Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 365 - Mar/Abr 2020

Friedrich Engels - Co-fundador do socialismo científico

por Revista «O Militante»

No ano em que se comemora o II Centenário do Nascimento de Friedrich Engels,O Militante, associando-se a esse acontecimento, publica ao longo de dois números uma versão revista de uma pequena biografia do amigo, companheiro de luta e continuador de Marx, publicada em 1976 pelas Edições «Avante!» na colecção ABC do Marxismo-Leninismo sob o título Friedrich Engels.

Um dos méritos de Friedrich Engels foi ter sido co-fundador do socialismo científico, a teoria que não só se tornou a arma teórica dos oprimidos e explorados de todo o mundo, mas que também é o guia directo para uma prática revolucionária transformadora da realidade.

«A seguir ao seu amigo Karl Marx (que morreu em 1883), Engels foi o mais notável sábio e mestre do proletariado contemporâneo em todo o mundo civilizado.» 1 Friedrich Engels, que morreu a 5 de Agosto de 1895, em Londres, tal como o seu amigo e companheiro de luta Karl Marx, pôs toda a sua vida, toda a sua força física e espiritual ao serviço da luta de libertação do proletariado internacional.

As características dos intelectuais burgueses — radicalismo verbalista, por um lado, e oportunismo na prática, por outro — sempre lhe foram estranhas. A vida e a obra de Friedrich Engels constituem uma unidade que se reflecte na unidade de teoria e prática do marxismo.

As «Cartas de Wuppertal»

Friedrich Engels nasceu há 150 anos, precisamente a 28 de Novembro de 1820, na cidade de Barmen, na Província Renana que pertencia ao reino da Prússia. O pai era fabricante de têxteis. Por desejo do pai, abandonou o liceu prematuramente, em Setembro de 1837. Seguidamente trabalhou durante pouco tempo como ajudante comercial na firma do pai. Depois transferiu-se para Bremen em meados de 1838, para fazer um estágio comercial numa grande firma.

Nas horas livres, Engels interessava-se particularmente pela literatura sua contemporânea. Interessou-se, sobretudo, pelos escritores da Jovem Alemanha, um grupo de autores da oposição democrático-burguesa.

O primeiro fruto da sua própria actividade jornalística foram as «Cartas de Wuppertal», publicadas no Telégrafo para a Alemanha, onde desmascarava o obscurantismo e a hipocrisia da burguesia e do clero. Além disto, as «Cartas» contêm uma descrição da exploração e da miséria dos operários e dos artesãos. Embora estes escritos denotem ainda o ponto de vista limitado do liberal oposicionista, a verdade é que despertaram considerável atenção — sobretudo, evidentemente, em Wuppertal.

O jovem Engels reviu a sua posição filosófica — o cristianismo herdado —, depois de ter estudado intensivamente a filosofia de Hegel e diversos escritos de crítica religiosa, entre outros a obra A Vida de Jesus do jovem hegeliano David Strauss. Jovens hegelianos era o nome dado aos discípulos de Hegel de tendência política de esquerda. A alteração da posição filosófica trouxe consigo a mudança da posição política de Engels. O liberal oposicionista tornou-se o democrata revolucionário.

Do democratismo revolucionário ao comunismo

Após a conclusão do seu estágio comercial em Bremen, Engels regressou a Barmen em 1841. Poucos meses depois partia para Berlim, para aí cumprir o serviço militar, durante um ano, como voluntário. Aproveitou o tempo livre para frequentar aulas de filosofia na Universidade e fazer contactos com o círculo dos Livres, os jovens hegelianos de Berlim.

A filosofia de Hegel podia ser utilizada para tirar conclusões revolucionárias, porque partia do princípio de que nada permanece eternamente, pois que tudo se desenvolve. Portanto, a velha ordem feudal podia, ou melhor, tinha de ser substituída por uma outra, a burguesa. Assim se compreende que praticamente toda a intelectualidade progressista e revolucionária burguesa deste período fosse constituída por hegelianos de esquerda.

A partir deste momento, numa série de escritos contra Schelling, o jovem Engels provou como eram sólidos os seus conhecimentos da filosofia alemã. Nestes escritos, e partindo de um ponto de vista hegeliano de esquerda, Engels submeteu as concepções reaccionárias de Schelling a uma crítica severa.

