Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Centenário, Edição Nº 371 - Mar/Abr 2021

Os Prelos da Liberdade

por Fernando Correia

A partir da reorganização do Partido nos primeiros anos da década de 40 e o início da publicação regular do Avante!, jamaisinterrompida até ao derrube do fascismo, afirmaram-se e consolidaram-se em toda a sua plenitude a existência e a intervenção dos prelos da liberdade, imortalizados na célebre gravura de Dias Coelho.

Nascido em 15 de Fevereiro de 1931, em pleno fascismo, o Avante! atravessou uma vida difícil durante os dez anos seguintes, com grandes altos na tiragem – chegou a tirar 10 mil exemplares – mas muitos baixos, incluindo mais ou menos longas interrupções da publicação, assim acompanhando as irregularidades e debilidades da próprias organização partidária, drasticamente agravadas pela prisão em 1935 de Bento Gonçalves e de todo o resto do Secretariado.

Sobre a então precária e perigosa situação do Partido, nomeadamente no que se refere à imprensa mas também ao trabalho organizativo em geral, são esclarecedoras as palavras com que Pires Jorge, então com pouco mais de vinte anos, recordaria mais tarde esses tempos: «Os camaradas que trabalhavam na tipografia eram, simultaneamente, membros de organizações de Lisboa. Imprimiam de dia e à noite saíam para o trabalho de organização do Comité Regional de Lisboa». As consequências eram óbvias: «à mínima coisa ia-se abaixo o trabalho de organização e ao mesmo tempo o trabalho das tipografias.»

A verdade é que um jornal clandestino desligado de uma organização forte, também ela clandestina, ou essencialmente clandestina, está votado ao malogro. Não tem defesas nem cobertura, não tem protecção para o seu aparelho técnico, não tem meios que o façam chegar às massas. Vive isolado, sem ultrapassar um pequeno círculo de leitores – e, necessariamente, vive mal e vive pouco. Compreende-se assim que só a partir da reorganização do Partido dos anos 40/41, definitivamente consolidada com o IV Congresso (II ilegal) realizado na Lousã em 1946, o órgão central tenha conseguido assegurar uma publicação ininterrupta que se prolongaria até ao fim da ditadura.

Tornou-se mesmo não só no jornal clandestino de maior duração e influência ao longo de todo esse período no nosso país, mas também internacionalmente conhecido e respeitado como aquele que, nas condições de uma ditadura fascista, em todo o mundo durante mais tempo resistiu com êxito à clandestinidade.

Nunca se poderá esquecer nem deixar de valorizar o papel de Bento Gonçalves e dos que o acompanhavam não só no combate ao anarco-sindicalismo – o «esquerdismo» de então, digamos assim – mas também, simultaneamente, na construção de um partido verdadeiramente leninista, do qual era componente essencial a existência de um órgão central com condições para uma publicação regular e uma eficiente ligação às bases. Mas tal só viria a acontecer a partir da reorganização do Partido e com o início da publicação regular do Avante!, que perduraria até ao derrube do fascismo. Foi nesse período que se afirmou e consolidou em toda a sua plenitude a existência e intervenção dos prelos da liberdade, imortalizados na célebre gravura de Dias Coelho.

Recordaria mais tarde também Pires Jorge: «Faziam-se as reuniões do Secretariado, às vezes com outros camaradas, discutia-se a situação política, e o Álvaro ia fazendo a síntese. Daí saía o artigo de fundo, que era lido, emendado e aprovado. Das informações sobre a situação e as lutas saíam as notícias. A quarta página era sempre dedicada à guerra [2.ª Guerra Mundial, 1939-45]. Às vezes, ao fim de três dias de reunião, já com toda a gente a cair de sono, o Álvaro continuava a trabalhar, a escrever as notícias para o Avante! que saía dali paginado e tudo, levado por um camarada que ia ao encontro dos camaradas das tipografias.»

O trabalho nas tipografias

A impressão do Avante! e de outros materiais, fossem jornais, manifestos ou tarjetas, decorria de acordo com uma série de operações que incluíam as seguintes fases: composição manual dos textos organizados em colunas, inicialmente em corpo 6, mas mais tarde em corpo 8 – alteração esta na altura muito saudada pelos tipógrafos, na medida em que facilitava o manuseamento da pinça que agarrava as letras; espalhamento de cada artigo nas páginas seguindo a maqueta previamente fornecida; tintagem da composição montada no prelo; colocação do papel sobre a composição; passagem duas vezes do rolo impressor sobre a página; levantamento da página já impressa e sua secagem.

