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Efeméride, Edição Nº 365 - Mar/Abr 2020

«E a esperança reproduz-se» – da poesia e da vida de Egito Gonçalves nos 100 anos do seu nascimento

por José António Gomes

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.
(…)

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se.

Haverá quem, forjado na luta antifascista entre os anos 50 a 70, se não recorde do célebre poema, intitulado «Notícias do bloqueio» (Gonçalves, 1973: 13-14), de que aqui deixamos as três primeiras estrofes e a última? Difícil, de facto, é esquecer estes versos de denúncia, de protesto e de esperança, escritos por Egito Gonçalves, o poeta que o presente artigo se propõe evocar, por ocasião do centenário do seu nascimento, e que foi sempre um exemplo de intelectual e artista comprometido com o seu tempo e com os combates ideológicos e políticos que marcaram o período socio-histórico que lhe foi dado viver. Escrita em 1952, publicada pela primeira vez na revista Árvore e traduzida em várias línguas, a composição citada, pela sua beleza e força lírica, tornar-se-ia um marcante texto de resistência à ditadura fascista de Salazar e acabaria emprestando o seu título a uma influente série de fascículos de poesia publicada no Porto, entre 1957 e 1961, conhecida precisamente como Notícias do Bloqueio. Um projecto cuja direcção era assegurada pelo próprio Egito e por outros escritores antifascistas, como Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro.

E é a esta geração literária, conhecida por historiadores da literatura e críticos (Martinho, 1996: 313-392) como a segunda geração neo-realista (marcada pela Segunda Guerra Mundial, pelas hecatombes de Hiroxima e Nagasáki, pela ameaça da guerra atómica no pós-guerra e, nos quatro cantos do mundo, por povos em luta pela emancipação das garras do imperialismo norte-americano ou em processo de construção do socialismo entre os anos 40 e 70), é a esta geração, dizíamos, que é comum associar, na sua primeira fase, a personalidade literária de José Egito de Oliveira Gonçalves – nascido em Matosinhos, a 8 de Abril de 1920, no seio de uma família camponesa transmontana da raia (Lopes, 1963: XV), e falecido no Porto, a 28 de Janeiro de 2001.

Após a frequência de um curso de electricista numa escola técnica e a incorporação como cabo radiotelegrafista entre os militares expedicionários nos Açores (o que lhe proporciona uma experiência, indirecta é certo, da Segunda Guerra e das suas consequências, no Atlântico Norte), Egito começa a criar os primeiros poemas – data de 1950 o seu primeiro livro, Poema para os Companheiros da Ilha, saído no Porto, depois do regresso de S. Miguel. Segue-se, em termos profissionais, um percurso invulgar: foi apontador de cais, empregado de balcão, pracista, dactilógrafo, caixeiro-viajante, gerente de café, empregado de escritório, vendedor de imóveis e mais tarde chefe do gabinete de marketing de uma companhia de seguros. Em 1958, escrevia, em «Diário obsessivo», incluído no livro Arquivos do Silêncio: «Um gosto acre a alho é o que me fica de certas manhãs de que atinjo o meridiano sem paisagem, debruçado à varanda dos números cansando os olhos na aridez do equilíbrio ‘deve-haver’ onde não há arado nem suor que engendre uma espiga luminosa.» (Gonçalves, 1963: 146).

A diversificada actividade profissional do autor «temperou uma capacidade já decerto natural de luta, que na vida prática individual lhe permitiu conquistar uma independência (…) e em coisas culturais desempenhar um papel activo em várias organizações, algumas delas das mais prestigiantes para o Porto» – isto escreveu Óscar Lopes (1963: XVI), grande amigo de Egito Gonçalves e seu colaborador em múltiplas iniciativas político-culturais, num dos ensaios que dedicou à obra do poeta.

