Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 368 - Set/Out 2020

Militância em tempos de epidemia - A experiência da JCP no Porto

por Alexandra Pinto

Somos a Juventude Comunista Portuguesa! A organização revolucionária da juventude que se afirma em todos os contextos ao lado dos jovens portugueses.

Carregamos a responsabilidade de fazer parte de um partido com quase 100 anos de vida e de luta, de cuja história nos orgulhamos e com uma rica experiência da qual diariamente aprendemos. Um colectivo revolucionário que, temperado de mil combates, se tornou no partido necessário e insubstituível de hoje. Firme, coerente e com audácia nos mais difíceis períodos da história, assumindo com determinação e confiança as exigências da actualidade e do futuro.

Só assim foi possível escrever as seguintes linhas e, não menos verdade, é por ter sido possível escrevê-las que isto se confirma na prática e não como mero exercício retórico.

A Março de 2020, a Organização Regional do Porto da JCP preparava em crescimento a luta na defesa da Escola Pública, gratuita e democrática e as comemorações do Dia do Estudante e do Dia da Juventude. Eram muitos os contactos, as faixas pintadas à porta das escolas, as distribuições, a alegria de quem luta para transformar, a dinâmica que o mês de Março exige.

Este é o registo da resposta dada a uma situação inusitada, inesperada, mas que os jovens comunistas, no distrito do Porto, exactamente como na generalidade do país, assumiram com responsabilidade e audácia.

O vírus e a adaptação da organização

Quando, em Março de 2020, fomos confrontados com o encerramento de escolas, com várias empresas a recorrer ao lay-off, outras em regime de teletrabalho face ao desenvolvimento da epidemia e, até, com a exponenciação dos sentimentos de medo e de incerteza, começámos a sentir camaradas e amigos vulneráveis a esse ambiente e mesmo receosos de sair de casa. Eram mais as dúvidas do que as certezas do que ainda estaria por vir, uma nova realidade para qualquer organização do Partido e da JCP.

Percebemos, desde logo, que esta epidemia podia ter muitas implicações na organização e na forma de intervir, sendo certo que precisávamos de continuar a nossa acção para não deixar nenhum camarada ou contacto para trás, adaptando formas novas e criativas de chegar a todos, de contactar com a juventude e dar voz e expressão às suas justas aspirações, para que cada um mantivesse a ligação com a organização e ajudasse a traçar as linhas para o seu reforço.

Reinventamo-nos e reinventamos as formas de intervenção: o Avante! começou a ser entregue rigorosamente na casa de cada camarada (em maior número do que antes!), mantendo-os informados sobre a acção do Partido, tendo-se revelado uma importante ferramenta quer pelo meio de chegar até eles, quer para os esclarecer num momento em que todos os meios de comunicação social transpiravam pânico; o contacto telefónico semanal com os camaradas e amigos foi determinante para não perdermos a ligação e ouvirmos os seus receios, as suas inquietações e os seus desabafos.

Chegados a Abril, clarificam-se as reais consequências do último mês de confinamento. O desemprego, o corte nos rendimentos, a precariedade, o pagamento de propinas e a realização dos exames nacionais num ensino à distância tomaram proporções cada vez maiores e começava a ser clara a necessidade de adaptação do trabalho da nossa Organização a esta realidade. Era evidente que precisávamos de estar ao lado dos trabalhadores e da juventude assumindo o nosso papel de vanguarda.

As comemorações do 25 de Abril foram determinantes e, diremos mesmo, representaram um ponto de viragem perante a realidade que vivíamos. Neste âmbito, realizámos a pintura de uma faixa para a fachada do Centro de Trabalho da Boavista com a participação de muitos dos nossos camaradas que, com a alegria e o orgulho do papel do Partido, deixaram cair o medo e agarraram-se à coragem que sempre nos foi característica.

