP e capta a realidade da classe operária e todos os trabalhadores, as suas degradantes condições de vida, orienta e organiza as suas fileiras, denuncia e combate as injustiças da criminosa ditadura fascista e enaltece as lutas travadas.

No Avante! conseguimos ver mais uma vez como o PCP acompanhava a vida da juventude e dava passos para a sua organização. Logo no primeiro número vem um texto com o título «À Juventude Portimonense», escrito por um jovem de 14 anos com o pseudónimo de «Jovem Bolchevique», que apela a que a juventude se instrua, que siga o exemplo do filme «O barqueiro do Volga», de Cecil DeMille, e reivindique os seus direitos. Em Janeiro de 1932 há o apelo a que a juventude se junte à greve e manifestações de rua contra o desemprego que iriam acontecer a 29 de Fevereiro, e no número de Janeiro de 1936 regista-se pela primeira vez a oposição feita pelos estudantes às incursões do fascismo nas Universidades. Na edição número 16, de Fevereiro de 1936, denunciavam-se os mecanismos de difusão ideológica do regime fascista através de um decreto que visava reformar a Instrução Pública que incluía a criação de um livro único História de Portugal, História Geral, Filosofia e Educação Moral, colocar debaixo da chancela do Ministério da Educação os espectáculos públicos, ou a obrigatoriedade da colocação de um crucifixo na salas de aula da escola primária «como símbolo constitucional da civilização cristã.»

É também na década de 30, através do Avante!, que conseguimos acompanhar a reflexão que dita o fim da Federação das Juventudes Comunistas de forma a aumentar a ligação à Juventude e aumentar o seu caudal de luta contra o fascismo. Na edição número 60, da quarta semana de Novembro de 1937, num texto com o título «Salvemos a Juventude da influência do fascismo», analisa-se que, enquanto se tentava manter uma organização comunista ilegal, o fascismo ia difundido os seus ideais e atacava os jovens nas várias esferas da vida, concluindo-se que o trabalho dos comunistas devia passar por combater o fascismo nos espaços em que os jovens estão organizados.

No n.º 63, da 3.ª semana de Dezembro de 1937, num texto com o mesmo nome e onde tal análise é aprofundada, surge o apelo para criar na juventude um sentimento de defesa dos seus direitos, a vontade de satisfazer as suas aspirações e assim levá-la a, finalmente, organizar-se e lutar pelos seus interesses. Reitera que a prática tem demonstrado que o combate ao fascismo não tem passado por «partidos juvenis» e que os jovens anti-fascistas deveriam ligar-se às massas da juventude onde quer que elas se encontrassem, até nas organizações reaccionárias e fascistas. A título de exemplo, o Avante! da 1.ª quinzena de 1942 informava que, num comício da Mocidade Portuguesa, após a passagem de um filme e dos gritos da praxe, houve um grupo de jovens que respondeu «Abaixo o fascismo!», ficando demonstrado que mesmo dentro de organizações juvenis de carácter fascista era possível desenvolver a luta juvenil.

A luta da Juventude contra o fascismo

Apesar das dificuldades e da dura repressão a luta da juventude sempre aconteceu e teve na imprensa partidária e mais concretamente no Avante! um enorme aliado. Um dos exemplos é o relato feito em Abril de 1943, no n.º 31, que noticia que a união dos estudantes do curso nocturno da Escola Industrial Afonso Domingues impediu a cobrança de mais uma taxa. Dois anos antes, fazendo capa do número de Dezembro de 1941, o Avante! noticiava a luta dos estudantes Ensino Superior contra um novo decreto-lei e que milhares de jovens lutavam pelo direito à cultura em Lisboa, Porto e Coimbra.

Poderemos nós aos dias de hoje achar que as razões dessa luta apenas faziam sentido à data, mas a verdade é que o corpo da notícia revela que, já em 1943, os estudantes estavam a lutar contra o aumento em 300% das matrículas e das propinas. O Avante! dava nota que no próprio dia em que os jornais publicaram o decreto, em Lisboa, 2000 estudantes concentraram-se em frente à Faculdade de Ciências e passado uns dias houve uma reunião 4000 estudantes. Ainda no Avante!, a oposição à medida do governo era de tal forma massiva que até as Associações Académicas nomeadas e controladas pelo fascismo e o Centro Universitário da Mocidade Portuguesa se manifestaram. Mais à frente, fortes movimentos de luta desencadeados pelos jovens no Ensino Superior, na Crise Académica de Lisboa e na Crise Académica de Coimbra, que o Avante! deu a sua cobertura.

