Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

II Centenário de Karl Marx, Edição 'Nº 357 - Nov/Dez 2018'

O II Congresso da Liga dos Comunistas e os fundamentos do movimento comunista internacional

por Domingos Abrantes

Nos finais de 1847, de 29 de Novembro a 9 de Dezembro, teve lugar na cidade de Londres o II Congresso da Liga dos Comunistas, criada cinco meses antes pela transformação da Liga dos Justos em Liga dos Comunistas por decisão do I Congresso (Junho, 1847). Congresso que Engels considerou como um congresso «preparatório de um Congresso Geral dos Comunistas» que viria a ser o II Congresso, a maior e mais importante reunião de comunistas até então realizada e que teve como mérito imorredouro ter lançado os fundamentos ideológicos, organizativos e tácticos da primeira organização comunista internacional do proletariado – a Liga dos Comunistas –, formada com base no socialismo científico, assente num programa cientificamente fundamentado – o Manifesto do Partido Comunista.

O II Congresso marcou o triunfo das ideias de Marx e Engels como fundamentos teóricos e tácticos do movimento comunista, nacional e internacional. A Liga dos Comunistas pode ser considerada como a precursora dos partidos comunistas nacionais.

Pela primeira vez e de forma inequívoca os comunistas proclamam ao mundo ser seu objectivo o derrube da burguesia e a abolição da velha sociedade burguesa e a construção de uma sociedade nova, sem classes, sem propriedade privada e que a força material chamada a produzir tão profunda transformação – o proletariado – se encontrava na própria sociedade capitalista. De igual modo, proclamam que a via para se alcançar a emancipação social dos trabalhadores não seria os apelos às «boas consciências» das classes dominantes, mas a via revolucionária.

Sob o impulso da Liga dos Comunistas (de que Marx e Engels se tornaram os principais dirigentes), o movimento operário revolucionário e comunista tornou-se uma verdadeira organização de massas que esteve no centro dos principais combates revolucionários.

Foi curta a existência da Liga dos Comunistas (1847-1852). A repressão que se abateu sobre os comunistas em todos os países, intensificada depois da onda revolucionária de Fevereiro de 1848 que varreu a Europa, e sobretudo com o processo de Colónia (1852), que levou à prisão dos principais dirigentes da Liga, a sua existência tornou-se praticamente impossível.

E, no entanto, Marx classificou o período de vida da Liga dos Comunistas – apesar de breve e conturbado – como o «período glorioso do tempo da juventude do movimento operário internacional».

O processo de transformação da Liga dos Justos em Liga dos Comunistas, que se desenrolou durante 10 anos (1836-1847), deve ser considerado como processo único, determinado e condicionado pelos níveis de desenvolvimento do capitalismo e consequentemente da classe operária, mas também pela própria evolução das ideias de Marx e Engels.

Um processo que se desenvolveu por saltos qualitativos, que se traduzem nas diferentes formas de organização e nos documentos que determinaram as orientações da Liga dos Justos e depois a Liga dos Comunistas.

A Liga dos Justos foi fundada em Paris, em 1836, como resultado de uma cisão operada na Liga dos Banidos, uma sociedade secreta de artesãos alemães emigrados que, no seu início, no dizer de Engels, «não era mais do que o ramo alemão das sociedades secretas francesas». 1

O carácter secreto das organizações revolucionárias, determinado pela necessidade de defesa face à repressão do Estado burguês, alimentava, contudo, o espírito conspirativo da acção de pequenos grupos e determinados, consequentemente um impedimento ao desenvolvimento de organizações de massas, razão pela qual Marx e Engels travaram uma batalha tenaz contra o carácter secreto das organizações operárias.

A Liga era igualmente dominada por concepções de socialismo utópico – construções teóricas de sistemas sociais em conformidade com «o império de lei moral universal», a ser «alcançada por concurso de todos os homens associados para o mesmo fim» –, concepções em que não faltavam prédicas cristãs, rejeição da intervenção política, etc.

