Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 368 - Set/Out 2020

No centenário do nascimento do camarada José Magro - 1920-2020

por Domingos Abrantes

O camarada José Magro, «um gigante da resistência» como alguém o classificou, integra a extensa galeria dos nossos símbolos de firmeza revolucionária, de uma vida de plena e ardente entrega ao Partido e à luta dos trabalhadores e do povo contra o fascismo, pela liberdade, o socialismo e o comunismo. Faz igualmente parte do núcleo de camaradas que consideramos construtores do Partido. Um militante comunista que pela sua actividade partidária e entrega à luta pagou um pesado tributo: três prisões, quase 21 anos de cadeia (apenas ultrapassados alguns meses por Francisco Miguel), torturas brutais, que sempre enfrentou com coragem e dignidade, anos de clandestinidade, separação da companheira (ora preso ele, ora ela), da filha e da família, da mãe (a «Mãe Flora» como era tratada pelos presos), anos e anos a vê-lo separado por um vidro, ou nem sequer o vendo por estar na clandestinidade, uma mãe que durante 22 anos, ininterruptamente, caminhou para as cadeias fascistas e para a polícia, em visita aos seus familiares presos (filho, nora e genro), ou para a sede da PIDE procurando saber em que circunstâncias se encontravam os presos. Uma vida de mais de três décadas de imensos sacrifícios, com uma confiança inabalável na justeza das suas opções e determinação na superação dos momentos difíceis.

Evocar a figura e o percurso de José Magro como militante e dirigente comunista é um dever por respeito para com a memória histórica da resistência, e quando se comemora o centenário do Partido uma oportunidade para uma reflexão sobre a perenidade do Partido e do seu papel determinante ao longo dos seus 100 anos, inseparável da capacidade que o Partido teve de forjar quadros – homens, mulheres e jovens – capazes de tamanha abnegação e firmeza de convicções. Um trabalho tanto mais necessário quando se perfilam horizontes sombrios sobre a evolução do país e do mundo, se intensifica a exploração e a opressão dos trabalhadores e dos povos e renascem forças fascistas dispondo de poderosos meios materiais e amplo espaço na comunicação social do capital, que desenvolve uma sistemática campanha de branqueamento do fascismo e absolvição dos seus crimes, em contraponto com a intensa falsificação da história, silenciamento, menorização e criminalização da resistência ao fascismo e à luta pela liberdade. Uma campanha particularmente insidiosa e insultuosa quer em relação ao papel determinante dos comunistas na resistência ao fascismo, quer em relação à memória de milhares de homens, mulheres e jovens que deram o melhor das suas vidas, e não poucas a própria vida, à luta pela liberdade. Uma feroz campanha anticomunista em que participam sectores ditos democráticos que, por interesses de classe, não se libertam de preconceitos anticomunistas enraizados na sociedade portuguesa por décadas de intoxicação das mentes a partir das classes dominantes.

E quando a luta se torna mais difícil e o caminho mais longo, esta evocação é tanto mais necessária quanto o seu exemplo e de tantos outros camaradas pode ajudar à formação da jovem geração de comunistas a quem caberá a responsabilidade de defender e fortalecer o Partido no quadro de enormes dificuldades.

José Magro nasceu em Alcântara a 27 de Março de 1920, no seio de uma família da classe média de sentimentos democráticos. Frequentou a Faculdade de Medicina de Lisboa, que abandonaria passados dois anos para começar a trabalhar como empregado de escritório.

A vida e as opções de José Magro foram profundamente marcadas por ter tido como «berço» uma zona operária de fortes tradições de luta e influência comunista e por cujas actividades se interessou desde muito jovem. A ligação e a entrega à luta da classe operária era para si motivo de enorme orgulho, considerando-se um seu filho adoptivo. Na adolescência e juventude viveu muito de perto importantes lutas e momentos de resistência que marcaram a sua opção: o 18 de Janeiro de 1934; a Revolta dos Marinheiros (Setembro/1936); a acção de solidariedade com a República espanhola; as lutas nas construções navais e porto de Lisboa; os comícios relâmpago das juventudes comunistas na zona de Alcântara. Entre 1937 e 1942 participa activamente nas lutas estudantis. Em 1940 adere à Federação das Juventudes Comunistas e ao PCP, aquele que vai ser o seu partido até ao fim da vida.

José Magro torna-se comunista num momento extremamente difícil e de desfecho incerto para os revolucionários: a República espanhola tinha acabado de ser esmagada pela aliança nazi-fascismo, Salazar e principais democracias ocidentais; tinha começado a II Guerra Mundial e o domínio nazi-fascista parecia avassalador.