Depois de terminar o serviço militar, e de uma curta estada na sua cidade natal, Engels partiu para Inglaterra no fim de 1842. Aí, em Manchester, ia completar a sua formação comercial com um estágio na fábrica de fiação Ermen & Engels. Já no princípio desse ano começara a colaborar na Gazeta Renana, o jornal porta-voz da burguesia oposicionista. A caminho de Inglaterra, durante uma curta paragem em Colónia, visitou a redacção da Gazeta Renana e aí conheceu Karl Marx. O encontro foi, no entanto, curto e superficial e, por isso, não resultou dele nenhum intercâmbio intensivo de ideias entre os dois.

Chegado a Inglaterra, Engels iniciou imediatamente o estudo das condições sociais e políticas. Ainda em Dezembro de 1842 apareceram alguns artigos seus na Gazeta Renana, onde, entre outras coisas, dava a conhecer o cartismo 2 ao leitor alemão. Do cartismo diria Lénine mais tarde que fora «o primeiro movimento proletário revolucionário amplo, realmente de massas, politicamente organizado» 3. Em Manchester, onde exercia a sua actividade profissional, Engels tinha a possibilidade de acompanhar permanentemente as actividades reivindicativas dos cartistas e, antes de mais, de estudar as próprias condições de trabalho e de vida das massas proletárias. A este respeito escreveu mais tarde: «Em Manchester saltou-me aos olhos que os factos económicos, que até agora não desempenham papel nenhum na historiografia, ou apenas um papel desprezível, são, pelo menos no mundo moderno, um poder histórico decisivo; que eles formam a base para a génese das hodiernas oposições de classes; que estas oposições de classes, nos países onde graças à grande indústria se desenvolveram plenamente, portanto nomeadamente a Inglaterra, voltam a ser a base da formação política de partidos, das lutas de partidos e, assim, da história política toda.» 4 Sem dúvida que estas conclusões de Engels não foram só o resultado da sua observação da prática do movimento operário inglês. Foram também, em grande parte, o resultado dos seus estudos dos economistas burgueses 5, dos socialistas e comunistas utópicos 6 e dos seus conhecimentos filosóficos anteriores.

Engels evoluíra, assim, do idealismo para o materialismo e do democratismo revolucionário para o comunismo. Testemunho desta evolução é o seu trabalho Esboços para Uma Crítica da Economia Nacional, onde analisa a estrutura económica da sociedade burguesa e as suas categorias básicas de uma perspectiva socialista.

Durante a sua estada em Inglaterra, Engels não se limitou a adquirir uma maior clareza de princípios na sua crítica dos processos sociais; estabeleceu também contactos com o movimento operário inglês e internacional. Deste modo, durante a sua estada em Londres, contactou, entre outros, com os dirigentes da Liga dos Justos.

O nascimento do socialismo científico

Em fins de Fevereiro de 1844 publicaram-se os ensaios de Engels Esboços para Uma Crítica da Economia Nacional e A Situação da Inglaterra, nos Anais Franco-Alemães, publicados em Paris por Karl Marx e Arnold Ruge 7. Karl Marx e Friedrich Engels começaram a corresponder-se por causa da publicação do primeiro destes ensaios.

Ao longo de 1844 Engels continuou os seus estudos sobre as condições de trabalho e de vida da classe operária inglesa. Recolheu sobretudo material para a obra que planeara sobre a história de Inglaterra e a situação da classe operária.

Em fins de Agosto de 1844 deixou a Inglaterra para regressar a Barmen. Durante a paragem em Paris visitou Karl Marx. Em longas discussões, que se estenderam por dez dias ao todo, chegaram a acordo em todas as questões políticas, económicas e ideológicas e ficaram amigos. Sobre este assunto Engels escreveu posteriormente: «Marx não tinha só chegado à mesma opinião, tinha-a generalizado já nos Anais Franco-Alemães: não é de forma nenhuma o Estado que condiciona a sociedade burguesa, mas a sociedade burguesa que condiciona o Estado; portanto, são as condições económicas e o seu desenvolvimento que explicam a política e a sua história, e não o contrário. Quando, no Verão de 1844 visitei Marx em Paris, estabeleceu-se a nossa completa concordância em todos os domínios teóricos, e daí data o nosso trabalho comum.» 8

O começo da amizade entre Marx e Engels foi o momento de nascimento do socialismo científico. Ao contrário do comunismo igualitário de Weitling 9 e do socialismo utópico inglês e francês, que assentava principalmente em postulados morais e éticos, o socialismo científico de Karl Marx e Friedrich Engels baseava-se no reconhecimento de processos sociais reais, no reconhecimento do carácter de classe da sociedade burguesa e da tarefa histórica do proletariado dele resultante — conduzir ao derrubamento do domínio da burguesia e edificar a sociedade sem classes, a sociedade comunista.