No dia 25 de Abril, mais de 20 camaradas e amigos da JCP ocuparam as varandas do Centro de Trabalho da Boavista, a entoar a Grândola com a força e a resistência que o momento nos exigia. Diz-se que só se ama o que se vive, mas os jovens do Portugal de hoje, que não viveram a Revolução de Abril, nem por isso são menos capazes de amar esta revolução, os seus ideais e as suas conquistas. Por isso, pela demonstração emocionante nesse dia, Abril é nosso: dos que o fizeram e viveram, mas também dos que o receberam ainda por acabar e que continuarão a lutar por um amanhã melhor.

Maio estava à porta e trazia os 130 anos da data de todos os trabalhadores, este ano com sentido e responsabilidade acrescidos, mas com mais uma dúzia de braços conquistados no mês anterior. Estava a ser promovida uma epidemia de ataque aos trabalhadores, aos seus direitos, salários, vínculos, horários, condições de trabalho, higiene, segurança e saúde que a reboque do vírus camuflavam e justificavam os milhares de trabalhadores que foram despedidos sem terem direito a ter direitos.

Perante a ofensiva que estava montada às comemorações do 1.º de Maio e face à necessidade e à importância de sair à rua, tivemos conversas individuais com cada um dos camaradas, alertando-os para o que estava por vir, erguendo o nosso compromisso com os trabalhadores que sempre assumimos e, muitas vezes, em circunstâncias muito difíceis.

Num sábado escuro, na cidade do Porto, assegurando todas as medidas de segurança sanitária, foram muitos os jovens que ocuparam e firmaram o seu lugar na Avenida do Aliados afirmando as palavras de ordem: a luta continuava e mostrava-se urgente e indispensável. Conscientes do condicionamento que este contexto trouxe para o seu presente e para o seu futuro, deixaram os receios em casa e trouxeram para a rua a força e a combatividade da juventude revolucionária.

Animados pela força da luta dos trabalhadores era inegável a necessidade de dinamização de iniciativas que trouxessem os camaradas ao Centro de Trabalho da Boavista. Pressentimos que os camaradas e amigos da organização reconheciam a importância de agir para transformar reunindo, de novo, os organismos e colectivos, salvaguardando medidas de segurança e higiene necessárias e admitindo novas soluções. São muitas as tarefas que temos este ano, sendo uma delas a preparação para o XXI Congresso do Partido Comunista Português. Marcámos, então, um plenário tendo em vista a discussão dos tópicos. Multiplicaram-se os contactos, ouvindo dúvidas e receios, explicando e ganhando um a um. Chegados ao dia, reunimos 49 camaradas, mais vários amigos da JCP que se somaram no jantar que se seguiu. Esta iniciativa revelou-se um contributo quer para enriquecer o debate colectivo rumo ao Congresso do Partido, quer para envolver os camaradas e amigos nas iniciativas do Partido e da JCP, dando-lhes o alento, a força e a alegria de continuar.

A hora era de luta contra todas as novas e velhas injustiças: pelo fim do pagamento da propina, pelo fim dos exames nacionais… Agora já com outra dúzia de braços ganhos em Maio. O vírus colocou ainda mais a nu as fragilidades e o desinvestimento, dos últimos anos, no sistema educativo e, nesse quadro, tiveram lugar corajosas lutas que levaram jovens para a porta das escolas e das faculdades pelos seus direitos, indispensáveis para a compreensão da necessidade da luta por questões concretas em todos os momentos de variadas e criativas formas.

A juventude resistiu mesmo nos mais difíceis momentos.

O reforço da JCP em tempos de excepção

Durante este período, a JCP, no Porto, reforçou-se adaptando o seu estilo de trabalho e redefinindo as suas prioridades. Com 17 recrutamentos, durante os últimos três meses, correspondendo a maior parte a jovens trabalhadores, é o espelho de todo o trabalho do Partido e da JCP, sempre de braço dado com os trabalhadores.

O reforço da JCP e o reforço da militância reflectiram-se na vida da organização: a Organização Regional do Porto da JCP realizou uma reunião da Comissão Regional que foi alargada aos novos camaradas que se destacaram durante o período de confinamento. Uma reunião que contou com a presença de 24 camaradas, ligada à vida da juventude e com representação de todos os sectores. Esta dinâmica mostrou-se muito importante para ultrapassar os problemas da actualidade respondendo às exigências imediatas que se colocavam.