A repressão que se abatia sobre o movimento operário e os comunistas era intensa. No Campo de Concentração do Tarrafal encontrava-se grande número dos mais destacados quadros do Partido. É nestas condições que o jovem José Magro se torna comunista e adere ao PCP, animado do dever de lutar contra o fascismo e de enorme confiança nos destinos da luta pela liberdade, pelo socialismo e comunismo.

Em 1945, José Magro – com a sua companheira Aida Magro, também ela destacada militante comunista com vários anos de prisão enfrentados corajosamente – passa à clandestinidade como funcionário do Partido, opção de vida que assumirá com enorme orgulho e alegria ao ponto de considerar a qualidade de «revolucionário profissional» como «a mais bela profissão do mundo».

Participa no IV Congresso ilegal (1946) e a partir de 1950 passa a integrar o Comité Central, função que ocupa até morrer.

Nos anos de clandestinidade desenvolveu actividades e assumiu responsabilidades em várias regiões e sectores: Região Norte, a cuja direcção pertenceu, Baixo-Ribatejo e Lisboa, tendo sido responsável pelo seu Comité Local. Desenvolveu actividades, entre outras, no sector militar, intelectual, de empresas, de unidade antifascista – uma das suas grandes preocupações.

Entre 1946-49 foi deslocado para o Norte para assumir as funções de funcionário do MUNAF e assegurar as ligações directas ao seu presidente, general Norton de Matos, tendo trabalhado activamente na preparação da campanha eleitoral do general. Teve igualmente papel activo e destacado na organização das campanhas eleitorais de 1958 e na concretização do Acordo que se estabeleceu entre as candidaturas de Arlindo Vicente e Humberto Delgado.

José Magro era um organizador exímio, com uma particular aptidão para o trabalho de massas. Acompanhava e incentivava o trabalho nas organizações de massas e em particular nos sindicatos fascistas. Os funcionários do Partido que com ele trabalhavam tinham de informar regularmente do trabalho realizado nessa frente. «Não pode ser funcionário do Partido – dizia – quem não sabe onde ficam os sindicatos e do que por lá se passa». Dele se dizia: «onde está o Zé Magro, tudo mexe».

As grandiosas jornadas de 1 e 8 de Maio de 1962 tiveram em José Magro um entusiasta, empenhado e audacioso organizador, pisando não poucas vezes linhas vermelhas em matéria conspirativa na ânsia de impulsionar o trabalho. No rescaldo desse «banho de massas» – como se referia àquelas jornadas – José Magro é preso em 24 de Maio pela PIDE, iniciando um muito longo período de prisão.

Grande parte da sua vida ficou marcada pelo enfrentar da polícia e do sistema prisional, considerados por ele como sítios e momentos da luta contra o fascismo travados em condições particulares mas parte integrante da luta geral contra a ditadura. Das três vezes que teve de enfrentar a PIDE (1951, 1959 e 1962) fê-lo sempre com muita coragem, recusando-se a fazer qualquer declaração, provas que enfrentou com serenidade, com «a consciência de ser capaz de sofrer por muito tempo», de se superar a si próprio, mas também com a consciência (e a alegria) de que vencer os torturadores era derrotar o aparelho repressivo do fascismo.

A vida na cadeia não se escoava em monótona rotina. José Magro dedicava particular atenção ao trabalho colectivo, à formação política dos quadros, à organização do Partido e dos presos, trabalho para o qual revelou particular aptidão e um talento em resolver problemas de enorme complexidade como eram as ligações internas, indispensáveis ao desenvolvimento da luta e à coesão dos presos frente aos carcereiros. Foi um impulsionador da organização de algumas das mais significativas lutas prisionais contra as arbitrariedades dos carcereiros, pela defesa dos direitos dos presos e das condições de vida prisionais. Esteve ligado à preparação de várias tentativas de fugas audaciosas. Aliás, tinha uma muito especial compreensão da orientação do Partido no sentido de que uma vez preso se devia procurar fugir para prosseguir a luta, tarefa que realizava com enorme entusiasmo, confiança e persistência. O sucesso da audaciosa fuga da cadeia de Caxias no carro blindado de Salazar (Dez.1961) é inseparável das suas capacidades organizativas, da persistência em alcançar os objectivos que se propunha atingir, em não desanimar face aos insucessos e no começar de novo, na audácia revelada na escolha das opções e confiança na sua viabilidade. A fuga de Caxias, de que ele foi o mais destacado obreiro, tem disto tudo em larga escala e que perdurará como exemplo da força do trabalho organizado.