Este, com o passar do tempo, acaba por conjugar criação literária e outras actividades conexas: além de editor, as de tradutor, organizador de antologias (um exemplo: 10 poemas para Che Guevara, 1972), director, co-director ou membro dos colectivos de importantes revistas literárias, como Serpente (1951), Árvore (1951-52), Notícias do Bloqueio, Bandarra (1961-62), Limiar (anos 90). Funda e dirige a editora Limiar, exclusivamente dedicada à poesia portuguesa e estrangeira, onde publicou, a par de vozes poéticas de relevo (Vallejo, Nicola Vaptsarov, Yannis Ritsos, Eugénio de Andrade, Ramos Rosa, Fiama, Gastão Cruz, Pedro Tamen, Luís Miguel Nava…), vários poetas jovens para quem o apoio do autor de O Fósforo na Palha foi fundamental.

A trajectória cívica de Egito Gonçalves faz-se no espaço da esquerda, da resistência antifascista e da luta pela liberdade, pela democracia e pela justiça social – um espaço especialmente duro de ocupar antes do 25 de Abril, mas ao qual o poeta se mantém firmemente ancorado, tanto através da criação literária comprometida que é a sua, como por meio da acção enquanto influente dinamizador de iniciativas culturais e por via da intervenção política directa.

Os títulos de alguns dos seus poemas anteriores a Abril de 74 – veementes mas não panfletários, trabalhados do ponto de vista formal e imagístico, e especialmente eficazes no plano retórico – não deixam margem para dúvidas sobre um posicionamento de resistência antifascista e de condenação das injustiças: «Áspera é a terra em que vivemos», «Um dia de Maio», «Il partigiano sconosciutto», «Morte no interrogatório», «Colóquio com um fuzilado», «Grávida pedinte», ou o impressionante «A bomba», talvez o poema português mais representativo do movimento de condenação do holocausto atómico e nuclear, na sequência do bombardeamento de Hiroxima e Nagasáki pelos aviões norte-americanos, em Agosto de 1945 (um dos episódios históricos que, diga-se de passagem, mais assombraram os poetas de Notícias do Bloqueio): «O primeiro sopro arrancou-lhe a roupa; / o imediato levou também a carne. / Ao longo da rua / durante alguns segundos correu o esqueleto. / Mas a rua já não estava, / estava toda no ar; / de lá caíam bocados de prédios, bocados / de crianças, restos de cadilaques…/ O esqueleto não compreendia sozinho / aquela situação: / deixou-se tombar sobre algumas pedras radioactivas / e permitiu na queda o extravio de alguns ossos. // (Caso curioso: o coração / pulsou ainda três ou quatro vezes / entre o gradeamento das costelas.)»(Gonçalves, 1963: 45).

Já como dinamizador de iniciativas culturais e literárias e tradutor, o autor de Falo da Vertigem tem uma intervenção verdadeiramente singular e de grande influência sociocultural – em especial nos meios poéticos, como aliás assinala Jorge de Sena (v. Sena, 1983: 34). Pertenceu à direcção do Teatro Experimental do Porto (TEP), que ajudou a fundar (tendo chegado a ser esporádico actor) – e acrescente-se que a sua mulher (e mãe da sua filha Cláudia), Fernanda Gonçalves, veio a desenvolver no TEP uma expressiva carreira como actriz. De recordar ainda que, em 1953, o segundo espectáculo do TEP, intitulado A Nau Catrineta, tinha texto de Egito Gonçalves e era encenado por António Pedro e Alexandre Babo.

O poeta pertenceu também às direcções do Cineclube do Porto, da Cooperativa Árvore e da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Integrou ainda a Sociedade Portuguesa de Escritores (Delegação Norte), muito antes do fecho e da destruição da sua sede em Lisboa pela PIDE, em 1965. Leiam-se as palavras de Egito evocando Óscar Lopes e a acção conjunta que desenvolveram no Porto, dando assim conta da expressão que a resistência político-cultural de marca comunista conheceu no meio portuense, na viragem da década de 50 para os primeiros anos 60, com a consequente influência nos meios intelectuais: «O nosso verdadeiro convívio, que superava a amizade e a admiração, veio com o trabalho constante – no mínimo semanal – que tivemos de desenvolver quando Óscar Lopes presidiu à Delegação do Norte da Sociedade Portuguesa de Escritores, dirigindo um pequeno grupo a que me honro de ter pertencido. Os cerca de oitenta colóquios com escritores, realizados durante cerca de cinco anos, primeiro na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras, mais tarde no Clube Fenianos Portuenses, constituíram um esforço insano e heróico – com a PIDE sempre às canelas – cuja história está por fazer.» (Gonçalves, 2020)