No citado ensaio Para a História da Liga dos Comunistas, Engels escreve a este propósito: «E comunismo nunca mais significou: congeminação, por meio da fantasia, de um ideal de sociedade o mais perfeito possível, mas: compreensão [teórica] da Natureza, das condições e dos objectivos gerais, delas resultantes, da luta conduzida pelo proletariado.» 10

Marx e Engels começaram o seu trabalho comum em Paris, ainda em 1844, com a obra A Sagrada Família. Nela se ocuparam criticamente, e de um ponto de vista comunista, da filosofia de Hegel, mas sobretudo da dos seus sucessores jovens hegelianos. O balanço definitivo da filosofia idealista de Hegel e dos jovens hegelianos fizeram-no Marx e Engels na sua obra póstuma, mas escrita em 1845, A Ideologia Alemã 11.

Organização do proletariado

Tendo chegado às conclusões atrás referidas, Marx e Engels reconheciam agora a necessidade de analisar cientificamente e em pormenor as leis do movimento da sociedade capitalista e da Natureza. Mas antes de mais chamaram a si a tarefa de criar uma organização proletária que, por um lado, tivesse em conta o estado de desenvolvimento da consciência da classe operária e que, por outro, na sua força exprimisse também o desenvolvimento das contradições objectivas da sociedade burguesa.

Engels tinha estabelecido contacto, já em 1843, em Londres, com a Liga dos Justos, fundada em França em 1836, e cujos membros eram principalmente refugiados alemães. Nessa altura declinara um convite para entrar para a Liga, porque a organização estava marcada por influências pequeno-burguesas, nomeadamente do comunismo igualitário de Weitling. Além disso, adoptara métodos de trabalho conspirativos que não levavam a parte nenhuma. Mas isto não impedia Marx e Engels, de modo nenhum, de se corresponderem com dirigentes da Liga, de se informarem constantemente sobre o desenvolvimento geral da Liga e, tanto quanto possível, de exercerem eles próprios influência na Liga, sobretudo por meio de panfletos em que criticavam severamente as ilusões pequeno-burguesas.

Depois da estada em Paris, Engels regressou a Barmen e aí trabalhou na conclusão da sua obra A Situação da Classe Operária em Inglaterra. Mas aproveitou também este período para, simultaneamente, esclarecer os operários de Elberfeld sobre a situação em que se encontravam e lhes explicar os objectivos do comunismo.

Depois de uma estada comum em Inglaterra, Marx e Engels fundaram finalmente, no princípio de 1846, em Bruxelas, um comité comunista de correspondência. Este comité visava estimular a unidade ideológica e organizativa dos operários progressistas. A breve trecho se verificou que Weitling e outros intérpretes do comunismo utópico tinham perdido grande parte da sua influência na Liga dos Justos, e que dirigentes da organização viram a necessidade urgente de fazer assentar o comunismo numa base científica.

Nos primeiros meses de 1847 um representante da Liga esteve primeiramente em Bruxelas com Karl Marx, depois em Paris com Engels. Pretendia convencê-los a entrar para a Liga, assegurando-lhes que a maioria dos seus membros estava absolutamente convencida da correcção das concepções de ambos. Queria ainda encarregá-los da redacção de um manifesto para a Liga. «O que nós tínhamos até então criticado a esta Liga era agora abandonado pelos próprios representantes da Liga como erróneo; […] Entrámos, portanto, para a Liga.» 12