Nos finais de 1973, preso no hospital-prisão de Caxias, quase a completar 21 anos de cadeia, dos quais os últimos 12 anos seguidos, passados nas cadeias do Aljube, Caxias, Peniche, escreveu um livro «Cartas da Clandestinidade» 1, no qual registou um conjunto de acontecimentos da vida política nacional e experiências da actividade clandestina que viveu. Um livro em jeito de balanço/reflexão sobre aqueles tempos e do seu percurso como militante comunista e revolucionário. Um livro não virado para o passado ainda que sobre o passado, mas sobretudo a pensar no futuro e em que o seu exemplo pudesse ajudar as jovens gerações de então. Cinco meses depois teria lugar o 25 de Abril, a sua libertação e consequente participação na construção do Portugal democrático. Mas quando escreveu o livro o problema que se lhe punha, como em outras ocasiões, era o de clarificar o caminho a seguir ao fim de décadas de prisão e de clandestinidade, uma vez posto em liberdade, que pensava ser como nas outras ocasiões nas condições de fascismo e, consequentemente, a certeza que a opção de continuar a luta de entrega ao Partido implicava mais anos de clandestinidade, prisão e tortura.

O texto que se segue, retirado do livro referido, embora bastante longo, torna-se necessário para melhor se compreender a sua têmpera revolucionária e de entrega ao Partido e que, além do mais, podia ser transmitida como experiência útil às jovens gerações na luta contra o fascismo. Experiências e ensinamentos que continuam a ser de enorme validade para todos os que abracem a opção pela luta revolucionária na actualidade.

«Queridos amigos:

Até à última prisão, os períodos de luta lá fora corresponderam a períodos idênticos de cadeia: seis anos, fora e dentro. Desta vez, contudo, o que parecia já uma lei, apesar dos meus esforços para confiná-la logo em plena incomunicabilidade, no Aljube revelou-se inoperante. Seis meses de liberdade para já perto de doze anos de prisão, é bastante caro! Mas, tal como me sentia resignado à «lei» anterior, não desanimo com a sua actual negação. Então como hoje, sou funcionário do Partido, qualquer que seja a situação. Serei útil, mais ou menos, conforme a situação, é bem certo!; mas sei por experiência que, de algum modo, o poderei ser sempre. Até os meus vinte anos de cadeia, infelizmente, terão a sua utilidade prática ao revelar aos olhos do país e do estrangeiro o que é o fascismo, a dureza do seu carácter repressivo, a violência fria do seu ódio de classe, e, ao mesmo tempo, ao mostrar a capacidade dos comunistas para resistir e superar longas e sacrificadas provas como esta.

(...)

Quero declarar-vos, queridos amigos, que devo muito ao Partido, que devo muito à classe operária, ser-lhe-ia dedicado, mesmo sem isso, tanto quanto me fosse possível; mas estou-lhes infinitamente grato por tudo o que me deram – por me ensinarem a viver e a caminhar no sentido da história, por terem feito de mim um homem consciente, não obstante as minhas fraquezas, por me terem adoptado como filho da classe operária, por me concederem um lugar de vanguarda nesta luta feroz que terminará pela vitória do socialismo e do comunismo.»

Na altura em que escreveu estas palavras travava-se uma importante luta nacional e internacional pela sua libertação de desfecho incerto. Mas uma coisa tinha como certa: em liberdade ou na prisão, apesar de todos os sacrifícios, mantinha a mesma determinação de sempre, que o fascismo mais tarde ou mais cedo seria derrubado e a liberdade conquistada.

Poucos meses depois, a 27 de Abril de 1974, com o derrube da ditadura fascista, aquilo por que sempre lutou, José Magro é posto em liberdade. Com o entusiasmo e o empenho de sempre, entregou-se à tarefa de organização do Partido e da luta pela construção de um Portugal democrático, à divulgação da resistência e da natureza do fascismo. Integrou a Direcção Regional de Lisboa, foi responsável pelo Comité Local da cidade de Lisboa, foi destacado como seu responsável para Organização Regional da Madeira e foi deputado à Assembleia Constituinte.

A 22 de Fevereiro de 1980, aos 60 anos, José Magro deixou de estar entre nós, vítima de doença prolongada. Neste dia terminou a vida de um camarada marcado pela alegria de ser comunista, por uma enorme paixão pela luta revolucionária libertadora dos trabalhadores e dos povos. A ele se aplicam com toda a justiça as palavras do camarada Álvaro Cunhal no último adeus a um outro abnegado resistente e construtor do Partido: «Feliz o Partido que ao fazer o balanço da vida dos seus militantes mortos pode dizer de um (...) que passou longos anos de vida clandestina e sempre esteve pronto a executar as tarefas que lhe foram confiadas e a executá-las com a dedicação, com a coragem, com a firmeza, com a alegria daqueles que na luta nada pretendem para si próprios, pois apenas pretendem servir o povo e o País» 2. Um partido que forja tais militantes torna-se indestrutível por muitas que sejam as perseguições e as calúnias.

Notas

(1) José Magro, Cartas da Clandestinidade, Edições «Avante!», 2007, p. 195.

(2) Álvaro Cunhal, Discurso no funeral de Pedro Soares e Maria Luísa Costa Dias, 13 de Maio de 1975.