Nem todas estas fases estão presentes, como é óbvio, no desenho de Dias Coelho, visto serem operações sequenciais. Tratava-se de tarefas que nuns casos exigiam perícia e delicadeza, como no trabalho da composição do texto, outras vezes força braçal, como para a repetitiva utilização do pesado rolo impressor. Força de braços, aliás, que continuava a ser precisa para uma última tarefa que competia aos camaradas das tipografias: o empacotamento do material impresso, segundo as necessidades de cada sector, a fim de facilitar o trabalho dos camaradas responsáveis pela ligação entre as tipografias e os diversos organismos.

Conforme sintetiza Manuela Bernardino, «pelas mãos dos tipógrafos clandestinos, jovens e menos jovens, homens e mulheres, passaram muitos milhões de folhas daquele papel finíssimo em que era editado o Avante! e outros jornais do Partido, assim como os documentos centrais e de organizações regionais, milhares de manifestos de vários sectores e em várias regiões do País, assim contribuindo para a consciencialização da classe operária e de outras amplas massas de trabalhadores e para a realização de importantes jornadas de luta».

Terminado o trabalho específico da tipografia, o camarada responsável pela ligação à organização recolhia a imprensa e a partir daí a distribuição prosseguia em pirâmide, começando pelo topo – as grandes organizações nacionais, profissionais e regionais – depois as intermédias, alargando-se até às células locais e aos militantes individualmente, assim chegando à base da pirâmide. Mas a seguir transbordando, sempre que isso fosse possível, para os amigos e/ou potenciais militantes do Partido. O mesmo acontecia com a outra imprensa partidária, nomeadamente O Militante (editado desde o início dos anos 30) e as publicações de natureza profissional, enquanto instrumentos para a valorização do trabalho militante e sindical mas também com a preocupação sempre presente de recrutar novos membros, potencialmente alargando ainda mais o terreno para a penetração da imprensa e deste modo para o conhecimento, o debate, a valorização individual e do colectivo e o seu alargamento e enriquecimento. Tal como hoje continua a acontecer – e devia acontecer mais.

Com o progressivo desenvolvimento da luta contra o fascismo e o próprio crescimento do Partido, foi aumentando a perseguição policial às tipografias clandestinas. Sublinha Joaquim Gomes, por várias vezes responsável por esta área enquanto membro do Secretariado, que das 58 existentes desde meados dos anos cinquenta, por onde passaram e trabalharam pelo menos uma centena e meia de camaradas tipógrafos – homens e mulheres, num ou outro caso com respectivos filhos – apenas seis foram assaltadas pela PIDE.

Distribuição, leitura... recrutamento

Deve dizer-se que nos percursos da distribuição e da própria leitura da imprensa ocorriam por vezes casos singulares, dependentes das condições locais existentes. São bem conhecidas, por exemplo, as leituras colectivas do Avante! em zonas onde grassava o analfabetismo, como no caso do Alentejo. Menos o será, por exemplo, o estratagema utilizado no centro do país, onde predomina a pequena propriedade, e em que os muros divisórios feitos de pedra solta eram utilizados como caixas de correio: cada célula tinha uma certa pedra seleccionada e era por detrás dela que se escondiam e depois iam buscar os materiais clandestinos.

Mas havia ainda, ocasionalmente, digamos que mesmo muito raramente – e neste caso devido aos protagonistas – variantes de distribuição, leitura e recrutamento que vertiginosamente se sucediam e fundiam num processo único. José Vitoriano, operário corticeiro mas já ligado ao Partido, decide, para satisfazer o desejo de melhorar os seus conhecimentos, inscrever-se na escola comercial da sua Silves. Recorda que, certo dia, o professor de Português entra na sala e diz aos alunos para fazerem uma redacção com tema a escolher por cada um. Vitoriano escolheu: «Uma luta na fábrica». Atira-se à escrita. E o que sucedeu a seguir ele conta com palavras simples.

«Eu entrego, saio, o professor vai lendo, e quando lê o meu, pergunta aos restantes estudantes que lá estão: ‘Quem é este sujeito?’, e dizem-lhe quem é. Passadas semanas, não sei se meses, eu estava a dar-lhe Avantes! e a pedir dinheiro para o Partido. Passei a ser considerado o melhor aluno de português e tive uma boa nota final.» Faz questão de acrescentar: «Mas eu não fui para a escola comercial para deixar de ser operário corticeiro, eu queria melhorar a minha capacidade de apreensão da cultura, eu lia muito.» E lia mesmo: Balzac, Eça, Camilo, Garrett, mas também Redol, Soeiro, «os jovens intelectuais de Coimbra, aquela geração do Álvaro, do Vilaça». Vitoriano viria a ser presidente do Sindicato dos Corticeiros e depois do 25 de Abril vice-presidente da Assembleia da República.