O facto da Liga ter resultado da iniciativa dos elementos mais avançados, «mais radicais» saídos da Liga dos Banidos, e ser marcada na sua composição social por um muito maior peso de elementos operários, vai facilitar fortemente a sua evolução. As alterações aos Estatutos em 1838, introduzindo vários critérios democráticos no seu funcionamento, abrem caminho para alterar a natureza secreta da organização.

Agrupados sob o lema da defesa «da comunidade de bens», consigna derivada da concepção de que todos os homens são iguais e que se vai traduzir na consigna «todos os homens são irmãos», os membros da Liga começaram a qualificar-se a si mesmo de comunistas e a colocar as reivindicações, até então de carácter moral e de justiça em geral, no terreno social e político.

Com a expulsão de França, em 1839/40, dos elementos mais avançados da Liga dos para Inglaterra, país com as mais fortes organizações operárias, com uma intervenção política, e sobretudo um país, como salientava Marx, onde existia liberdade de imprensa, de manifestação e de organização, condições fundamentais para o desenvolvimento da organização de massas, a Liga atinge um importante desenvolvimento orgânico e ideológico: intervém em organizações de massas de carácter unitário; torna-se internacional ao agrupar elementos de vários países refugiados em Inglaterra; e a criação de comités da Liga em vários países. De grande importância para esta evolução foi o estreitar da relação de Marx e Engels com alguns dos dirigentes da Liga e do movimento operário inglês. A circular enviada pelo Direcção Central da Liga aos seus membros em Novembro de 1846, apesar das suas insuficiências e a persistência de concepções erradas, reflecte já as profundas alterações operadas nas orientações da Liga.

A circular com vistas à preparação do Congresso Internacional de Comunistas põe à discussão todo um conjunto de questões que vão desde as perspectivas que se abrem ao movimento comunista, à situação interna da Liga, à análise das forças em presença e que se reclamam do socialismo e do comunismo, à política de alianças, etc.

As tarefas que se colocavam à Liga são elencadas tendo em conta a avaliação da realidade, que revelava de forma indesmentível «que as ideias sociais e comunistas» alcançaram grande progresso e que nenhum partido (comunista) ganhará influência «se não colocar como objectivo a necessidade de transformação da sociedade actual». 2

Nesta perspectiva colocava-se então à Liga «impulsionar o grandioso movimento do nosso tempo» e encabeçá-lo, «pois só desse modo se pode formar um partido político forte capaz de travar a batalha vitoriosa». 3

Da maior importância na evolução da Liga é o claro distanciamento de teses do socialismo utópico, expresso na conclusão de o necessário partido comunista não existir ainda porque a Liga era atravessada por grandes diferenças de opinião, que os caminhos a seguir divergiam uns dos outros, apesar de se ter mostrado que a acção assente na construção de sistemas sociais comunistas era errada», o que mostrava não ter ainda chegado a hora «para a existência de um projecto de fé comunista – isto é um Programa – que sirva de norma a todos os comunistas». 4

Não pouco significativo pelo que representou para a superação dos resquícios de organização secreta, foi a implementação de regras democráticas no que se refere ao funcionamento, as recomendações quanto à dinamização da organização e responsabilização dos membros da Liga pelo seu reforço, e a conclusão de que a resolução dos problemas da Liga, pela sua natureza e dimensão, «não são de molde a ser resolvidos pela troca de correspondência, pelo que se convoca o congresso para o qual se requer o empenho de todas as forças comunistas» no debate das questões sobre as quais o Congresso deveria adoptar como orientações comuns.

Marx e Engels defendiam igualmente a necessidade de se realizar um Congresso Geral dos Comunistas, divergiam no entanto quanto ao momento, considerando que antes de se avançar para essa iniciativa seria necessário consolidar a organização e aprofundar o debate das ideias, sobre as quais havia enormes diferenças de opinião.