No primeiro Congresso da Liga, em Londres, no Verão de 1847, onde ficou decidida a sua reorganização, Engels representava as comunas de Paris, e o seu amigo Wilhelm Wolff 13 as secções de Bruxelas. E a Liga dos Justos tornou-se a Liga dos Comunistas. A influência do socialismo científico propagado por Marx e Engels fez-se sentir não só no novo nome, mas sobretudo nos estatutos que seriam aprovados no segundo Congresso da Liga. Assim, o artigo 1.º diz: «O objectivo da Liga é o derrubamento da burguesia, a dominação do proletariado, a superação da velha sociedade burguesa que repousa sobre oposições de classes, e a fundação de uma nova sociedade sem classes e sem propriedade privada.» 14

No segundo Congresso da Liga, realizado de 29 de Novembro a 8 de Dezembro de 1847, Karl Marx teve oportunidade de expor pormenorizadamente os novos princípios do socialismo e de esclarecer dúvidas ainda existentes. Os delegados aceitaram por unanimidade as concepções expostas por Marx e encarregaram-no a ele e a Engels da elaboração do programa da Liga sob a forma de um manifesto.

Em Fevereiro de 1848 apareceu a obra básica do marxismo, elaborada conjuntamente por Marx e Engels a partir de um rascunho de Engels — o Manifesto do Partido Comunista 15. Os dois grandes mestres e lutadores do proletariado esboçaram aí o desenvolvimento do capitalismo, expuseram as tarefas da classe operária para a superação das condições de exploração e de servidão e superaram também todas as formas burguesas e pequeno-burguesas de socialismo até ai dominantes. «Este pequeno livrinho vale por tomos inteiros: ele inspira e anima até hoje todo o proletariado organizado e combatente do mundo civilizado.» 16

Contudo, Marx e Engels não se deram por satisfeitos, de modo algum, com a sua actividade para a Liga dos Comunistas. Simultaneamente foram alargando a sua influência a organizações burguesas e a diversos órgãos de imprensa. Entre outras actividades, Engels foi até colaborador do jornal cartista A Estrela do Norte. Marx e Engels jamais se deixaram apoderar pela obsessão de um «culto do proletariado». Pelo contrário: trabalharam sempre com todas as forças sociais progressistas, mesmo quando se tratava de sociais-democratas de cariz pequeno-burguês que não era possível incluir no destacamento de vanguarda do proletariado revolucionário.

A revolução burguesa

Depois de a Revolução de Fevereiro de 1848 ter rebentado em França, Marx e Engels foram para Paris. A queda da monarquia de Luís Filipe e a proclamação da República constituíram um extraordinário êxito do proletariado francês. Logo a seguir, em Março de 1848, rebentava a revolução na Alemanha. Imediatamente após a sua chegada a Paris, Engels tinha começado a trabalhar na direcção central da Liga dos Comunistas, e colaborava agora com Marx na elaboração das Reivindicações do Partido Comunista na Alemanha — o programa dos comunistas para a Revolução.

Trezentos a quatrocentos operários — a maioria dos quais membros da Liga — puseram-se a caminho da Alemanha, para aí fazerem valer as concepções dos comunistas. Sobre isto escreveu Engels: «Como era fácil de prever, face ao movimento das massas do povo então desencadeado, a Liga mostrou-se uma alavanca muito fraca.» 17

Uma vez que o nível de desenvolvimento do proletariado alemão era ainda muito baixo, devido à fragmentação da Alemanha e à escassa industrialização, a estratégia e táctica da Liga só podia ser um pacto com as forças burguesas revolucionárias. Marx e Engels tinham-se apercebido da situação com toda a clareza. Embora vissem a impossibilidade de fundar um partido proletário de massas, formaram, logo após o seu regresso, uma série de associações de operários para reforçar a influência da Liga. Aconselharam ainda os membros da Liga a entrarem para as organizações dos democratas revolucionários e aí fazerem valer os seus pontos de vista — o que eles próprios puseram exemplarmente em prática.

O projecto mais importante foi, sem dúvida, a fundação de um jornal revolucionário. A Nova Gazeta Renana, com o subtítulo «Órgão da Democracia», dirigida por Marx e Engels do primeiro ao último número, correspondeu plenamente ao seu objectivo: representar todas as forças progressistas da Alemanha.