Pelo meio, uma forte participação no comício do Partido, realizado no centro do Porto a 5 de Julho, e na iniciativa nacional da JCP, o Agit’Atalaia, no final do mesmo mês.

A Organização Regional do Porto viu os seus colectivos crescerem, estando actualmente a reunir com regularidade e a preparar o início do próximo ano lectivo.

Agora

Temos assistido à construção de uma narrativa que responsabiliza a juventude pelo aumento de número de casos e que encontra eco na voz do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, escondendo os comboios cheios ou os números de infectados em empresas… Escondem a realidade dos despedimentos e do desemprego, do lay-off, do ataque a direitos. Não falam da falta de resposta do Orçamento Suplementar às necessidades que estão colocadas. Agora, mais do que nunca, é urgente e imperioso a JCP com a juventude portuguesa estar na rua, ter iniciativa e intervir!

Intervimos num quadro complexo de instabilidade própria da juventude. É fundamental que, a par dos momentos de luta, haja espaços para convívio, sempre com todas as precauções que os novos tempos exigem, para discussão e até para derrotar medos criados ao longo destes tempos diferentes. Conhecemos a ofensiva e os riscos, mas igualmente sabemos o que ainda está por vir e quem vai pagar a factura. Por isso, todos os dias, precisamos de ganhar os nossos para que eles, por sua vez, possam ganhar outros.

No momento em que escrevo a Festa do Avante! está à porta e traz nesta edição uma responsabilidade acrescida. Temos camaradas com receios, medos e dúvidas e precisamos de lhes dar a força e a confiança que tanto nos orgulham neste partido. Temos de os ganhar, uma vez mais, pela prática e, por isso, lançámos a iniciativa: «Festa do Avante! Itinerante». Durante estas semanas, a JCP levará a Festa do Avante! às ruas do Porto, com exposições, debates, desporto e convívio. Esta iniciativa nasce da discussão colectiva e da avaliação da necessidade de envolver os nossos camaradas para que sintam a Festa como sua, para a divulgar a outros no Porto, bem como para desconstruir todo o ataque de que tem sido alvo.

O mote de arranque já foi dado com um concerto de duas bandas inscritas no Concurso de Bandas para o Palco Novos Valores e um debate sobre a Festa do Avante!, a sua história e a sua importância até em momentos igualmente difíceis. Nesta iniciativa contámos com mais de 60 pessoas, o que representou um grande passo para a desmistificação de toda a ofensiva montada em torno da nossa Festa.

A nossa prioridade, neste momento, passa pela construção e divulgação da Festa do Avante! alicerçada neste conjunto de iniciativas, demonstrando a importância e o carácter distintivo da nossa Festa e o sinal que dá ao povo e à juventude de que é possível viver com alegria e segurança e aceder à cultura, à arte, ao desporto.

Confiança no futuro

Foram meses duros e difíceis para todos. Por certo muito ficou por fazer: jornais Avante! por vender, quotas por recolher, camaradas por responsabilizar… Mas com certeza estamos em melhores condições para dar resposta às muitas tarefas que temos pela frente. O que virá também não será fácil – mas em bom rigor nunca foi. Temos, ao longo destes meses, a prova da capacidade da juventude que agarrada ao ideal comunista com a confiança inabalável no projecto, demonstra que o caminho é apenas um: a luta. Onde estava o medo, a incerteza e a inquietação, esteve sempre a coragem, a determinação, a força e a audácia.

E é com confiança na militância, no ultrapassar de dificuldades, no combate diário que fazemos à ofensiva ideológica e à ofensiva aos direitos, que conquistamos soluções, vitórias, esperança e a alternativa. Encaramos o futuro com toda a determinação porque temos uma coisa que mais ninguém tem: um projecto de actualidade e de futuro que não perde a validade, que vai de encontro aos problemas do povo, dos trabalhadores e da juventude!

É com orgulho que, quase 100 anos depois, podemos afirmar que temos mais projecto do que história. Continuamos na batalha da história sabendo que o caminho é longo, mas certo.

A juventude resiste.