Mas quando em Janeiro de 1847, a Direcção Central da Liga se manifesta concordante com as ideias de Marx e Engels e a actividade desenvolvida pelo seu Comité de Correspondência Comunista e lhes propõe que adiram à Liga, na perspectiva da preparação do Congresso, o qual deveria proceder à reorganização da Liga e adoptar um conjunto de ideias e princípios inspirados nas teorias de Marx e Engels, estes – apesar das reservas que tinham quanto às orientações da Liga – percebem que se lhes abria uma importante oportunidade de ampliar o seu trabalho e influência, não só aceitaram como se empenharam activamente na preparação do Congresso.

O reconhecimento da justeza das teorias de Marx e Engels – do socialismo científico – contraposto ao socialismo utópico, foi o coroar de um longo e pertinaz trabalho.

Marx e Engels participavam empenhadamente em reuniões operárias, eram membros de diversas organizações populares, operárias e democráticas, ligando cada vez mais o seu pensamento e a sua acção à intervenção do proletariado revolucionário.

Esta actividade tornou-se decisiva para a sua concepção do mundo, uma concepção que se afirmava como síntese da experiência da acção das massas, dos processos revolucionários que até então tinham tido lugar.

É neste processo que ganham consciência de que o socialismo utópico e o carácter secreto das sociedades operárias eram um empecilho ao desenvolvimento da luta revolucionária.

A criação do Comité de Correspondência Comunista (Bruxelas, Fevereiro de 1846) vai-lhes permitir desenvolver um intenso trabalho no sentido de congregar elementos mais consequentes, na criação de uma organização de carácter internacional, na divulgação das suas teorias, no combate às concepções utópicas que dominavam a Liga. «Nós publicamos – escreve Marx – uma série de panfletos nos quais submetíamos a uma crítica implacável a mistura de socialismo e comunismo franco-inglês e da filosofia alemã, que constituía então a doutrina esotérica na estratégia da Liga (...) nós demonstramos-lhes de forma popular que não se tratava de construir um qualquer sistema utópico mas da participação consciente no processo histórico de transformação da sociedade que se desenvolve sob os nossos olhos». 5

Marx e Engels não participaram na redacção da nova circular enviada pela Direcção Central da Liga aos seus membros (Fevereiro, 1847), altura em que se deu a sua adesão à Liga. Mas ela reflecte sem dúvida a influência da actividade do Comité de Correspondência Comunista e as discussões em curso com vista ao Congresso, marcadas pela influência crescente das teorias de Marx e Engels. Circular igualmente marcada pelo horizonte político em que tudo indicava estar-se a caminhar «para uma revolução gigantesca que decidirá provavelmente por vários séculos a sorte da humanidade». 6

A percepção de que se perspectivava uma onda revolucionária (como se confirmou um ano depois) assentava na realidade objectiva: a classe operária tinha-se tornado mais numerosa, mais concentrada em grandes unidades e localidades, crescia a sua organização e combatividade na luta contra a exploração capitalista. A luta política entrelaçava-se com a luta económica. O proletariado estava presente em todas as grandes e pequenas movimentações pelo progresso social. De acções esporádicas, o movimento grevista começava a generalizar-se nos principais países capitalistas. No ano de 1847, os trabalhadores ingleses alcançaram uma vitória de importância extraordinária, a conquista do horário de 10 horas diárias, conquista que Marx consideraria a «primeira vitória de economia política da classe operária». As lutas de classe e nacionais agudizavam-se. Vários países viviam situações convulsionadas. Não sem rezão, o ano de 1847 foi caracterizado por Engels como «o mais turbulento como desde há muito tempo não era conhecido» 7.

Os comunistas deviam preparar-se para estar à altura das suas responsabilidades face às batalhas que se aproximavam. A confirmação dos extraordinários avanços na compreensão da revolução como um processo e que requeria organização é a consideração de que as batalhas do presente devem ser consideradas na perspectiva do futuro, que se as coisas correrem mal para o proletariado «os tiranos lançar-se-ão na ofensiva» (contra os trabalhadores) e nesse caso na perspectiva do futuro impõe-se «concentrar todos os nossos esforços em organizar convenientemente o nosso Partido. O proletariado da Europa, e só ele, é capaz de salvar a humanidade, por isso o nosso dever mais sagrado é organizar as nossas forças e arrancar o proletariado à influência dos ocos liberais». 8