Porque Marx estava muito sobrecarregado com a selecção dos materiais e com tarefas de coordenação e organização, Engels encarregou-se a princípio da maior parte dos editoriais da Nova Gazeta Renana. A sua intervenção a favor de todas as forças democráticas revolucionárias e progressistas não impedia Marx e Engels, de modo nenhum, de defenderem permanente e consequentemente o ponto de vista da classe operária, a força social mais progressista. Particularmente nos seus artigos sobre a insurreição de Junho 18 do proletariado parisiense, Marx e Engels defenderam de um modo notável a posição da classe operária. Na sua análise dos métodos da luta, Engels lançou os fundamentos da doutrina marxista da insurreição armada.

Em Setembro de 1848 foi instaurado um processo por alta traição contra Friedrich Engels e outros. Também contra Marx se agravavam as medidas repressivas, com o reforço crescente da contra-revolução. Quando foi declarado o estado de sítio em Colónia, e Engels se viu na iminência de ser preso, saiu da Alemanha e dirigiu-se a Bruxelas. Foi preso nesta cidade, mas pouco depois era expulso para França. De Paris seguiu a pé para a Suíça. Poucos meses mais tarde, Engels entrava de novo em Colónia, onde voltou a dar todo o seu esforço à Nova Gazeta Renana.

Quando, em Maio de 1848, rebentou a insurreição de Elberfeld, Engels dirigiu-se para lá com operários revolucionários e encarregou-se de diversas tarefas directivas. Engels só saiu de Elberfeld e voltou a Colónia quando o comportamento da burguesia comprometeu a unidade das forças revolucionárias. A Nova Gazeta Renana teve que suspender a sua publicação em 19 de Maio de 1849, devido à expulsão de Karl Marx da Prússia e ainda a um novo mandado de captura contra Engels por ter tomado parte na insurreição de Elberfeld. Outros redactores foram igualmente perseguidos. Na sua última edição, impressa a vermelho, os redactores despediram-se da seguinte maneira: «A sua última palavra será sempre e em toda a parte: Emancipação da classe trabalhadora!» 19

Em muitos dos seus artigos, Marx e Engels tinham já apontado a causa do fracasso da revolução. Desmascararam, antes de mais, a traição da burguesia liberal, que, temendo o povo e, particularmente, o crescimento do proletariado (levantamento dos tecelões da Silésia em 1844), se aliara às forças reaccionárias feudais em vez de lutar pelas liberdades burguesas ao lado dos camponeses, da pequena burguesia e do proletariado. Em Julho de 1849 Engels alistou-se no exército revolucionário de Baden-Palatinado, para tomar parte activa nas lutas em Baden. Juntamente com o comandante do corpo, Willich, Engels elaborou uma série de planos para a execução de complicadas operações militares. Depois da derrota do levantamento, a divisão em que Engels lutava foi a última a passar a fronteira da Suíça.

Reorganização

Depois da derrota da revolução no Continente, Engels dirigira-se para a Suíça, onde se encontrou com Wilhelm Wolff e Wilhelm Liebknecht. A conselho de Marx, Engels deixou a Suíça em Outubro de 1849. De novo em Londres, deu o seu apoio ao plano de Marx de publicar a Nova Gazeta Renana: Revista Político-Económica e de meter ombros a uma reorganização da Liga dos Comunistas. «Mas, o para que essa organização havia de servir dependia muito essencialmente de se as perspectivas de um surto renovado da revolução se realizassem. E, no decurso do ano de 1850, isso tornou-se cada vez mais inverosímil, mesmo impossível.» 20 Marx escreveu sobre o assunto na Nova Gazeta Renana: Revista Político-Económica: «Com esta prosperidade geral, em que as forças produtivas da sociedade burguesa se desenvolvem tão exuberantemente quanto é, em geral, possível no interior das relações burguesas, não se pode falar de maneira nenhuma de uma revolução real21

A diferente apreciação da situação por Marx, Engels e os seus partidários, de um lado, e por um grupo ultra-esquerdista formado à volta de Willich 22 e Schapper (23, por outro, acabou por levar à cisão da Liga, e pouco depois, à sua completa dissolução. Marx e Engels acusavam, com razão, Schapper e Willich de comportamento pequeno-burguês, porque eles substituíam a análise materialista da situação concreta pelo verbalismo-revolucionário.