Além do PEN Clube Português, Egito integrou ainda as direcções da Associação Portuguesa de Escritores e da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA); nos últimos anos de vida era, aliás, o principal responsável da SPA na Invicta, mantendo em funcionamento o seu núcleo portuense. Internacionalmente, participou no Congresso para a Liberdade da Cultura (França) e na Comunitá Europea degli Scrittori (Itália), foi membro da Hispanic Society of America (Nova Iorque) e, logo no início dos anos 60, correspondente do Centre International d’Études Poétiques (Bélgica).

Por outro lado, o seu trabalho como tradutor e promotor de intercâmbios culturais e linguísticos focados na poesia é absolutamente ímpar e foi, por diversas vezes, premiado. Tendo viajado muito na Europa, Egito Gonçalves foi activo participante em diversos foros poéticos, designadamente na Finlândia – a cujas paisagens era especialmente sensível, como atesta a sua poesia – e na Bulgária, durante o período socialista. Verteu para Português poetas da Hungria, da Roménia, da Bulgária, da Finlândia, da Holanda, da Grécia (como o grande poeta comunista Yannis Ritsos), poetas de língua espanhola e não só. Traduziu, por exemplo, os franceses Eugène Guillevic e Paul Éluard (Poemas de Amor e Liberdade, de 2000, é uma das magníficas traduções que nos legou) – vozes que, juntamente com outras, deixaram algum rasto na sua própria poesia. É que a escrita de Egito Gonçalves vai conhecer uma evolução a partir dos anos 60, sensível, em vários aspectos, à experiência surrealista, apurando o lado imagístico e metafórico da expressão poética e dilatando a discursividade, em poemas nos quais a dimensão amorosa e erótica se acentua, bem como o gosto pela evocação/recriação, sempre muito sensível, de lugares, pessoas e acontecimentos marcantes.

No seu trabalho de tradução inclui-se ainda a organização de uma Antologia da Poesia Espanhola do Após-Guerra (1962), tendo-lhe sido atribuído, em 1977, o Prémio de Tradução Calouste Gulbenkian, da Academia das Ciências de Lisboa, pela selecção de Poemas da Resistência Chilena. Em 1985, recebeu também o Prémio Internacional Nicola Vaptsarov, da União de Escritores Búlgaros.

No plano político, Egito Gonçalves interveio igualmente de modo activo, antes e depois do 25 de Abril. Participou na campanha do General Humberto Delgado para Presidente da República (1958), pertenceu ao MUD e às Comissões Nacional e Executiva do III Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro, em Abril de 1973, além de, por diversas vezes, ter tomado posições públicas em abaixo-assinados e petições que afrontaram o fascismo, e de ter desenvolvido também actividade conspirativa, como indiciam diversos textos seus, incluindo o singular poema «A conspiração», que podemos ler no livro póstumo, incompleto e belíssimo, Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda um Copo de Crepúsculo. Editado em 2006 com memorável prefácio de Manuel António Pina, trata-se de uma obra que, entre outros aspectos a relevar, configura um comovente tributo, pleno de encanto, à cidade que Egito amava e onde passou quase toda a sua vida: o Porto.

O envolvimento quer do autor de O Amor Desagua em Delta quer de muitos outros intelectuais no processo revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril criou condições para que muitos se associassem ao projecto político do PCP. No caso de Egito Gonçalves, foi um desaguar natural, tendo em conta a sua luta no tempo do fascismo, a sua participação em movimentos e iniciativas unitárias, o seu convívio estreito com comunistas como Óscar Lopes, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão e muitos outros. Egito inscreveu-se formalmente no Partido durante o PREC. Muitos lembrarão o poema interpelante e expressivo que, em 25 de Abril de 1977, dedica a Vasco Gonçalves (v. Loures; Simões, 1984: 101-102), bem como o companheirismo ideológico com as causas da justiça social, da defesa dos interesses populares, da liberdade e da paz que manterá vivas até ao fim dos seus dias, mesmo quando as aventuras da arte e da existência humana o chamaram a outras experiências vitais.