Consequente com a análise da realidade as tarefas que se colocam é pôr fim à dispersão das forças comunistas na base da Liga, assente numa ideologia coerente, assegurar a intervenção autónoma na acção concreta, devendo o Congresso «proceder a uma reorganização total da Liga», incluindo eleger uma nova direcção capaz de responder às novas exigências e criar «um periódico que represente o Partido em todos os sítios», pois «não pode existir um Partido sem um órgão que dê expressão pública às posições da Liga». 9

E porque se tornava imperioso delimitar os campos e a eleição dos caminhos a seguir para se atingirem os objectivos, a circular coloca a necessidade de se aprofundar a discussão até ao Congresso sobre «o que é o comunismo e o que querem os comunistas», «o que é o socialismo e o que querem os socialistas» e «de que modo se pode instaurar o comunismo o mais rapidamente possível». 10

O Congresso acabou por se realizar em Junho de 1847, na cidade de Londres. As grandes questões sobre as quais devia decidir era proceder à reorganização da Liga dos Justos, aprofundando o seu funcionamento democrático, tornando-a uma organização de massas, ultrapassando os resquícios de organização secreta, definição de princípios teóricos e tácticos baseados nas ideias do socialismo científico, tornar a Liga numa organização comunista, de classe, proletária, de carácter internacional, baseada num Programa – um programa de fé comunista – em conformidade com as ideias de Marx e Engels, sobre os quais recaía, por decisão da direcção central da Liga dos Justos, a tarefa de propor as medidas para a sua «reorganização total».

Marx e Engels e outros companheiros do comité de Bruxelas prepararam colectivamente a sua participação no Congresso. Marx, atormentado por dificuldades financeiras – estado natural de viver, mas particularmente difícil naquele momento – não pôde participar no Congresso, pelo que coube a Engels o papel decisivo na natureza das decisões tomadas, as quais representaram um salto qualitativo no processo de criação de uma organização de carácter internacional, de massas, assente na teoria do socialismo científico.

Por proposta de Engels o Congresso decidiu a transformação da Liga dos Justos em Liga dos Comunistas, pelo que o Congresso passou a ser designado de I Congresso, da nova organização pois de nova organização se tratou, ainda que a sua génese tivesse por base a Liga dos Justos.

A alteração do nome foi determinada por uma questão de princípio. A necessidade de o nome da organização corresponder aos seus objectivos: o nome Liga dos Justos «tornou-se caduco e não exprime de modo nenhum o que queremos. Há muito gente que quer justiça ou o que chama de justiça, sem no entanto ser comunista. Ora nós não nos distinguimos pelo facto de querermos a justiça em geral, o que qualquer pessoa pode pretender, mas pelo facto de não aceitarmos a ordem social estabelecida e a propriedade privada, pelo facto de que queremos a comunidade de bens, pelo facto de que somos comunistas. Só um nome nos convém para a nossa Liga, o que exprime o que realmente somos e que é o nome que escolhemos.» 11

Foi igualmente por proposta de Engels que o Congresso decidiu abandonar a consigna da Liga dos Justos, «Todos os homens são irmãos» e adoptar como consigna da Liga dos Comunistas «Proletários de todos os países – uni-vos!», consigna que os Estatutos e depois o Manifesto Comunista consagraram e se tornou consigna universal do movimento comunista internacional até aos nossos dias. Uma consigna que definia a Liga dos Comunistas como uma organização internacional, de classe e o proletariado como força social emancipadora determinante.