A imprensa clandestina na actividade do Partido

Quais foram as realizações basilares no trabalho clandestino em que assentou a continuidade e o desenvolvimento da actividade partidária?

A primeira: A constituição de organizações partidárias enraizadas nas fábricas, nos campos, entre os intelectuais e a juventude, capazes de recompor-se mesmo quando seriamente atingidas pela repressão.

A segunda: A formação de um soldo núcleo de revolucionários profissionais para o desempenho das tarefas vitais (direcção central e dos grandes sectores, controlo das organizações regionais, serviços técnicos) inteiramente dedicados ao Partido e disponde de uma base técnica correspondente.

A terceira: A defesa e continuidade do trabalho de direcção.

A quarta: A capacidade para renovar os quadros, para preencher as severas baixas, inevitáveis numa luta tão dura como a que travamos.

A quinta: O estabelecimento de uma sólida unidade e disciplina alicerçada nos princípios do centralismo democrático.

A sexta: a criação dum aparelho de imprensa clandestina garantindo a sua publicação regular.

A imprensa clandestina do Partido, designadamente o órgão central Avante!, que publicou o seu primeiro número em 15 de Fevereiro de 1931, desempenhou e desempenha um importante papel na actividade do Partido.

Ao longo dos anos, a polícia fascista localizou e assaltou algumas tipografias clandestinas. Prendeu, torturou, manteve longos anos nas prisões, assassinou em alguns casos, redactores, impressores e distribuidores do Avante!. Mas não conseguiu silenciar a voz do Partido. Desde 1941, há trinta anos consecutivos, o Partido Comunista Português publica regularmente o seu órgão central, sempre redigido e impresso no interior do país.

(Texto extraído de um artigo publicado na Revista Internacional (Problemas da Paz e do Socialismo), n.º 6, Junho de 1971. Ver Obras Escolhidas, t. IV, pp. 589-599). Importante a nota 361, p. 840.

Responsável das tipografias com a Ordem da Liberdade

Manuel da Silva chegou ao 25 de Abril como responsável das tipografias, tarefa que desempenhava desde o assassínio de José Moreira em 1950. É de José Moreira a expressão célebre: «Uma tipografia clandestina é o coração da luta popular. Um corpo sem coração não pode viver». Manuel da Silva soube respeitar a herança e honrou-a até ao fim da clandestinidade.

O trabalho tinha os seus problemas, recorda ele, por causa dos “cortes” – mudanças de meio de transporte – que era necessário fazer para despistar possíveis perseguidores. As estratégias variavam, «desde a utilização de cestas de verga, pastas, embrulhos deformados que mostrava não ser papel, utilização do burrico a puxar uma carroça com hortaliça, até ao automóvel à porta das tipografias.»

O 25 de Abril apanhou-o em Vila do Conde, onde morava desde 1965 com a sua companheira de sempre, a Gertrudes. Veio para Lisboa, começando a trabalhar na segurança e a dar apoio ao automóvel do camarada Álvaro Cunhal.

Foi agraciado com a Ordem da Liberdade. «Fiquei satisfeito, mais no aspecto político do que outra coisa, o mais importante foi eles terem dado a Ordem a um comunista».

Referências bibliográficas

– António Gervásio, Lutas de massas em Abril e Maio de 1962 no Sul do País, Edições «Avante!»,1996.

– António Gervásio, Histórias da clandestinidade. Prefácio de Albano Nunes, Edições «Avante!», 2016.

– Carlos Pires, Memórias de um tipógrafo clandestino. Prefácio de Manuela Bernardino, «Edições Avante!», 2011.

– FranciscoMiguel, Das prisões à liberdade. Recolha de depoimento e texto de Fernando Correia, Edições «Avante!», 1986.

– Joaquim Gomes, Estórias e emoções de uma vida clandestina, Edições «Avante!», 2001.

– Joaquim Pires Jorge, Com uma imensa alegria, testemunho recolhido por João Paulo Guerra, «Edições Avante!», 1984.

– José Magro, Cartas da Clandestinidade. Prefácio de José Casanova, Edições «Avante!», 2007.

– José Vitoriano, Um comunista sorri à luta. Introdução de Cristina Nogueira, Edições «Avante!», 2017.

– Manuel da Silva, 30 anos de vida e de luta na clandestinidade, Edições «Avante!», 1996.