No Avante! n.º 315, de Abril de 1962, o título faz logo referência aos 25 000 estudantes de Lisboa em greve e aos milhares que gritavam pela liberdade, autonomia e contra a repressão. De forma viva e empolgante, o Avante! relatou os passos dados pelos estudantes, os momentos de agitação e a aposição dos estudantes, definida em assembleias plenárias com milhares de estudantes, ao decreto-lei 40900 que impunha o controlo das Associações de Estudantes pelas instituições fascistas, mas também a repressão que os estudantes sentiram.

Procurando exercer o seu papel de organizador colectivo, o Avante!, apontando caminho à necessária unidade dos estudantes para alcançar a vitória, noticiava as movimentações nacionais dos estudantes, seja em Coimbra, onde se decretou uma greve solidária após uma assembleia magna com 2500 estudantes, seja no Porto, onde numa reunião geral que teve 1200 estudantes estes também aderiram à greve.

Seguiu-se a greve e o luto dos estudantes dos vários liceus e colégios de Lisboa e os estudantes da escola técnica de Almada fizeram uma manifestação nas ruas. No rescaldo destas grandes acções de luta, o Avante! n.º 319, de Julho de 1962, noticiava que várias centenas de estudantes tinham ido até ao Aljube pedir a libertação de um colega que se encontrava preso e que depois seguiram para a Baixa de Lisboa onde organizaram uma manifestação gritando por liberdade e autonomia. Após 8 dias, cerca de 250 estudantes voltaram à carga e manifestaram-se por Lisboa até a polícia carregar brutalmente sobre eles e fazer várias detenções.

O ano de 1969 é mais um ano de grandes lutas da juventude e, mais uma vez, o jornal Avante! acompanha a dinâmica juvenil. Em 13 números do jornal, 10 falam sobre a luta dos estudantes no Ensino Superior e um integra o Comunicado do Comité Central do PCP que dedica um capítulo à análise da actividade estudantil. O número de Fevereiro desse ano noticiava que os estudantes de Lisboa tinham declarado Greve; em Março noticiava que uma reunião de estudantes no Porto tinha sido interrompida pela polícia de choque e a PIDE, e em resposta, no dia seguinte, centenas de estudantes marcharam em pleno centro da cidade; o número de Abril dava conta do luto académico no Porto, de greves, plenários e manifestações dando exemplos de toda a onda reivindicativa que se vivia; a edição de Maio marca o início do período que se denomina por «crise académica de Coimbra», noticiando o episódio do pedido da palavra por parte do presidente de Associação Académica de Coimbra, a sua detenção pela PIDE, a mobilização imediata dos estudantes para a junto da sede da PIDE, a repressão e a consequente greve contra a opressão e pela libertação do colega; em Junho, o Avante! noticiava a Greve Geral convocada pelos estudantes, as demissões de todos os directores das faculdades e do Reitor da Universidade, bem como a vasta unidade demonstrada pelos estudantes; o número de Julho dá conta que apenas 4,5% dos 8700 estudantes compareceram aos exames, forçando o levantamento das suspensões aos oito dirigentes da Associação Académica, representando assim um recuo do fascismo ante a indomável força dos estudantes; em Agosto dava-se nota que nem nas férias os estudantes em Coimbra paravam de lutar; o número da 1.ª quinzena de Outubro faz o apanhado das várias lutas e das várias represálias que estes sofreram; na 2.ª quinzena de Outubro dava conta que o governo fascista mobilizou as forças policiais para Coimbra com aparato bélico e pela força impediu estudantes de se reunirem, fazendo dezenas de feridos; o número de Novembro sistematiza elementos que comprovam que a juventude é uma importante frente na luta pela democracia.

★★★

A História mostra que, nas mil lutas que ainda tem por travar no caminho de Abril, é no PCP que a juventude encontrará o bastião da defesa dos seus direitos, o vasto património de luta pela democracia e o projecto de Futuro. O Partido da Juventude cá estará, com jovens nas suas fileiras, para cumprir o que também muitos jovens ajudaram a construir.