Os Estatutos passaram a consagrar como princípio estatutário os objectivos supremos da Liga definidos como sendo «a supressão da escravidão dos homens pela difusão da teoria da comunidade de bens e, desde que, possível pela sua introdução na prática». 12

As imprecisões são notórias. A definição do comunismo pela comunidade de bens, que vinha de longa data, vai manter-se na profissão de fé comunista, nos Princípios do Comunismo de Engels, sendo abandonada no II Congresso, passando os Estatutos a definir como sendo finalidade da Liga dos Comunistas «o derrube da burguesia, a instauração do regime do proletariado, a abolição da velha sociedade burguesa, baseada nos antagonismos de classe e na criação de uma sociedade nova, sem classes, sem propriedade privada.» 13

O I Congresso da Liga dos Comunistas teve lugar quando já se perfilava a onda revolucionária que iria varrer a Europa nos começo de 1848, mas igualmente no momento em que se intensificava a exploração capitalista e a repressão sobre quem lutava e suas organizações. O resultado do confronto era incerto, mas o que ressalta do Congresso é uma enorme confiança na justeza das ideias comunistas e no seu triunfo: «Irmãos – diz o apelo do Congresso – defendemos uma grande causa comum, uma causa admirável. Proclamamos a maior transformação que jamais foi anunciada ao mundo. Não se sabe quando acontecerá, mas sabemos que acontecerá. Por todo o lado o movimento se ergue. Por vezes por forma confusa, mas sempre mais forte e consciente a exigir a sua libertação das cadeias do dinheiro, das cadeias da burguesia». 14

E, no entanto, o I Congresso não foi tão longe como era necessário e como Marx e Engels desejavam. Foi um congresso de compromisso, um compromisso que tem valor de princípio: era necessário consolidar o que já tinha sido alcançado, deixar amadurecer a compreensão dos problemas teóricos e tácticos – do marxismo – e sobretudo preservar a unidade da Liga.

Como o próprio Engels explicou, o Congresso gostaria de ter decidido questões em definitivo, resolver as questões que permaneciam em aberto mas «no interesse da Liga, no interesse da movimento comunista decidimos limitar-nos – no poder de decisão – a apelar à nova maioria e deixar ao – próximo – congresso o cuidado de realizar o que agora preparámos.» 15

O I Congresso foi assim como que a primeira sessão do II Congresso, a cuja preparação Marx e Engels dedicaram enorme energia, de molde a que fosse decisivo, como escreveu Engels: «porque desta vez tudo deve desenvolver-se como o entendemos». 16. E assim aconteceu.

Marx pôde participar com Engels no II Congresso, apesar da situação precária em que se encontrava a família não ser melhor do que era na altura do I Congresso: «quando empreendi a viagem a Inglaterra, deixei a minha família numa situação muito difícil e muito desesperada. Não só a minha mulher e os filhos estão doentes, mas a minha situação financeira actual é de tal modo crítica que a minha mulher é literalmente massacrada pelos credores e ela encontra-se numa carência de dinheiro muito lamentável». 17

Os resultados do II Congresso não são separáveis das discussões que o antecederam sobre um conjunto de questões, da intervenção directa de Marx e Engels junto de Comunas da Liga onde persistiam dificuldades e influências de outras correntes, e sobretudo das suas intervenções nos trabalhos do Congresso.

O II Congresso da Liga dos Comunistas foi naturalmente resultado do processo de desenvolvimento do mundo operário e comunista, mas foi igualmente o coroar da longa luta de Marx e Engels para criar uma verdadeira organização comunista internacional, regida pela teoria do socialismo científico, assente num programa cientificamente fundamentado.

A natureza marxista da Liga dos Comunistas era assegurada pela nova direcção, na qual Marx e Engels se tornaram os seus principais dirigentes; os Estatutos que consagravam a coerência entre os objectivos e os seus órgãos; e o Manifesto do Partido Comunistacomo Programa da Liga.

Os Estatutos, que têm a assinatura de Engels e de Schapper, respectivamente Secretário e Presidente da Liga, fixavam um conjunto de princípios e normas orgânicas em conformidade com a natureza e os objectivos da nova organização, alguns dos quais ainda permanecem «vivos» em partidos comunistas.

Logo no Artigo 1.º precisava-se que o objectivo fundamental da Liga dos Comunistas era o derrube da burguesia, o domínio do proletariado, a instauração de uma nova sociedade sem classes, sem propriedade privada.

O II Congresso aprofundou o carácter democrático da Liga, desde logo pelo princípio da elegibilidade de todos os seus órgãos, a prestação de contas, a consideração das propostas dos seus membros, a definição do Congresso como órgão máximo.