Entretanto, Friedrich Engels publicava a sua notável obra A Guerra dos Camponeses Alemães na Nova Gazeta Renana: Revista Político-Económica. Marx iniciara já em Julho de 1850 o estudo sistemático da história e da economia, a preparação para uma obra volumosa de economia política que iria relegar para plano secundário tudo o que até então fora feito neste domínio.

Notas

(1) V. I. Lénine, «Friedrich Engels», in Obras Escolhidas em três tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, t. 1, 1981, p. 28. (Nota das Edições «Avante!».)

(2) A designação «cartismo» deriva de Carta do Povo, um projecto de lei que devia ser apresentado ao Parlamento inglês e continha diversas reivindicações, entre outras o direito ao sufrágio universal. O movimento cartista, que se desmembrou em 1848, era sem dúvida revolucionário, mas não socialista.

(3) V. I. Lénine, «A Terceira Internacional e o seu lugar na história», in Obras Escolhidas em seis tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, t. 4, 1986, p. 236. (Nota das Edições «Avante!».)

(4) Marx-Engels, Werke, vol. 21, p. 211.

(5) Adam Smith, David Ricardo, Jean-Baptiste Say, J. R. MacCulloch, James Mill e outros.

(6) Ver o caderno intitulado Precursores do Socialismo Moderno (O socialismo utópico) desta colecção. (Nota das Edições «Avante!».)

(7) Arnold Ruge (1802-1880), publicista radical, jovem hegeliano, democrata pequeno-burguês, depois de 1866 partidário de Bismarck. Em 1844, com Marx, editor dos Anais Franco-Alemães.

(8) F. Engels, Para a História da Liga dos Comunistas, in Marx/Engels, Obras Escolhidas em três tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, t. III, 1985, p. 199. (Nota das Edições «Avante!».)

(9) Wilhelm Weitling (1808-1871), destacado representante do movimento operário alemão na fase do seu nascimento; membro da Liga dos Justos, divulgou um comunismo igualitário utópico. Em 1849 emigrou para a América e desligou-se do movimento operário.

(10) F. Engels, Para a História da Liga dos Comunistas, ed. cit., p. 199. (Nota das Edições «Avante!».)

(11) Ver K. Marx/F. Engels, A Ideologia Alemã (1.º capítulo), Edições «Avante», Lisboa, 2020. (Nota das Edições «Avante!».)

(12) F. Engels, Para a História da Liga dos Comunistas, ed. cit., p. 202. (Nota das Edições «Avante!».)

(13) Wilhelm Wolff (1809-1864), revolucionário proletário; participa no movimento estudantil; de 1843 a 1848 preso na Prússia; membro da Liga dos Comunistas e redactor da Nova Gazeta Renana; amigo comum de Marx e Engels. Marx dedicou-lhe o primeiro volume de O Capital.

(14) F. Engels, Para a História da Liga dos Comunistas, ed. cit., p. 202. (Nota das Edições «Avante!».)

(15) Ver K. Marx/F. Engels, Manifesto do Partido Comunista, Edições «Avante!», Lisboa, 5.ª ed., 2011. (Nota das Edições «Avante!».)

(16) V. I. Lénine, «Friedrich Engels», ed. cit., t. 1, 1981, p. 32. (Nota das Edições «Avante!».)

(17) A revolta armada do proletariado parisiense iniciada em 23 de Junho de 1848; opunha-se à destruição das conquistas da Revolução de Fevereiro, nomeadamente as oficinas nacionais e uma comissão operária.<

(18) A revolta armada do proletariado parisiense iniciada em 23 de Junho de 1848; opunha-se à destruição das conquistas da Revolução de Fevereiro, nomeadamente as oficinas nacionais e uma comissão operária.<

(19) Marx/Engels, Werke, vol. 6, p. 519.

(20) F. Engels, Para a História da Liga dos Comunistas, ed. cit., p. 208. (Nota das Edições «Avante!».)

(21) Marx/Engels, Werke, vol. 21, p. 221.

(22) August Willich (1812-1870, membro da Liga dos Comunistas, comandante de um corpo de voluntários na revolta de 1849, em Baden-Palatinado; sectário; general do exército dos Estados do Norte, na guerra civil americana.

(23) Karl Schapper (1812-1870), membro da Liga dos Comunistas; em 1850, dirigente da fracção sectária da Liga; a partir de 1856, nova aproximação de Marx; membro do Conselho Central da Internacional.