O poeta de recursos amplos e o «lugar original» que ocupa na nossa poesia – escreve-o Sena (1983: 34) – levará ao reconhecimento de Egito Gonçalves em diversas circunstâncias. Pela sua lírica, sempre muito vigiada, dos anos 70 a 90, espraia-se um misto de melancolia e de culto da afectividade, temperados pelo gosto de viver, como se um certo sentido da esperança jamais o tivesse abandonado (O Pêndulo Afectivo, com novo ensaio prefacial de Óscar Lopes, é o título da importante antologia da sua poesia que traz a lume em 1991). Um dos seus melhores livros, E no entanto Move-se (1995) obtém o Prémio de Poesia do Pen Clube, o Prémio Eça de Queirós e o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores e é nele reconhecível um fôlego e uma mestria poética invulgares, abrangendo um complexo temático simultaneamente marcado pela unidade e pela diversidade. Como assinala a companheira dos últimos anos, a poetisa Rosa Alice Branco (1995), que prefacia esta obra de Egito, o «pacto entre o corpo e o mundo», a «memória afectiva», a «ternura», o «humor», a «multiplicidade dos tempos» marcam presença num livro que seduz, além disso, pelo poder evocativo de espaços, de momentos e de pessoas e pela homenagem à literatura que vários poemas também constituem (vejam-se as inúmeras referências culturais, interartísticas e intertextuais contidas neste notável conjunto de composições).

A terminar, será difícil esquecer os dois longos poemas que compõem A Ferida Amável (2000), último livro publicado em vida pelo poeta, exaltação do corpo e da paixão que não nos deixa esquecer a sua voz. Uma voz capaz de, pronunciando as palavras, as corporalizar, activando-lhes o «cio», como se pode ler nestes versos e no modo intencional como é feita a partição entre o quarto e o quinto: «Sento-me / na cadeira do café, / entrego-me ao conforto da espera / escrevendo palavras de amor, pronun- / ciando-as para / lhes dar corpo. (…)» (Gonçalves, 2000: 25, itálico nosso).

Com poemas traduzidos em Francês, Polaco, Búlgaro, Inglês, Turco, Romeno, Catalão e Castelhano, Egito Gonçalves é, pois, um autor a ler e a reler. E um poeta que soube ser, além do mais, um intelectual «de olhos abertos», influente e interventivo, empenhado em «sonhar a terra livre e insubmissa» (como queria o seu companheiro de geração, Daniel Filipe).

Referências bibliográficas

Branco, Rosa Alice (1995). «O corpo da distância na poética de Egito Gonçalves», in Gonçalves, E.. E No Entanto Move-se. Lisboa: Quetzal, pp. 9-19.

Gonçalves, Egito (1963). Os Arquivos do Silêncio. Lisboa: Portugália.

Gonçalves, Egito; Leitão, Luís Veiga; Carlos, Papiniano (1973). Sonhar a Terra Livre e Insubmissa. Porto: Inova.

Gonçalves, Egito (1995). E no entanto Move-se. Lisboa: Quetzal.

Gonçalves, Egito (2000). A Ferida Amável. Porto: Campo das Letras.

Gonçalves, Egito (2006). Entre Mim e a Minha Morte Há ainda um Copo de Crepúsculo. Porto: Campo das Letras.

Gonçalves, Egito (2020). «Para o Óscar um abraço», disponível em http://www.porto.pcp.pt/index.php/oscar-lopes-2/nas-palavras-de/2428-egito-goncalves (acedido em 10-2-2020).

Lopes, Óscar (1963). «A poesia de Egito Gonçalves», in Gonçalves, E.. Os Arquivos do Silêncio. Lisboa: Portugália, pp. IX-XLIII.

Loures, Carlos; Simões, Manuel (coord.) (1984). Poemabril – antologia poética. Tomar: Nova Realidade.

Martinho, Fernando J. B. (1996). Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50. Lisboa: Colibri.

Sena, Jorge de (1983). «Egito Gonçalves», in Líricas Portuguesas II volume. Lisboa: Edições 70 (sel. e apres. de Jorge de Sena), p. 34.