As condições para se adquirir a qualidade de membro da Liga, anteriormente assente em critérios moralistas, subjectivos, passaram a ser a obrigatoriedade de se ter «um modo de vida e uma actividade conforme com os objectivos da Liga»; desenvolver actividade marcada por «energia revolucionária e zelo na propaganda» e «fazer profissão de fé comunista».

Os resquícios de associação secreta são eliminados, mas os comunistas não podiam esquecer que a repressão se intensificava, bem como a vigilância policial e a infiltração de provocadores – o próprio Congresso decorreu à porta fechada por razões de segurança –; os Estatutos estabelecem que na relação dos membros entre si devem usar pseudónimos e a compartimentação entre as diferentes organizações.

Mas a decisão do II Congresso mais significativa foi, porventura, a decisão de encarregar Marx e Engels de elaborarem o Programa da Liga, que veio a ser o Manifesto do Partido Comunista, ideia que vinha sendo defendida e trabalhada laboriosamente pelos dois.

Engels em «Contribuição à História da Liga dos Comunistas» afirma que uma das razões que levaram Marx e ele a aderirem à Liga foi o facto de lhes ter sido dada a possibilidade de «num congresso da Liga de desenvolver num manifesto o nosso comunismo crítico», um manifesto que assumido pela Liga, Marx e Engels poderiam desse modo contribuir para que a organização antiquada da Liga fosse substituída por uma outra conforme os novos tempos e o nossos objectivos». 18

Com a aprovação do Manifesto do Partido Comunista como programa da Liga inaugura-se uma nova etapa no processo de desenvolvimento do movimento operário, forma-se a primeira organização operária internacional a ter como bandeira ideológica e «expressão teórica do movimento operário» o marxismo. Com o Manifesto dá-se início ao processo de fusão de comunismo científico – o marxismo – com o movimento operário.

Lénine considerava ser dever de todos os operários conscientes terem o Manifesto como livro de cabeceira.

Para se entender o que representa o Manifesto Comunista socorremo-nos da síntese que Lénine dele fez: «Esta obra expõe, com clareza e rigor geniais, a nova concepção do mundo; o materialismo consequente, aplicado também ao domínio da vida social; a dialéctica, como a doutrina mais vasta e mais profunda do desenvolvimento; a teoria da luta de classes e do papel revolucionário histórico-universal do proletariado criador de uma sociedade nova, a sociedade comunista» 19

Passaram-se 170 anos desde o momento em que os comunistas expuseram «abertamente perante o mundo inteiro o seu modo de ver, os seus objectivos, as suas tendências a contraporem à lenda do espectro do comunismo um Manifesto do próprio partido» 20.

Profundas alterações se deram no mundo desde então. Como documento histórico, o Manifesto Comunista, pode dizer-se que neste aspecto se trata de um documento datado. Mas datado não é o sistema capitalista explorador e predador que o Manifesto denuncia, e contra o qual apela a lutar até à sua liquidação, objectivo supremo de ontem e de hoje dos explorados. Bandeira desfraldada pela Liga dos Comunistas, e sob a qual marcham todos os que não aceitam a exploração do homem pelo homem. Hoje, tal como afirmou Engels, podemos afirmar que «os princípios teóricos – e os principais objectivos, acrescentamos nós –, que a Liga dos Comunistas inscreveu na sua bandeira em 1847, no seu Manifesto Comunista continuam hoje a formar o vínculo internacional mais forte do movimento de todo o proletariado». 21

Como actual permanece o apelo com que termina o Manifesto: «Proletários de todos os países, uni-vos», condição para a sua emancipação social. E porque a solidariedade internacionalista entre os trabalhadores e os povos continua a ser condição para a vitória, lembramos as palavras de Engels e de Marx a esse respeito, e que são de espantosa actualidade e de grande utilidade para os combates de hoje. Engels, numa reunião internacionalista em Londres em 1843 – a Festa das Nações –, em resposta aos pregadores da fraternidade entre as Nações à margem dos interesses de classe, afirmou:: «Em nossos dias, a Democracia confunde-se com o comunismo (…) A Democracia passou a ser um principio proletário, o princípio das massas, (…) o sonho quimérico da República e da paz eterna sob a égide da organização política tornaram-se tão ridículas como as frases ocas sobre a união dos povos sob a égide da Liberdade do comércio (…) Só o proletários são capazes de confraternizar sob a bandeira da Democracia comunista, posto que a burguesia tem de defender em cada país interesses particulares e como o interesse é, para ela, o elemento determinante, não pode elevar-se a cima do nacionalismo». 22

Quatro anos depois, em 1847, Marx intervindo igualmente numa reunião afirmava: «A união e a fraternidade entre as nações é uma palavra de ordem que se encontra na boca de todos os partidos, e nomeadamente nos livre-cambistas burgueses. De facto há uma certa fraternidade entre as classes burguesas de todas as nações. É a confraternização dos opressores contra os oprimidos, dos exploradores contra os explorados. Do mesmo modo que a classe burguesa de um país confraterniza e se une contra os proletários de um mesmo país, apesar da concorrência e rivalidades existentes, entre os membros individuais da burguesia, também os burgueses de todos os países confraternizam e se unem contra os proletários de todos os países apesar das lutas entre si e da sua concorrência no mercado mundial.

Para que os povos possam verdadeiramente unir-se, é preciso que os seus interesses sejam comuns. Para que os seus interesses possam ser comuns é preciso abolir as relações de propriedade actuais, que determinam a exploração dos povos uns pelos outros. (...) A vitória do proletariado sobre a burguesia será ao mesmo tempo a vitória sobre os conflitos entre as nações e as economias, que, nos nossos dias, lançam os povos uns contra os outros. A vitória do proletariado será o sinal de libertação de todos os povos oprimidos». 23

Por isso, o Manifesto Comunista, se fosse escrito nos nossos dias, proclamaria: «Trabalhadores e povos de todo o mundo, uni-vos!»

Notas

(1) Marx/Engels, Obras Escolhidas em três volumes, t. III, Lisboa, Edições «Avante!», 1985, p. 195.

(2) Amaro del Rosal, Los Congressos Obreros Internacionales en el Siglo XIX, ed. Grijalbo, 1958, p. 56.

(3) Idem.

(4) Idem.

(5) «Marx à Mesure», fascículo 14, p. 3, citando Marx: Herr Vogt, 1860.

(6) Amaro del Rosal, op. cit., p. 59.

(7) Engels, «Los Movimentos Revolucionarios de 1847», citado in «De la Ligue de los Justos», al Partido Comunista, ed. Roca, México, 1973, p. 73.

(8) Amaro del Rosal, op. cit., p. 60.

(9) Idem.

(10) Idem.

(11) Bert Andreas, La Ligue des Communistes, ed. Auber, 1972, p. 87.

(12) Idem, p. 111.

(13) Engels, op. cit., in «De la Ligue de los Justos», p. 65.

(14) Bert Andreas, op. cit., p. 105.

(15) Idem, p. 99.

(16) Marx/Engels, Correspondance, Tome I, «Carta de Engels a Marx», Éditions Sociales, 1975, p. 507.

(17) Idem, «Carta de Marx a Pavel Annenkov, 9 de Dezembro de 1847», p. 509.

(18) Marx/Engels, Obras Escolhidas em três volumes, t. III, p. 202.

(19) V. I. Lénine, Obras Escolhidas em seis tomos, t. 2, Edições «Avante!» – Edições Progresso, Lisboa – Moscovo, 1984, p. 179.

(20) Marx/Engels, Manifesto do Partido Comunista, Lisboa, Edições «Avante!», 1997, p. 35.

(21) Marx/Engels, Obras Escolhidas em três volumes, t. III, p. 192.

(22) Engels, citado in Los Congressos, p. 53.

(23) K. Marx, «Discours sur le parti chartiste, l' Allemagne et la Pologne», 9 de Dezembro de 1847, in marxiste.org/francais